Há uma passagem em Progressive Dispensationalism [O Dispensacionalismo Progressivo], de Blaising e Bock, que há muito tempo tem inquietado os dispensacionalistas tradicionais:
Uma das diferenças mais marcantes entre os dispensacionalistas progressivos e os anteriores é que os progressivos não veem a Igreja como uma categoria antropológica na mesma classe que termos como Israel, Nações Gentias, Judeus e Povos Gentios. A Igreja não é uma raça separada da humanidade (em contraste com judeus e gentios), nem uma nação concorrente (ao lado de Israel e das nações gentias)... A Igreja é precisamente a humanidade redimida em si mesma (tanto judeus quanto gentios) tal como existe nesta dispensação, antes da vinda de Cristo. (pp. 49–50)
Para um dispensacionalista tradicional, essa é uma perspectiva difícil de assimilar. Charles Ryrie reagiu com perceptível desconcerto em seu clássico Dispensationalism [Dispensacionalismo]:
Os dispensacionalistas progressivos parecem estar borrando essa distinção ao dizer que o conceito não está na mesma classe do que é transmitido pelos conceitos de gentios, Israel e judeus. O que isso significa não está completamente claro. (Veja a discussão mais completa no capítulo 9.) No entanto, parece implicar que a distinção clássica entre Israel e a Igreja é menos nítida.
Para Ryrie, a proposta progressiva parece "borrar" a própria distinção entre Israel e a Igreja que os dispensacionalistas anteriores tanto se esforçaram para defender. Dizer que a Igreja "não está na mesma classe" que os gentios, Israel e os judeus soa, a seus ouvidos, como a dissolução de um sine qua non.
Mas a obscuridade que Ryrie percebe não está na tese progressiva. Ela reside em um pressuposto não declarado que governa silenciosamente sua leitura.
A Premissa Oculta
A crítica de Ryrie pressupõe que, para se manter uma distinção robusta entre Israel e a Igreja, as duas devem ser entidades comparáveis — membros de uma mesma classe. Israel, os gentios e a Igreja precisariam, então, estar alinhados em uma única linha de classificação, com a Igreja funcionando como uma terceira categoria antropológica ao lado das outras duas. Para que a distinção Israel–Igreja cumpra o papel dogmático que Ryrie dela espera, a Igreja deve ser, nessa lógica, mais uma categoria antropológica dentro da mesma classe. Somente assim, ele pressupõe, as fronteiras entre elas podem ser traçadas com nitidez e protegidas da confusão.
Para Ryrie, além disso, a Igreja deve ser entendida como um povo celestial — um terceiro povo dentro da mesma classe antropológica, distinguido como celestial em vez de terreno. Essa é a distinção que muitos descrevem como transcendental: um povo terreno (Israel) e um povo celestial (a Igreja). No entanto, nessa perspectiva, ambos continuam sendo povos de uma mesma classe antropológica.
Esse é o pressuposto que o Dispensacionalismo Progressivo (DP) silenciosamente rompe — e é exatamente esse rompimento que desorienta Ryrie.
Não é um Terceiro Membro da Mesma Classe
A afirmação progressiva não é que a Igreja seja um terceiro membro da mesma classe — mais um povo enfileirado ao lado de judeu e gentio. É a afirmação mais profunda de que a Igreja pertence a uma classe totalmente diferente. A distinção Israel–Igreja, portanto, não é apagada, mas reconfigurada: ela é preservada precisamente porque as duas não são membros rivais da mesma classe.
A Igreja é uma realidade que perpassa transversalmente as fronteiras corporativas dos diversos grupos de povos — Israel e as várias nações gentias. A Igreja é trans-antropológica, trans-étnica, trans-nacional e trans-territorial: ela atravessa cada uma dessas categorias em vez de ocupar o lugar de mais uma delas. Esses diversos grupos de povos estão sendo unidos a Cristo — e, por isso, uns aos outros — pelo Espírito Santo. A dimensão pactual dessa coparticipação é explorada em detalhes em Gentios e a Coparticipação nos Pactos da Promessa.
A Igreja não compete com Israel nem com qualquer realidade de grupo de povos, porque a Igreja é uma realidade que se sobrepõe, não uma realidade que compete. É uma categoria distinta em sua própria natureza tanto de Israel quanto dos gentios — não é de natureza antropológica nem étnica. É, fundamentalmente, uma categoria redentora e soteriológica, o que explica precisamente por que ela pode abranger dois povos etnicamente distintos — crentes judeus e gentios — unidos em Cristo, sem que nenhum deles perca sua identidade étnica ou sua particularidade escatológica.
Dessa forma, o programa para a Igreja é um programa em camadas, que varia conforme a categoria antropológica de cada participante. Os membros judeus conservam seu programa judaico, enquanto os membros gentios continuam em sua própria trajetória escatológica — o programa gentio para as nações (Gn 12:3).
Se a Igreja fosse uma terceira categoria antropológica da mesma classe que Israel e os gentios, consequências problemáticas surgiriam de imediato. A entrada na Igreja exigiria, em algum sentido real, a saída de uma categoria anterior. Tornar-se membro da Igreja seria deixar de ser judeu ou deixar de ser gentio. Mas essa não é a lógica de Paulo. Em Efésios 2–3, Cristo derruba o muro de separação entre judeu e gentio "para criar em si mesmo, dos dois, um novo homem" (καινὸς ἄνθρωπος) — não uma terceira etnia colocada ao lado das duas, mas a reconciliação das duas numa nova criação. A equação de Paulo não é:
- Judeus + Gentios = um terceiro povo antropológico.
É:
- Judeus e Gentios reconciliados em Cristo = uma nova humanidade — uma realidade transversal e trans-antropológica.
A Igreja é "nova" não porque seja uma nova entidade antropológica, étnica ou nacional posta ao lado de Israel e dos gentios, mas porque é a primícia da nova criação em Cristo, formada pela reconciliação dos dois.
Paulo confirma isso pela maneira como continua a falar. Dentro da própria Igreja, ele continua a chamar os crentes judeus de "judeus" e os crentes gentios de "gentios" (Romanos 11; 1 Coríntios 7:18–20). O judeu continua judeu; o gentio continua gentio. A identidade étnica não é apagada nem absorvida por uma etnicidade superior — porque a Igreja não é uma etnicidade.
Que Tipo de Categoria É Essa, Então?
Se a Igreja não é uma categoria étnica, o que ela é? Nomear a categoria é difícil, talvez porque não tenha um análogo exato na história anterior de Israel. Ainda assim, arrisco a seguinte descrição. A Igreja é:
- Cristológica, porque existe em união com Cristo, o Messias.
- Escatológica, porque é a primícia da nova criação.
- Pneumatológica, porque é formada pelo batismo do Espírito em um só corpo.
- Soteriológica, porque reúne os redimidos em Cristo.
- Pactual, porque participa das bênçãos da Nova Aliança.
- Multiétnica, porque inclui judeu e gentio sem se reduzir a um ethnos.
A Igreja, em síntese, não é constituída por sangue, terra, circuncisão, genealogia ou nacionalidade. É constituída pela união com Cristo por meio do Espírito. É por isso que a pergunta sobre se Deus tem um povo ou dois é, em última análise, uma questão mal formulada — a Igreja não é uma entrada no mesmo livro-razão que Israel; é um tipo completamente diferente de livro-razão.
Por Que a Distinção É Preservada
Uma vez que isso é compreendido, o suposto perigo se dissipa. A Igreja não absorve Israel, porque a Igreja não compete com Israel no mesmo plano. Israel é uma realidade etno-nacional-pactual, portadora de promessas históricas, territoriais e escatológicas enquanto povo. A Igreja é uma realidade de outra ordem, que reúne — na era presente — crentes judeus e crentes gentios em um só corpo sem dissolver suas identidades étnicas.
Não há, portanto, substituição, rejeição nem rivalidade — porque não há equivalência de classe para começar. Um crente judeu em Cristo continua sendo judeu (a esperança de Israel não foi anulada — Romanos 11:1–2, 25–29) e é, ao mesmo tempo, membro pleno do corpo de Cristo. As duas afirmações não colidem, porque operam em planos diferentes. A questão sobre se o remanescente israelita da presente dispensação conserva sua herança como Israel decorre diretamente disso: a pertença à Igreja não cancela a identidade israelita do membro judeu nem sua posição escatológica.
A Simetria Que Nunca Foi Prometida
Quando Ryrie escreve "o que isso significa não está completamente claro", a obscuridade não reside na tese. Ela reside em seu próprio referencial. O dispensacionalismo clássico opera com uma expectativa implícita de simetria — Israel e a Igreja como dois "povos" da mesma classe, dispostos em paralelo, cada um definido por espelhar o outro. O DP quebra essa simetria, e o custo dessa ruptura é exatamente o desconforto que Ryrie registra.
Mas o custo vale a pena, porque a assimetria não é uma falha no sistema; é uma característica do texto. Paulo nunca nos apresenta dois povos paralelos. Ele nos apresenta Israel segundo a carne, os gentios em suas nações e uma nova humanidade reconciliada no Messias — três realidades, sim, mas não três de um mesmo tipo.
Aqui, então, está a ironia no centro da preocupação de Ryrie. Ele temia que o DP, ao recusar colocar a Igreja na mesma classe que Israel e os gentios, houvesse dissolvido a distinção entre Israel e a Igreja. A verdade é o oposto. A substituição requer rivalidade; a rivalidade requer equivalência; a equivalência requer uma classe compartilhada. A Igreja não compartilha nenhuma dessas coisas com Israel. A Igreja não pode substituir Israel, porque a Igreja nem sequer é sua concorrente. Ela não está no mesmo plano de Israel, não disputa as promessas de Israel nem pertence à classe de Israel. A eleição, a vocação e os pactos de Israel permanecem de Israel — irrevogáveis, não transferidos, intocados. A Igreja é outra coisa: a primeira forma da humanidade redimida no Messias, reunindo judeu e gentio sem aplainar nenhum dos dois. Não há rivalidade, porque não há equivalência. Não há substituição, porque não há assento comum a ser tomado. Isso não é confusão. Isso é clareza.
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Perguntas Frequentes
A Igreja é uma terceira categoria antropológica ao lado de Israel e dos gentios?
A distinção Igreja–Israel desaparece se elas não estão na mesma classe?
Os crentes judeus perdem sua identidade judaica quando se unem à Igreja?
Que tipo de categoria é a Igreja, então?
Autor
Leonardo A. Costa
Pesquisador e escritor que explora o dispensacionalismo a partir de uma perspectiva progressiva, com profundo apreço pelo legado da tradição.
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