O Dispensacionalismo Progressivo e o Povo de Deus

Deus Tem Um Povo ou Dois? Por Que Essa É a Pergunta Errada

DispensacionalismoLeonardo A. Costa67 min de leitura

Nos debates sobre Israel e a Igreja, a expressão "povo de Deus" costuma ser tratada como se seu significado fosse óbvio: ou Deus tem dois povos — Israel e a Igreja —, com dois programas distintos, ou Deus tem um único povo, agora identificado com a Igreja, em quem as promessas de Israel encontram sua forma definitiva. Porém, esse enquadramento já decide demais. Ele converte "povo de Deus" em um problema numérico antes mesmo de perguntar que tipo de categoria a expressão ocupa nas Escrituras.

Este artigo defende que "povo de Deus" não é, antes de tudo, uma contagem de quantos grupos corporativos Deus possui, nem é simplesmente um sinônimo de "todos os redimidos". É uma categoria pactual. A Escritura chama um povo de povo de Deus quando Deus constitui esse povo por meio de um pacto, vincula-o a si pela fórmula pactual e lhe confere um lugar dentro de sua administração pactual. Isso significa que a categoria pode se expandir sem substituir Israel, e pode unir Israel e a Igreja sem dissolver as distinções entre eles.

É aqui que o Dispensacionalismo Progressivo (DP) se mostra mais sólido. Contra o Dispensacionalismo Tradicional (DT) clássico, ele recusa-se a separar a Igreja dos pactos de Israel como se os dois fossem povos sem relação, percorrendo trilhas paralelas. Contra as formas supersessionistas da Teologia da Aliança (TA), ele recusa-se a fazer da Igreja a entidade que absorve Israel ou herda suas promessas ao deslocá-lo. A pergunta mais adequada, portanto, não é simplesmente: "Deus tem um povo ou dois?" A pergunta mais adequada é: "Que tipo de categoria é povo de Deus?" Uma vez que essa pergunta seja respondida em termos pactuais, a evidência bíblica começa a se encaixar: uma única categoria pactual, múltiplos participantes constituídos pactuamente, unidade sem fusão, expansão sem substituição.

1. "Povo de Deus" É uma Categoria Pactual, Não Meramente Soteriológica

O passo decisivo foi dado por Rodney Decker, cujo artigo sobre "People of God" no Dictionary of Premillennial Theology enuncia o princípio com clareza:

PD não deve ser entendido como "todos os redimidos de todas as eras", pois tal definição transforma PD numa categoria sotérica e não pactual. Há uma mudança na composição de PD na Cruz, pois é nesse ponto que ocorre uma mudança de pactos.1

A distinção importa. Se "povo de Deus" significa simplesmente o conjunto de todos os indivíduos salvos ao longo da história, então sua composição nunca muda de verdade — ela apenas se acumula à medida que mais indivíduos são salvos. As mudanças pactuais tornam-se irrelevantes para a categoria, porque ela já está definida sem referência aos pactos. Mas não é assim que o Antigo Testamento trata a expressão. O AT não trata a condição de povo como um total acumulado de salvos. Ele trata a condição de povo como um status constituído pactuamente, e cada mudança na administração pactual produz uma mudança correspondente na composição do povo.

A própria definição de Decker é precisa. A pertença à categoria PD, escreve ele, "é determinada com base na participação numa estrutura pactual administrativa".2 A condição de povo é o conteúdo relacional dos pactos. Onde um pacto está em vigor, há um povo de Deus para quem ele está em vigor. Onde o pacto muda, o povo que ele constitui muda com ele.

A distinção não é um refinamento escolástico. É o eixo sobre o qual os erros do DT e da TA falham igualmente. Uma definição soteriológica de PD — "o conjunto de todos os salvos" — produz, de um lado, o supersessionismo (se a categoria é única e os salvos da Nova Aliança substituem os salvos sob Moisés) ou, de outro, dois povos paralelos (se a categoria é dividida e Israel e a Igreja são alocados em programas pactuais distintos). Ambos os problemas desaparecem quando a categoria é entendida como pactual. Um povo de Deus é constituído onde um pacto está em vigor. Múltiplas entidades pactuais podem estar sob o mesmo dossel pactual mais amplo sem se fundirem umas nas outras e sem se substituírem mutuamente.

1.1. Como o AT Constitui um Povo

A evidência para a definição pactual está na superfície do Antigo Testamento. O Israel étnico não começou a ser chamado de "o povo do SENHOR" simplesmente por descender de Abraão. A constituição técnica de Israel como povo do SENHOR — no linguajar da Septuaginta, a linguagem laos vinculada à reivindicação pactual do SENHOR — está ligada, no Êxodo e no Deuteronômio, ao pacto mediado no Sinai.

Êxodo 6.6–7 anuncia a constituição no tempo futuro:

"Eu sou o SENHOR, e vou tirá-los de debaixo do jugo dos egípcios… Eu os tomarei como meu povo e serei o seu Deus." (NVI)

Os verbos são futuros porque o ato de constituição ainda não havia ocorrido. O Êxodo os libertaria; o Sinai os constituiria. Antes disso, eles eram Israel etnicamente, mas ainda não haviam sido constituídos como povo pactual de Deus no sentido técnico que Êxodo 19.5–6 estabeleceria.

Êxodo 19.5–6 enuncia a condição:

"Se vocês obedecerem plenamente à minha voz e guardarem a minha aliança, serão o meu bem especial dentre todos os povos. Embora toda a terra seja minha, vocês serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa." (NVI)

A palavra segullah — "bem especial" ou "propriedade peculiar" — é o termo técnico para a posse pactual. Ela não designa um grupo demográfico, mas um grupo constituído pactuamente.

Deuteronômio 27.9 sela o ponto ao término da jornada pelo deserto:

"Fique quieto e escute, ó Israel: hoje você se tornou o povo do SENHOR, seu Deus." (NVI)

A palavra é hoje. Uma geração já etnicamente israelita, já descendente de Abraão, é dita hoje tornar-se o povo do SENHOR. O contraste com Êxodo 6.6–7 é importante: ali, a constituição de Israel como povo de Deus ainda estava no futuro — "eu os tomarei como meu povo". Aqui, na ratificação pactual, Moisés pode falar disso como realidade presente. Tornar-se povo de Deus, no vocabulário do próprio Antigo Testamento, é um evento pactual.

John Goldingay enuncia o princípio em uma única linha: o povo de Deus "não é meramente uma entidade natural. Um ato especial de Deus o cria... Não é sequer que Deus toma para si um povo já existente; ele traz um povo à existência. Eles só existem como povo por causa de um ato de Deus".3 A entidade natural — a descendência de Abraão, a língua compartilhada, o território comum — existia muito antes do Sinai. O que o Sinai fez foi constituir essa entidade natural em algo que ela anteriormente não era: o povo pactuamente constituído do SENHOR. A condição de povo no sentido técnico bíblico não é naturalizada; ela é criada por um ato de fala pactual.

A Primeira Epístola de Pedro retoma a mesma lógica e a aplica aos gentios:

"Vocês que antes não eram povo, mas agora são povo de Deus; vocês que não tinham recebido misericórdia, mas agora a receberam." (1 Pe 2:10 NVI)

Pedro não está fazendo uma afirmação ontológica sobre se seus leitores gentios existiam antes. Ele está fazendo a mesma afirmação que Deuteronômio 27.9 fez sobre Israel: a condição de povo é constituída pactuamente. Antes — quando os gentios eram estranhos aos pactos da promessa — eles eram "não-povo" no sentido covenantal técnico, mesmo existindo demograficamente. Quando Pedro diz "mas agora são povo de Deus", ele está aplicando a fórmula pactual de pertença ao povo a crentes gentios sob a Nova Aliança. A lógica é idêntica. A categoria é pactual — não demográfica, não étnica, não meramente soteriológica.

Essa aplicação não exige substituição. Ed Glenny apresenta o argumento com precisão: se o uso da imagética israelita por Pedro significasse que a eleição de Israel havia sido anulada, todo o apelo de Pedro à eleição divina entraria em colapso, porque o conforto oferecido aos seus leitores estaria modelado numa eleição que Deus já teria retratado. "A promessa e a fidelidade de Deus estão claramente em jogo", conclui Glenny, e o argumento de Pedro se tornaria "vazio se Israel não tem futuro".4 O ponto de Pedro, portanto, não é que a Igreja gentílica deslocou Israel, mas que os gentios foram constituídos como povo pactual de Deus pelo mesmo Deus fiel cuja eleição de Israel ainda permanece.

1.2. Estatísticas da Categoria

O próprio vocabulário confirma o papel estrutural do conceito. A expressão exata "povo de Deus" (hebraico 'am Elohim, grego laos theou ou laos tou theou, conforme a construção) ocorre apenas um punhado de vezes nas Escrituras — Decker conta cinco, em Juízes 20.2; 2 Samuel 14.13; Hebreus 4.9; 11.25; 1 Pedro 2.10.5 Mas os equivalentes — "povo do SENHOR", "meu povo", "teu povo", "seu povo" — referem-se ao povo de Deus aproximadamente quatrocentas vezes ao longo da Escritura.6 O vocabulário está em toda parte. E onde quer que apareça, aparece num enquadramento pactual: seja dentro de um contexto pactual explícito, seja na expectativa de que um pacto está prestes a ser estendido, renovado ou cumprido.

2. A Fórmula Pactual — A Assinatura Linguística da Condição de Povo

A expressão que liga a teologia veterotestamentária da condição de povo à teologia do pacto é a chamada Bundesformel (alemão para "fórmula pactual"), uma declaração bilateral recorrente que percorre, com variações, todo o corpus bíblico:

Eu serei o teu Deus, e vós sereis o meu povo.

Rolf Rendtorff, em seu estudo clássico Die Bundesformel (1995), documentou que essa fórmula aparece cerca de trinta vezes no Antigo Testamento e algumas vezes mais no Novo, e que em toda ocorrência ela está inserida num contexto explícito ou implicitamente pactual.7 Rudolf Smend analisou suas formas unilateral e bilateral, distinguindo entre os usos parciais ("Eu serei o teu Deus" isolado, ou "vós sereis o meu povo" isolado) e a declaração bilateral completa, que é a forma teologicamente mais madura.8 Paul Kalluveettil, trabalhando comparativamente com a linguagem dos tratados do Antigo Oriente Próximo em Declaration and Covenant (1982), mostrou que a fórmula é tecnicamente uma declaração de pacto — um ato de fala que estabelece e define a relação entre as partes.9

É por isso que a categoria PD e a categoria pacto não podem ser separadas. Dizer que alguém é o povo de Deus não é uma observação independente. É o conteúdo relacional de um pacto que existe entre Deus e aquele povo.

A entrada sobre PD no Tyndale Bible Dictionary faz a mesma conexão diretamente: Israel tornou-se o povo de Deus porque Deus o escolheu como sua possessão peculiar, e "a ideia do pacto está ligada a isso".10 O ponto é básico, mas estruturalmente fundamental: a condição de povo e o pacto pertencem um ao outro.

A fórmula percorre cada grande administração pactual da Escritura.

Pacto Abraâmico: Gênesis 17.7–8 —

"Estabelecerei a minha aliança… para ser o teu Deus e o Deus da tua descendência depois de ti… e serei o Deus deles." (NVI)

Pacto Mosaico: Êxodo 6.7 — "Eu os tomarei como meu povo e serei o seu Deus" (NVI); Levítico 26.12 —

"Andarei no meio de vocês; serei o seu Deus, e vocês serão o meu povo." (NVI)

Deuteronômio 26.17–19; 29.13.

Pacto Davídico: 2 Samuel 7.24 —

"Estabeleceste o teu povo Israel como povo teu para sempre, e tu, SENHOR, tornaste-te o seu Deus." (NVI)

Nova Aliança: Jeremias 31.33 —

"Serei o Deus deles, e eles serão o meu povo." (NVI)

Jeremias 32.38; Ezequiel 11.20; 36.28; 37.23, 27; Zacarias 8.8; 13.9.

Consumação: Apocalipse 21.3 —

"Eis que o tabernáculo de Deus está com os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo, e o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus." (NVI)

O padrão não varia. Toda vez que a fórmula é pronunciada, ela é pronunciada no enquadramento de um pacto específico. Ela nunca é usada abstratamente como um floreio devocional; ela é o ato de fala técnico pelo qual Deus constitui um povo dentro de uma estrutura pactual. Despojar a fórmula de seu enquadramento pactual e reduzi-la a "Deus tem um relacionamento com aqueles que o amam" é perder exatamente aquilo para o qual a fórmula existe. Ela nomeia uma relação pactual, não uma afetiva.

2.1. O Templo de Efésios 2.22 e Ezequiel 37.27

Efésios 2.21–22 recorre diretamente à imagética de Ezequiel 37.26–28 — o pacto eterno de paz, o santuário estabelecido no meio do povo para sempre, a habitação em que Deus estará entre o seu povo. O terceiro elemento no texto de Ezequiel é a própria fórmula pactual: "A minha habitação estará com eles; serei o seu Deus, e eles serão o meu povo" (Ez 37:27 NVI).

Efésios 2.22 nomeia abertamente os dois primeiros elementos — o santuário, a habitação, o Espírito. Paulo não enuncia o terceiro nesse parágrafo, mas o terceiro é o que os dois primeiros pressupõem. Um santuário é um santuário para um povo. Uma habitação é uma habitação com um povo. A fórmula pactual é a premissa não declarada que 2.22 pressupõe. O templo de 2.22 está inserido no mesmo parágrafo de Ezequiel que nomeia o povo para o qual o santuário existe.

Essa conclusão aponta em duas direções. Por um lado, se a Igreja é agora chamada de povo de Deus, então sua condição de povo não é meramente soteriológica ou devocional; é pactual. O próprio título aponta para a relação pactual que o DT tende a negar. Por outro lado, isso não implica a substituição ou o deslocamento de Israel. Efésios forma a Igreja com Israel — syn — e não no lugar de Israel. A inclusão da Igreja na categoria PD, portanto, estabelece participação pactual sem exigir a substituição de Israel.

3. Expansão Profética — Gentios ao Lado de Israel

A própria trajetória do Antigo Testamento prepara o terreno para o que acontece em Efésios 2. Um conjunto de textos proféticos antecipa um futuro em que os gentios estarão dentro da categoria PD — e, de modo crucial, estarão dentro dela ao lado de Israel, não tornando-se Israel e não às custas de Israel.

Decker resume a evidência canônica:

A condição de povo, embora quase exclusivamente relacionada a Israel no AT, não se limita a ele. Há várias passagens que profetizam especificamente a futura inclusão dos gentios com Israel como PD, incluindo Salmo 87.5; Isaías 19.25; Jeremias 12.16; e Zacarias 2.11. Embora não seja um tema central, é evidente que o AT antecipa uma expansão escatológica da condição de povo. Uma vez que o cerne da condição de povo ao longo do AT é a relação pactual, expressa tão claramente na fórmula pactual, e uma vez que essa mesma relação e fórmula desempenham um papel tão relevante nos textos da nova aliança, parece ser uma conclusão razoável que essa futura expansão de PD também ocorrerá numa base pactual. Aqueles assim incluídos são incorporados como parte de PD e participantes da nova aliança.11

Duas observações decorrem desse conjunto.

Primeira, a expansão é expansão, não substituição. Salmo 87.4–5 fala de indivíduos de Raabe (nome poético para o Egito), Babilônia, Filisteia, Tiro e Cuxe sendo contados como "nascidos nela" — nascidos em Sião — sem que nenhuma de suas nações deixe de existir. Zacarias 2.11 diz: "Muitas nações se unirão ao SENHOR naquele dia e serão o meu povo" (NVI) — as nações se unem; não substituem. Jeremias 12.16 promete que se as nações da região "aprenderem diligentemente os caminhos do meu povo… então serão edificadas no meio do meu povo" (NVI) — no meio, não em lugar de.

Isaías 19 é o mais dramático dos textos e merece uma análise mais detida em seus próprios termos. Em Isaías 19.24–25, três nações são postas lado a lado sob a mesma linguagem pactual:

"Naquele dia, Israel será o terceiro, junto ao Egito e à Assíria, uma bênção no meio da terra, abençoada pelo SENHOR dos Exércitos, que dirá: 'Bendito seja o Egito, meu povo; a Assíria, obra das minhas mãos; e Israel, minha herança.'" (NVI)

Três nações, três designações pactuais, três identidades distintas preservadas. O Egito é chamado de meu povo — título anteriormente usado apenas de Israel. A Assíria é chamada de obra das minhas mãos — outra designação específica de Israel. E Israel permanece minha herança — a designação historicamente original. As três nações não se fundem em uma. Elas são reunidas numa única categoria mais ampla de condição de povo sob o reinado do SENHOR.

Walter Kaiser reúne o mesmo conjunto de textos e chega à mesma conclusão:

Apesar de o conceito de "povo de Deus" referir-se predominantemente aos israelitas ao longo do Antigo Testamento, ele não se limita a eles. Nos tempos messiânicos, "Muitas nações se unirão ao SENHOR… e serão o meu povo", ensinou o Senhor pelo profeta Zacarias (2.11). Da mesma forma, Isaías havia ensinado que o próprio Senhor diria: "Bendito seja o Egito, meu povo; a Assíria, obra das minhas mãos; e Israel, minha herança" (Is 19.24–25). E não foi isso que Salomão pediu na dedicação do templo — que "todos os povos da terra possam conhecer o teu nome e te temer, assim como o teu povo Israel" (1 Rs 8.43; cf. Is 56.6–8)? Assim, mesmo antes dos tempos do Novo Testamento, o conceito de povo de Deus abrangia tanto o Israel crente quanto os gentios crentes fora dessa nação.12

Essa última frase resume toda a trajetória do AT. Mesmo antes do Novo Testamento, a categoria "povo de Deus" já antecipava, nos próprios termos dos profetas, uma expansão para incluir gentios. O Novo Testamento não está gerando uma categoria; está colocando em prática uma que os profetas já haviam delineado.

Michael Vlach lê os textos com a mesma precisão:

num dia vindouro ("naquele dia") três inimigos políticos tradicionais — Egito, Assíria e Israel — serão todos povo de Deus e adorarão o Deus de Israel… títulos outrora usados apenas de Israel no AT são expandidos para incluir gentios. O Egito é chamado de "meu povo", e a Assíria é designada "obra das minhas mãos". Essas designações eram antes usadas exclusivamente de Israel. Isso demonstra que o povo de Deus se expande para incluir gentios.13

E ele torna explícita a implicação lógica:

Tornar-se o povo de Deus não significa perda de etnicidade ou afiliação nacional. Tampouco significa que os gentios se tornam Israel. Judeus e gentios participam juntos do povo de Deus, mas não se fundem uns nos outros. O conceito de "Israel" não se expande, mas o conceito de povo de Deus sim.14

O que os profetas prometem não é que Israel será ampliado para absorver os gentios, nem que Israel será deslocado pelos gentios. A promessa é que a categoria pactual "povo de Deus" — não a categoria "Israel" — será expandida para incluir nações gentílicas. Israel não se expande. Povo de Deus se expande. As duas categorias não são idênticas nem dentro do próprio horizonte profético do Antigo Testamento. É aqui que o colapso das duas categorias pela TA começa a se desfazer. Se os próprios profetas já distinguem "Israel" de "povo de Deus" — a primeira mais estreita, a segunda mais ampla —, então dizer, após a chegada da Igreja, que ela se tornou o novo Israel é confundir as duas categorias que os profetas já haviam mantido separadas.

4. O Novo Testamento Concretiza a Expansão Profética

O Novo Testamento faz exatamente o que os profetas haviam anunciado. Não o que o DT tende a afirmar — um programa completamente novo e sem relação com o anterior — nem o que a TA tende a afirmar — uma transferência total da identidade de Israel para a Igreja. O que o Novo Testamento faz é incorporar os gentios à categoria PD nos termos pactual que os profetas haviam estipulado, sem fundi-los com Israel e sem deslocar Israel.

As evidências são cumulativas.

Romanos 9:25–26. Paulo cita Oseias 2:23 e Oseias 1:10 em conjunto:

"Chamarei de 'meu povo' aqueles que não eram meu povo; e chamarei de 'minha amada' aquela que não era minha amada", e: "No mesmo lugar onde lhes foi dito: 'Vocês não são meu povo', serão chamados de 'filhos do Deus vivo'." (NVI)

Oseias havia dirigido originalmente essas palavras a Israel; Paulo, em Romanos 9, as aplica aos gentios na Igreja. A aplicação não é uma reutilização arbitrária. Paulo está dizendo que o mecanismo pelo qual os gentios são agora trazidos para a categoria PD é precisamente o mecanismo da fórmula pactual que Oseias havia prometido.

O texto tem sido empregado, por alguns teólogos da Nova Aliança, a serviço do supersessionismo. Kaiser rejeita essa leitura diretamente:

Alguns sustentaram que, quando o apóstolo Paulo usou Oseias 1:10 e 2:23 em Romanos 9:24–29, ele "substituiu Israel pelos gentios,… [pois] Paulo era um teólogo da substituição." Mas, no contexto de Oseias, Deus havia prometido restaurar a nação de Israel tanto espiritual quanto fisicamente. Paulo, tendo observado isso, não eliminou Israel da ação de Deus, mas antes a ampliou, introduzindo as citações de Oseias com: "E se Deus… fez isso [preparando para destruição] a fim de dar a conhecer as riquezas de sua glória aos objetos da sua misericórdia… inclusive a nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios?" (Rm 9:22–24). … Paulo ensinou que o povo de Deus incluiria tanto judeus quanto gentios.15

O verbo de Kaiser é o decisivo: ampliou, não transferiu. A linguagem de Oseias, nas mãos de Paulo, faz exatamente o que a categoria PD prevê — ela se estende ao gentio sem revogar sua aplicação original a Israel. A expansão mantém o participante anterior em seu lugar; a categoria se alarga ao redor dele, em vez de passar através dele para outra pessoa.

2 Coríntios 6:16. Paulo cita a fórmula pactual diretamente — a mesma fórmula de Levítico 26:12 e Ezequiel 37:27 — e a aplica, sem qualificação, à igreja de Corinto, majoritariamente gentílica:

"Que concordância tem o templo de Deus com os ídolos? Pois nós somos o templo do Deus vivo. Como Deus disse: 'Habitarei com eles e andarei entre eles. Eu serei o Deus deles, e eles serão o meu povo.'" (NVI)

A formulação de Decker resume bem: "Pessoas sem nenhum relacionamento pactual anterior com Deus tornam-se seu povo pactual pela participação na nova aliança."16

1 Pedro 2:9–10. Pedro acumula sobre a Igreja gentílica o vocabulário veterotestamentário mais carregado de pertencimento ao povo: "geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo que lhe pertence" (v. 9, NVI) — os descritores são extraídos diretamente de Êxodo 19:5–6, Deuteronômio 7:6 e Isaías 43:20–21. E a aplicação da fórmula pactual aparece no v. 10: "Vocês que antes não eram povo algum, agora são o povo de Deus." Cada elemento é pactual, aplicado ao crente gentio sob a Nova Aliança.

Tito 2:14. Paulo descreve Jesus como aquele "que se entregou por nós para nos redimir de toda maldade e purificar para si mesmo um povo que lhe pertença de fato, dedicado às boas obras" (NVI). A expressão traduzida por "povo que lhe pertença" é laon periousion (forma lexical: laos periousios) — um termo septuagintal característico usado no AT precisamente para o pertencimento pactual de Israel (Êx 19:5; Dt 7:6; 14:2; 26:18). Decker observa:

Tito 2:14 descreve Jesus como aquele "que se entregou por nós para nos redimir de toda maldade e purificar para si mesmo um povo que lhe pertença de fato [laos periousion], dedicado às boas obras." Essa expressão é uma designação AT característica para PD (Êx 19:5; Dt 7:6; 14:2; 26:18). O fato de Paulo empregá-la aqui estabelece a validade de os crentes do NT fazerem parte do PD.17

Quando Paulo aplica essa expressão técnica do AT a uma audiência cristã majoritariamente gentílica, ele não está falando de modo impreciso. Está fazendo uma afirmação pactual. O que era covenantalmente verdadeiro de Israel sob Moisés é agora covenantalmente verdadeiro da Igreja sob a Nova Aliança inaugurada.

Atos 15:14 — Tiago no Concílio de Jerusalém. "Simão relatou como Deus, a princípio, se preocupou em tomar dos gentios um povo para o seu nome" (NVI). A expressão "tomar um povo para o seu nome" é o idioma septuagintal para a constituição de Israel (Êx 6:7; Dt 7:6; 2 Sm 7:23–24). Decker capta o peso disso:

Tiago aduz evidências do AT acerca da inclusão dos gentios no plano de Deus (Am 9:11–12). Ele relaciona isso ao relato anterior de Pedro sobre Deus tomar dos gentios um povo para o seu nome (At 15:14). Isso remete aos versículos 7–11, em que Pedro narra sua experiência de levar o Evangelho aos gentios — uma referência ao episódio de Cornélio em Atos 10. Embora as palavras de Tiago no versículo 14 não sejam uma citação do AT, elas ecoam a formulação de várias passagens veterotestamentárias sobre o povo (Êx 6:7; 2 Sm 7:23). O fato de Tiago ter usado linguagem do AT para descrever a propagação do Evangelho entre os gentios é significativo. Parece inevitável concluir que Tiago entende a posição dos gentios em termos do PD veterotestamentário.18

Tiago não está inventando uma nova categoria. Ele está reconhecendo que o que Deus está fazendo agora entre os gentios é o que o Antigo Testamento havia dito que Deus faria quando os pactos de Israel amadurecessem em sua fase escatológica. A estrutura é a que Amós 9:11–12 havia fornecido: o tabernáculo reconstruído de Davi, sob cuja realeza "todas as nações que são chamadas pelo meu nome" haveriam de vir.

Martin e Davids aprofundam a mesma cautela a partir da formulação de Lucas. Atos 15:14 afirma que Deus planejou "tomar dos povos gentílicos um povo e torná-lo seu próprio"; lidos com atenção, argumentam eles, esses textos não afirmam que os gentios crentes se tornam o povo de Deus de um modo que coloca em questão o status de Israel, mas que se tornam povo de Deus, em consonância com textos proféticos como Zacarias 2:10–11, em que gentios se unem a um Israel renovado.19 O resumo que fazem da teologia de Lucas é preciso: embora enfatize o afluxo de gentios crentes como herdeiros da esperança de Israel, Lucas "tem o cuidado de preservar uma compreensão especial de Israel" e "jamais afirma que a Igreja é Israel — ele nunca identifica absolutamente os dois."20 É exatamente essa distinção que a estrutura do PD requer.

Apocalipse 21:3 — a consumação. A última ocorrência do lema laos no Novo Testamento aparece na visão de João sobre os novos céus e a nova terra, onde o texto crítico apresenta o plural laoi:

"E ouvi uma forte voz vinda do trono, que dizia: 'Agora o tabernáculo de Deus está com os homens. Deus habitará com eles; eles serão o seu povo, e o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus.'" (NVI)

Decker extrai a conclusão teológica:

A última ocorrência de laos no NT aparece na visão de João sobre os novos céus e a nova terra. No início desse estado eterno, o anúncio vindo do trono é: "Eles serão o seu povo, e o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus." A inclusão da fórmula pactual nesse ponto de inflexão entre a história e a eternidade sugere que esse é o alvo para o qual Deus tem estado se movendo em seu plano providencial e teocrático.21

A fórmula pactual não é uma expressão transitória que desaparece à medida que a revelação progride. É a declaração característica do que Deus está fazendo na história. O estado eterno é o pleno florescimento da relação pactual que a fórmula nomeia.

Romanos 11:1–2 — a categoria veterotestamentária, ainda em vigor. Se tudo isso se aplicasse apenas à Igreja como o novo povo de Deus, excluindo Israel étnico, o supersessionismo poderia talvez absorver os dados. Mas Paulo fecha a porta a essa leitura em Romanos 11. Perguntando retoricamente se Deus rejeitou "o seu povo" (τὸν λαὸν αὐτοῦ), ele responde enfaticamente: "De modo nenhum! … Deus não rejeitou o seu povo, ao qual conheceu de antemão" (Rm 11:1–2, NVI). O laon aqui — o povo — é Israel étnico, denominado seu povo após a cruz, após a inauguração da Igreja. Paulo não pode aplicar o termo PD à Igreja em substituição ao Israel étnico, porque Paulo, anos depois do início da missão aos gentios, ainda aplica o termo a Israel étnico. A categoria se expandiu; ela não foi transferida.

O padrão cumulativo é inconfundível: o Novo Testamento aplica a fórmula pactual, o vocabulário veterotestamentário de pertencimento ao povo e a linguagem constitutiva do Êxodo aos crentes gentios sob a Nova Aliança inaugurada, sem revogar nenhum desses mesmos termos aplicados ao Israel étnico. A categoria PD foi expandida, em termos pactual, exatamente como os profetas haviam dito que seria. A frase-síntese de Decker exprime tudo em uma única linha:

Os crentes da Igreja são descritos como parte do PD e nele incluídos com base na nova aliança. Isso não é apresentado como uma categoria dual (Israel e a Igreja), nem a Igreja é descrita como o novo PD que substitui o povo antigo.22

Uma categoria. Dois erros rejeitados em uma única frase. Não dual — contra o clássico de dois povos do DT. Não substituição — contra o supersessionismo da TA.

5. O Selo Gramatical: O Prefixo Syn e a Teologia da Coparticipação

Por trás da doutrina exposta até aqui há um pequeno fato gramatical, e todo o argumento de Efésios 2–3 está construído sobre ele. Esse fato é o prefixo syn. Nos compostos paulinos, syn significa "juntamente com", "em união com", e marca dois ou mais sujeitos que agem ou participam conjuntamente. É um prefixo de comunhão, não de fusão. Ao longo de Efésios 2–3, Paulo emprega o prefixo repetidamente, em um agrupamento deliberado, como a assinatura gramatical de sua doutrina da incorporação dos gentios.

O agrupamento se divide em duas séries. A primeira une o crente ao Messias: synezōopoiēsen (vivificados juntamente com Cristo, 2:5), synēgeiren (ressuscitados juntamente, 2:6), synekathisen (assentados juntamente, 2:6). A segunda une o gentio a Israel dentro da nova estrutura pactual: sympolitai (concidadãos, 2:19), seguido de oikeioi tou theou (membros da família de Deus, 2:19), e depois synklēronoma (coherdeiros, 3:6), syssōma (comembros do mesmo corpo, 3:6), symmetocha (coparticipantes da promessa, 3:6). Os três últimos aparecem em imediata sucessão em 3:6, em uma única linha climática, como se Paulo quisesse que a própria gramática sustentasse o peso do mistério: coherdeiros, comembros, coparticipantes.

A novidade que Paulo anuncia não é que Israel se tornou a Igreja, nem que os gentios se tornaram Israel. É que, em Cristo, o muro divisório foi derrubado (2:14), e os gentios — aqueles que eram estranhos às alianças da promessa (2:12) — foram aproximados dos próprios pactos que lhes eram estranhos. O resultado é "um novo homem" (2:15), "um só corpo" (2:16): uma terceira realidade que não apaga os dois que ela reúne. Charles Swindoll formula o lado negativo do mesmo ponto com característica objetividade:

Tendo derrubado o muro que separava judeus e gentios, Deus chama membros de ambos os grupos para a Igreja, que é uma obra nova, completamente distinta de Israel. Ele descreve a Igreja, o corpo de Cristo, como "um novo homem" (Ef 2:15). Em outras palavras, Jesus não "greciou" os judeus nem "judaizou" os gregos. Tampouco criou um povo híbrido chamado de "judegos" ou "greus." Paulo afirma explicitamente que Deus fez "um novo homem" a partir dos dois grupos, e esse novo homem é a Igreja, o corpo de Cristo.23

A implicação exegética do prefixo é decisiva. Syn requer distinção. Não há "juntamente com" onde há apenas um. A coparticipação é participação juntamente com alguém que permanece distinto. É por isso que o prefixo que Paulo acumula em 3:6 não suporta a leitura supersessionista: ele não é uma figura de fusão, mas de comunhão preservada dentro da distinção. Darrell Bock formula a consequência com precisão:

O quadro não é o de gentios se tornando judeus ou simplesmente ocupando o espaço deles. Os que estavam perto e os que estavam longe são ambos trazidos agora para algo novo, razão pela qual Paulo o chama de novo homem. Vemos a reconciliação no fato de sabermos que são judeu e gentio, mas agora Cristo os une.24

Clinton Arnold extrai a mesma observação diretamente do grego da passagem:

Note que ao longo desta seção Paulo foi cuidadoso em não ensinar que os gentios foram acrescentados a Israel, mas que juntos formam agora uma nova entidade — "um novo homem" (2:15) ou "um só corpo" (2:16), que ele agora denomina "família de Deus" (οἰκεῖοι τοῦ θεοῦ).25

O ponto não é apenas que Paulo evitou dizer "os gentios foram acrescentados a Israel"; é que ele escolheu o prefixo que exclui essa leitura. Uma palavra com syn- não funciona se uma das partes foi absorvida pela outra. Peter O'Brien, trabalhando a partir do mesmo parágrafo, pondera o resultado pelo lado da descontinuidade:

Mas, se algo, há uma ênfase maior neste parágrafo no elemento de descontinuidade: a nova comunidade da qual esses gentios passaram a fazer parte não é simplesmente um desenvolvimento a partir de Israel. É uma nova criação (v. 15), não uma espécie de amálgama feita dos melhores elementos de Israel e dos gentios. A nova humanidade resultante transcende as duas antigas entidades, ainda que o Israel descrente e os gentios desobedientes continuem a existir.26

O que é destruído em 2:14, portanto, não é a identidade, mas a barreira que impedia as duas identidades de se posicionarem juntas dentro da comunidade pactual. Nem judeu nem gentio deixa de ser o que era, etnicamente; o que é removido é a causa jurídico-pactual da separação — as ordenanças da Antiga Aliança que haviam isolado os pactos do mundo gentílico. Uma vez derrubado o muro, os gentios entram nos pactos dos quais, como gentios, haviam sido excluídos. Eles o fazem como gentios, sem deixar de ser gentios. Tornam-se coherdeiros da herança de Israel, comembros do corpo no qual o remanescente crente de Israel também está incorporado, coparticipantes da promessa que os profetas haviam anunciado.

Os pactos pertencem a Israel, e é precisamente por isso que a inclusão dos gentios neles é graça na escala que Paulo chama de mistério. Se os gentios já tivessem os pactos, o syn seria redundante. Se os gentios deslocassem Israel dentro deles, o syn seria uma mentira. A gramática não tolera nenhuma das duas leituras. O prefixo de Paulo é o selo linguístico de uma teologia de coparticipação: distinção preservada, comunhão efetivada, pertencimento ao povo expandido, nenhuma das partes absorvida pela outra.

6. Vlach como Exemplo

A estrutura PG desenvolvida até aqui não é uma construção de nicho do DP. O próprio Rodney Decker preferia ser identificado como um DT; a estrutura sobrevive sem o rótulo do DP. Mas o caso mais revelador é o de Vlach. A leitura do DP sobre PG foi às vezes criticada por escritores do DT como uma forma disfarçada de teologia da substituição — e a ironia é cortante, porque a defesa não-supersessionista mais completa já produzida no interior da tradição dispensacional mais ampla sobre o papel contínuo de Israel é precisamente um livro cujo autor interpreta Efésios 2–3 exatamente nos moldes que este artigo defende.

Has the Church Replaced Israel? [A Igreja Substituiu Israel?], de Michael Vlach, ensina a mesma estrutura de PG desenvolvida nas seções anteriores. Vlach tornou-se uma das referências padrão que os próprios Dispensacionalistas Tradicionais apontam como o tratamento definitivo contra o supersessionismo. Ele também se identifica como DP, e cita Saucy com aprovação ao desenvolver sua argumentação. É exatamente isso que torna o argumento digno de ser apresentado com as próprias palavras do autor: a obra dispensacionalista mais rigorosa contra a teologia da substituição chegou, em seu rigor, à definição de povo de Deus do DP.

Vlach escreve:

Os gentios crentes estão agora relacionados aos pactos de Israel. Além disso, judeus e gentios crentes compõem o único povo de Deus no sentido soteriológico. Mas essa verdade não elimina um papel futuro para o Israel nacional, nem indica que a Igreja é agora Israel.27

Ele endossa a formulação de Bock pelo nome:

Em resumo, Ef 2.11–22 e Rm 11.16–24 descrevem a unidade existente entre judeus e gentios crentes. Porém, a unidade de judeus e gentios na salvação pode coexistir com um papel funcional único para o Israel nacional. Bock observou que os não-supersessionistas entendem a linguagem de incorporação nos textos neotestamentários como indicativa de unidade soteriológica para judeus e gentios em Cristo. Além disso, "eles também reconhecem que esses textos têm conexão com as promessas do Antigo Testamento, mas argumentam que essa afirmação não precisa eliminar a maneira como o Israel étnico possui promessas a serem cumpridas para ele." Essa abordagem faz jus tanto aos textos de "unidade" do NT quanto às passagens de "futuro para Israel" encontradas tanto no AT quanto no NT.28

Em sua obra posterior sobre o Reino de Deus — He Will Reign Forever [Ele Reinará Para Sempre] — Vlach desenvolve a mesma estrutura de forma extensa. Comentando sobre Amós 9:

Mais tarde, Amós predisse que a dinastia davídica restaurada significaria a inclusão dos gentios no povo de Deus ao lado de Israel (cf. Am 9.11–12).29

Sobre Isaías 19:

O padrão apresentado em Isaías 19 é julgamento primeiro e depois bênção. Deus julga o Egito, mas depois salva e abençoa a nação como parte do governo de Yahweh sobre a terra. Num dia vindouro, nações gentias crentes serão incluídas no povo de Deus ao lado de Israel. Isaías 19, portanto, conecta o povo de Deus ao Reino de Deus.30

E ele escreve diretamente contra o colapso de PG no interior de Israel:

o conceito de povo de Deus se expande para incluir os gentios ao lado de Israel, que também existe como povo de Deus. Alguns pensam que passagens que falam de gentios sendo abençoados ao lado de Israel significam que os gentios crentes são incorporados a Israel. Mas não é isso o que ocorre. O texto não diz que o Egito e a Assíria se tornam "Israel". Em vez disso, essas nações se tornam o povo de Deus ao lado de Israel. "Israel" não se expande para incluir os gentios. Em vez disso, o povo de Deus se expande para incluir os gentios ao lado de Israel.31

Sobre Amós 9 e Atos 15, ele torna explícita a conexão com o Pacto Davídico:

Amós 9.11–12 revela que o Reino de Deus envolverá tanto Israel quanto as nações gentias que se tornam povo de Deus, mantendo seu status étnico de gentios ao lado de Israel. Tanto Israel quanto as nações são o povo de Deus ("chamados pelo meu nome"), mas ainda assim preservam suas identidades distintas. Em Atos 15.14–18, Tiago citará Amós 9.11–12 como evidência de que os profetas do AT predisseram um tempo em que os gentios fariam parte do programa do Reino de Deus sem se tornarem judeus. Isso ocorre por causa do Rei davídico supremo — Jesus, o Messias… As nações gentias também se beneficiarão desse Reino e serão incluídas no povo de Deus ao lado de Israel.32

E, por fim, a própria definição de Igreja segundo Vlach:

A Igreja é uma categoria dentro do conceito de povo de Deus. A Igreja é a comunidade da Nova Aliança composta de judeus e gentios crentes, tal como existe nesta era entre as duas vindas de Jesus.33

A definição é significativa. A Igreja não é identificada com o povo de Deus como um todo. A Igreja é uma categoria dentro do povo de Deus. A categoria mais ampla, PG, inclui Israel sob Moisés, a Igreja inaugurada sob a Nova Aliança, o Israel restaurado do Milênio e as nações gentias participantes do Reino consumado. A Igreja é uma participante estruturalmente distinta dentro desse quadro pactual mais amplo. Esta é precisamente a visão do DP. E é Vlach, escrevendo como o principal anti-supersessionista da tradição dispensacional, quem a articula.

A implicação para o debate interno entre DT e DP não é polêmica, mas observacional. Enquanto o DP é às vezes acusado de supersessionismo — de diluir a distinção entre Israel e a Igreja —, a obra mais séria contra o supersessionismo produzida nos círculos dispensacionais convergiu, em suas páginas mais densas, com a estrutura PG que os autores do DP defendem há muito tempo.

7. "Um Povo de Deus" — Uma Cautela Terminológica

É necessária uma clarificação sobre a formulação "um povo de Deus", que aparece em grande parte da literatura do DP e tornou-se quase um slogan nos debates do DP contra a posição do DT clássico. A clarificação não é uma discordância com a teologia que a formulação tenta expressar. É uma preocupação com a palavra "um".

Robert Saucy escreve, referindo-se à posição do DP:

em vez de afirmar uma dicotomia radical de propósito e destino, eles veem tanto Israel quanto a Igreja como pertencentes ao único povo de Deus e servindo a um único propósito histórico.34

Bruce Ware, numa formulação mais longa e cuidadosa, apresenta a mesma ideia de modo a preservar a nuance:

A discussão acima sustenta a conclusão de que Israel e a Igreja são, num sentido, um povo unido de Deus (participam do mesmo novo pacto), enquanto, em outro sentido, permanecem separados em sua identidade e, assim, constituem povos de Deus distintos. (A Israel são dados os aspectos territoriais e políticos da promessa do novo pacto, não aplicáveis à Igreja.) Israel e a Igreja são, de fato, um povo de Deus que, juntos, participam do perdão dos pecados em Cristo e do Espírito que habita neles com seu poder para a fidelidade pactual, ao mesmo tempo que são participantes pactuals distinguíveis que compõem um povo unificado. Como o título deste capítulo sugere, eles são, de fato, o "povo(s) de Deus" unido — um pela fé em Cristo e pela participação comum no Espírito, e ainda assim distintos na medida em que Deus ainda restaurará Israel como nação à sua terra. Um novo pacto, sob o qual diferentes participantes pactuals se unem, por meio de Cristo e do Espírito, como um povo comum de Deus — isso, portanto, é a graça e a glória da maravilhosa provisão de Deus.35

A formulação de Ware é boa — note, em particular, o parêntese "povo(s) de Deus", que tenta manter unidade e distinção numa única expressão. Mas o "um" permanece, e isso cria uma dificuldade recorrente no debate.

7.1. O Problema com "Um"

Palavras numéricas ativam questões numéricas. Assim que o autor do DP diz "um povo de Deus", o interlocutor do DT ouve a palavra um e responde com a pergunta mais natural que ela suscita: "Um ou dois?" Thomas Ice articula a queixa do DT exatamente nesses termos — que os progressistas abandonaram a distinção tradicional Israel-Igreja porque agora dizem que há um povo de Deus em vez de dois. Todo o debate escorrega para o terreno da quantidade: um ou dois.

Mas não é isso, tecnicamente, o que a posição do DP afirma. O ponto do DP não é quantitativo. É categorial. A questão não é "quantos povos Deus tem?". É "o que constitui ser o povo de Deus?". Uma vez que a questão é corretamente formulada, a resposta de Decker está pronta: participação em uma estrutura pactual administrativa. Essa é uma resposta qualitativa, não numérica.

A analogia com outro predicado pactual torna o ponto claro. Considere "filhos de Deus". Adão é chamado filho de Deus (Lc 3.38). Israel é chamado filho primogênito de Deus (Êx 4.22). Os anjos são chamados filhos de Deus (Jó 1.6). Os crentes em Cristo são chamados filhos de Deus (Rm 8.14; Gl 3.26). Ninguém, ao ler esses textos, perguntaria: "Então Deus tem um filho ou muitos filhos?" A questão estaria mal formulada. "Filho de Deus" é um status relacional, não uma contagem. O status pode ser predicado de diferentes entidades em diferentes configurações pactuals sem fundi-las em uma só e sem multiplicá-las numa lista de divindades independentes.

É também por isso que o desacordo superficial entre DP e DT nesse ponto é, em grande medida, uma equivocação sobre uma expressão compartilhada. As duas posições não estão realmente debatendo "um povo de Deus" versus "dois povos de Deus" como se atribuíssem o mesmo sentido à expressão povo de Deus e estivessem simplesmente contando de forma diferente. Elas usam a expressão em dois sentidos distintos. Quando o autor do DP diz povo de Deus, usa a expressão como um predicado técnico-pactual categorial — um status que pode ser predicado de qualquer entidade constituída pactualmente que participa, em sua devida administração, da estrutura enraizada nos Pactos Abraâmico e da Nova Aliança. Quando o autor do DT clássico diz dois povos de Deus, usa povo de Deus num sentido quase antropológico (como observou Craig Blaising): a Igreja funciona como um terceiro grupo ao lado de Israel e dos gentios, com seu próprio programa e destino, como o próprio Efésios 2.15 sugere na linguagem do "novo homem". Na leitura do DT, "povo de Deus" tende a identificar uma entidade-grupo discreta no mesmo nível de análise que Israel ou as nações, de modo que perguntar "um ou dois?" é uma questão sensata. Na leitura do DP, "povo de Deus" não está nesse nível; é o predicado pactual sob o qual Israel, a Igreja, o Israel restaurado e as nações gentias da consumação encontram cada qual o seu lugar. Uma vez percebida essa assimetria, a questão polêmica "um ou dois?" perde sua força: DP e DT não estão dando contagens diferentes da mesma coisa; estão usando as mesmas palavras para realizar trabalhos conceituais diferentes. Suspeito que seja isso também o que produz o persistente equívoco de autores como Thomas Ice. Ele lê o um povo de Deus do DP como se fosse uma afirmação numérica dentro de seu próprio quadro quase antropológico — uma afirmação de que o grupo-Igreja e o grupo-Israel foram fundidos em um único grupo — e conclui, portanto, que o DP abandonou a distinção Israel-Igreja. Mas a afirmação do DP nunca operou nesse nível. Era uma declaração sobre status pactual, não sobre identidade grupal. O desacordo que permanece entre DP e DT é real, mas está a jusante dessa confusão terminológica e não pode sequer ser enunciado adequadamente até que a equivocação seja exposta.

"Povo de Deus" é um termo técnico que se refere ao status pactual. Esse status pode ser predicado de Israel sob Moisés, da Igreja sob a Nova Aliança inaugurada, do Israel restaurado no Milênio e das nações gentias no Reino consumado, sem que nenhuma delas se torne as outras e sem que sejam contadas como uma fileira de programas paralelos independentes. Perguntar se Deus tem "um povo" ou "dois povos" é importar um quadro numérico que o conceito técnico nunca exigiu.

7.2. A Formulação Mais Adequada

A forma mais clara de enunciar a posição do DP não é "um povo de Deus", mas "povo de Deus como categoria pactual". A categoria inclui múltiplas entidades constituídas pactualmente. Israel é uma dessas entidades, sob a Antiga Aliança e, em sua fase restaurada, sob a Nova. A Igreja é outra, sob a Nova Aliança inaugurada, reunida dentre os gentios e incluindo judeus crentes. As nações gentias no Reino consumado são ainda outra. O que as une não é uma contagem numérica, mas uma estrutura pactual compartilhada, enraizada, em última análise, no Pacto Abraâmico, mediada pela Nova Aliança em Cristo e manifestada pelo Espírito que todas compartilham.

Essa mudança de enquadramento dissolve a armadilha polêmica. Contra a TA, a visão do DP afirma: a Igreja não absorve Israel, porque a Igreja e Israel são participantes estruturalmente distintos dentro da categoria pactual mais ampla. Contra o DT clássico, afirma: a Igreja e Israel não são dois programas sem relação entre si que correm em trilhas paralelas; são duas entidades distintas com forma pactual dentro do mesmo dossel pactual.

Essa mudança também fecha a porta a um movimento retórico recorrente. Enquanto o debate permanecer na palavra um, os interlocutores do DT podem manter a questão na superfície — um povo ou dois? — e pular as questões pactuals substantivas que deveriam fazer o trabalho real: Israel e a Igreja participam da mesma Nova Aliança? Recebem o mesmo Messias, a mesma promessa abraâmica (Gl 3.29), o mesmo Espírito que habita neles? Essas são as questões que distinguem as posições. A questão numérica é a jusante delas. Uma vez que a conversa é reconduzida ao seu terreno pactual próprio, a palavra central não é mais "um". A palavra central é pactual.

Registro aqui, em nota pessoal, que o enquadramento "um povo de Deus" não está errado — está dizendo algo verdadeiro e importante —, mas é, a meu ver, estrategicamente mais fraco do que poderia ser, porque os críticos do DT o levaram a um nível quantitativo, perdendo de vista o sentido técnico. Ele convida a um debate quantitativo que o próprio conceito técnico não requer. A formulação de Decker — categorial, pactual, qualitativa — é mais precisa e mais difícil de ser mal interpretada.

Vale observar, nesse contexto, que determinantes menores antepostos à expressão povo de Deus tendem a causar danos teológicos desproporcionais. Coloque um diante da expressão e, como já vimos, a discussão deriva para um debate quantitativo que o conceito técnico nunca exigiu, com os interlocutores do DT ouvindo uma afirmação numérica onde o DP pretendia uma afirmação categorial. Coloque o diante da expressão e a deriva vai na direção oposta: o povo de Deus facilmente se torna um identificador definido e exclusivo — a única entidade que detém o título —, e a Igreja, identificada como o povo de Deus na era neotestamentária, desliza quase imperceptivelmente para a posição de ser a entidade que substituiu Israel como portadora desse título. Esse é, com efeito, o motor gramatical de grande parte da teologia da substituição: não um argumento desenvolvido de que Israel foi rejeitado, mas uma silenciosa substituição de artigos, em que um povo de Deus entre outros se torna o povo de Deus com exclusão dos outros. O próprio conceito técnico resiste a ambos os movimentos. Povo de Deus nomeia um status pactual que pode ser predicado de mais de uma entidade constituída pactualmente em mais de uma fase da narrativa bíblica; não se resume a um único número nem é monopolizado por um único portador. A disciplina mais limpa, portanto, é dispensar os determinantes quando a afirmação técnica está em questão, e falar de povo de Deus como categoria pactual — nem um povo de Deus em oposição a dois, nem o povo de Deus em oposição a qualquer outro.

8. A Igreja É Supranacional; Israel Permanece uma Nação entre as Nações

Uma segunda observação protege a categoria de um tipo diferente de colapso. No Antigo Testamento, o caráter de povo de Israel corre sobre um eixo étnico-nacional. Israel é uma nação — uma nação entre as nações — e sua identidade pactual está ligada à sua identidade nacional. A Igreja não funciona dessa maneira.

Saucy nomeia a diferença:

no Concílio de Jerusalém, o apóstolo Tiago declarou que Deus estava "tomando dentre os gentios um povo para o seu nome" (At 15.14). Essa entidade era inteiramente "independente de quaisquer precondições nacionais". Fica claro no Novo Testamento que esse povo, a Igreja, é uma comunidade composta de judeus e gentios na qual nem raça, nem nacionalidade, nem identidade étnica exercem qualquer influência sobre o status ou a função.36

J. W. Flight faz a observação paralela pelo outro ângulo:

não há no NT nenhuma indicação da organização de um estado cristão, nem qualquer evidência de um senso de nacionalidade por parte dos cristãos como havia no judaísmo.37

O ponto não é que a Igreja não tem forma terrena ou histórica. É evidente que tem — ela se reúne, tem líderes, administra o batismo e a Ceia, encontra-se em assembleias locais por toda a geografia. O ponto é que sua identidade constitutiva não está vinculada a nenhuma nação. Ela é um povo tirado dentre as nações (At 15.14 — ex ethnōn laon), e nesse ser tirado não se torna uma nação própria, paralela a Israel ou em competição com as nações gentias. Ela é um povo estruturalmente diferente de uma nação.

Isso protege duas coisas simultaneamente. Protege a visão do DP da antiga queixa do DT de que os progressistas "apagam" Israel, pois a Igreja e Israel são tipos diferentes de entidades dentro da categoria mais ampla PG — Israel permanece, de forma distinta, uma nação entre as nações; a Igreja é, de forma distinta, um povo supranacional tirado dentre as nações. E protege a visão do DP da leitura supersessionista, que precisa que a Igreja assuma o papel de Israel na economia nacional-pactual. Ela não pode assumir esse papel, porque não é uma nação. O que ela assume não é a identidade nacional de Israel, mas os privilégios pactuals de Israel — em termos pactuals, não nacionais.

9. Unidade Soteriológica, Distinção Funcional

A singularidade de Israel dentro da categoria PG é mantida, no âmbito do Dispensacionalismo Progressivo (DP), por uma distinção que percorre toda a Escritura: unidade no que diz respeito à salvação e ao acesso, distinção no que diz respeito a papel e função. As duas não estão em tensão; operam em eixos diferentes.

O argumento de Paulo em Efésios 2 é explícito a esse respeito. "pois por meio dele nós dois temos acesso ao Pai pelo mesmo Espírito" (2:18 NVI). A unidade é uma unidade de acesso — de reconciliação com Deus, de presença interior do Espírito, de posição diante do Pai. É uma unidade soteriológica. Paulo não diz que as distinções étnico-funcionais entre judeu e gentio foram apagadas permanentemente em todo e qualquer registro. Ele diz que o muro das ordenanças legais da antiga aliança foi derrubado e que um único corpo foi formado, dentro do qual todos os crentes, judeus e gentios, têm acesso igual. O que é removido, portanto, é o muro de separação, não as identidades ou funções que distinguiam os dois lados dele.

Mesmo dentro da tradição mais ampla do Dispensacionalismo Tradicional (DT), esse ponto é reconhecido. Tom Constable, ao resumir o resultado de Efésios 2:14–16, escreve:

Esta nova instituição [a Igreja] não dissolve as distinções étnicas, mas exibe a reconciliação, com cada crente igualmente qualificado para participar dos benefícios da salvação e da paz que emergem da união de judeus e gentios em uma nova comunidade viva… Judeu e gentio não são alterados em raça, nem amalgamados em sangue, mas são "um" no que diz respeito a privilégio e posição diante de Deus.38

Harold Hoehner chega à mesma conclusão a partir do corpus apostólico:

Isso não significa que a nação de Israel se torna a Igreja, pois Israel ainda existe como uma entidade separada distinta da Igreja (Rm 9:1–5). Paulo demonstra que judeus e gentios crentes formam a Igreja (Ef 2:13–22), mas que judeus e gentios descrentes ainda permanecem como duas entidades separadas, distintas da Igreja (1 Co 10:32).39

A convergência é significativa. O argumento do DP em favor da unidade com distinção não é uma especialidade do DP; é a posição de uma exegese cuidadosa, independentemente da sub-tradição dispensacional.

A lógica é a mesma de Gálatas 3:28 — "Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher, pois todos vocês são um em Cristo Jesus" (NVI). Ninguém lê Gálatas 3:28 como se estivesse dissolvendo as diferenças criacionais e funcionais entre homem e mulher. O texto fala de igualdade em Cristo — de posição comum diante de Deus, de herança compartilhada — sem com isso colapsar as diferenças funcionais que a Escritura ensina em outros lugares sobre homens e mulheres. A mesma lógica se aplica em Efésios. Judeu e gentio estão como cidadãos plenos e iguais da comunidade pactual, membros plenos e iguais da família, pedras plenas e iguais no templo. Não são, por isso, destituídos de distinção em outros registros.

Vlach articula o duplo ponto com clareza:

No âmbito das bênçãos salvíficas e do status diante de Deus, os gentios são iguais aos judeus crentes. No entanto, a unidade salvífica entre judeus e gentios não apaga as distinções étnicas ou funcionais entre os dois grupos: "Os comentários de Paulo em Efésios, no entanto, excluem qualquer prioridade salvífica para Israel na estrutura eclesiológica do novo homem… Porém, embora não haja mais vantagem salvífica, ainda existe uma distinção étnica entre judeus e gentios. Paulo continua a falar de judeus e gentios como grupos étnicos distintos em suas cartas (Rm 1:16; 9:24; 1 Co 1:24; 12:13; Gl 2:14, 15)."40

E ele expõe o princípio por meio de várias analogias:

Essa crença de que a igualdade salvífica não elimina as distinções funcionais é evidenciada em outros exemplos. De acordo com Gl 3:28, homens e mulheres compartilham igualmente as bênçãos da salvação, mas a Bíblia ainda ensina que homens e mulheres têm papéis diferentes. Assim, no caso de homens e mulheres, a unidade salvífica não anula as distinções funcionais. O mesmo vale para presbíteros e não presbíteros numa Igreja. Ambos são iguais e compartilham as mesmas bênçãos espirituais, mas os presbíteros têm um papel distinto no plano de Deus. A mesma distinção poderia ser feita entre pais e filhos. Mesmo dentro da Trindade, há igualdade de essência, mas funções diferentes entre o Pai, o Filho e o Espírito. A igualdade em essência e nas bênçãos espirituais não anula as distinções funcionais.41

A analogia é instrutiva. Igualdade de posição coexiste com diversidade de papel por toda a Escritura. Pastores e congregação são iguais em Cristo, mas têm funções distintas. Pais e filhos são plenamente iguais em dignidade humana, mas não são idênticos em função. Dentro da própria Trindade, igualdade de essência coexiste com distinção de papel entre o Pai, o Filho e o Espírito. Nada na estrutura da categoria PG exige o apagamento das distinções funcionais para garantir a igualdade de posição.

O que isso significa para o papel futuro de Israel é concreto. A promessa da terra do Pacto Abraâmico, reiterada no pacto mosaico e renovada nos profetas, continua sendo estendida a Israel étnico como nação. A promessa de que Israel será "a cabeça e não a cauda" (Dt 28:13), de sua exaltação entre as nações (Is 60:10–14), de um ministério sacerdotal-mediatorial às nações (Is 61:6; Zc 8:23) e de restauração nacional como povo (Ez 37) — nenhuma dessas promessas é anulada pela posição igual da Igreja em Cristo. São distinções funcionais dentro de um povo compartilhado, não desigualdades salvíficas.

A relação pode ser imaginada pela analogia de uma família real. Um filho adotivo e um filho primogênito ambos pertencem plenamente à família, ambos desfrutam do pleno amor do pai, ambos participam da herança. Mas o primogênito ocupa um papel administrativo específico dentro do reinado. O filho adotivo não é um filho de menor valor; é um filho pleno. O primogênito não é um filho mais amado; tem um papel funcional. Assim com Israel no milênio: os gentios da Igreja não são um povo de menor valor, mas Israel ocupa um papel mediatorial-nacional dentro do reinado consumado de Cristo. A unidade é plena no nível da salvação e do acesso. A distinção é real no nível da função.

10. Romanos 11 e a Oliveira — Unidade sem Fusão

A imagem canônica mais clara da estrutura que vimos construindo é a oliveira de Paulo em Romanos 11:16–24. A seção 9 estabeleceu o princípio — unidade na salvação e no acesso, distinção em papel e função. Romanos 11 dá a esse princípio uma imagem. Uma única árvore. Uma só raiz cultivada. Ramos naturais cortados por um tempo; ramos silvestres enxertados de entre os gentios; a promessa de que os ramos naturais serão enxertados de volta quando sua dureza passar. Dois conjuntos de ramos, uma árvore, uma raiz.

Kaiser condensa o peso da imagem numa frase: "Poucas ilustrações são tão decisivas quanto a figura da oliveira em Romanos 11:16–24 para demonstrar que há uma unidade no povo de Deus, ao mesmo tempo em que Israel e a Igreja conservam suas identidades."42 A unidade é a árvore única; as identidades preservadas são os dois conjuntos de ramos. Nenhum dos elementos cancela o outro. Há um único organismo pactual e dois participantes estruturalmente distintos dentro dele — o que é precisamente a estrutura da categoria PG desenvolvida anteriormente neste artigo.

A raiz é pactual. Paulo nomeia os antepassados ("a raiz é santa", v. 16); a seiva é a promessa pactual feita a Abraão, Isaque e Jacó. Kaiser extrai a força teológica da imagem:

A seiva das raízes da oliveira está na promessa pactual feita aos antepassados Abraão, Isaque e Jacó. Esta nação havia sido reservada e consagrada a Deus. O princípio, baseado em Números 15:17–21, é que a santidade, ou consagração, das primícias e da raiz é transmitida aos ramos, que neste caso são os israelitas. Assim, da mesma forma que a oferta das primícias consagra toda a colheita, o Pacto Abraâmico consagrou Israel e antecipou uma colheita que haveria de vir algum dia.43

A consagração da raiz flui para os ramos. Os crentes gentios enxertados são enxertados nessa raiz — o Pacto Abraâmico — e participam de sua seiva. Eles não trazem uma nova raiz consigo. Não crescem em uma árvore diferente. Participam, como gentios, da estrutura pactual que sempre esteve em vigor.

É aqui que a oliveira serve como faca contra a tendência do DT de tratar a Igreja como um parêntese celestial. A frase de Kaiser é incisiva:

Os gentios precisariam ter cuidado para não pensar que ganharam sua salvação ou de alguma forma mereceram seu lugar na árvore ou no programa de Deus. Precisariam resistir a ensoberbecer-se sobre o povo judeu, pois se não fosse pelas raízes na promessa patriarcal, no Pacto Davídico e no tronco da árvore Israel, a Igreja não teria nenhum enraizamento, nenhuma base, nenhuma âncora ou qualquer fonte de seu ser; simplesmente flutuaria no ar, sem origens, sem fatores unificadores anteriores, nem ligação com o passado ou o futuro.44

Esse é o diagnóstico, em uma só frase, do que dá errado quando a Igreja é separada do programa pactual do Antigo Testamento. Uma Igreja "flutuando no ar" — sem raiz, sem base, sem ligação — é exatamente a Igreja das formulações mais rígidas do DT. Romanos 11 descarta essa leitura. A Igreja é enxertada na oliveira; ela não é uma segunda árvore plantada ao lado da primeira.

A oliveira descarta também o polo da Teologia da Aliança com igual decisão. Se a Igreja simplesmente fosse a árvore, então os ramos cortados não seriam reinseridos — seriam substituídos pelos novos ramos, e a oliveira original deixaria de importar. Mas Paulo não permite essa leitura. Os ramos naturais que foram cortados são os mesmos ramos naturais que podem ser enxertados de volta (vv. 23–24), e o argumento de Paulo culmina na restauração de Israel étnico: "E assim todo o Israel será salvo" (v. 26 NVI). A árvore permanece a mesma árvore; os ramos que foram cortados retornam a essa árvore. Não há uma segunda oliveira.

A ilustração de Paulo contraria intencionalmente a convenção botânica. Na arboricultura real, como Kaiser observa, enxertam-se ramos cultivados num toco silvestre; Paulo deliberadamente inverte o processo, enxertando ramos silvestres gentios na raiz cultivada.45 A inversão é teológica, não hortícola. A raiz cultivada é o estoque pactual estabelecido com Abraão, cultivado ao longo da história de Israel, aguardando sua colheita plena. Os ramos gentios são silvestres porque provêm de fora da linhagem pactual, de entre aqueles que eram "estranhos às alianças da promessa" (Ef 2:12 NVI). O que acontece a eles quando enxertados é o que Efésios 2 já havia dito: o gentio é trazido para dentro da estrutura pactual que já estava em vigor. O povo se expande.

Duas observações fecham esta seção.

Primeira: a oliveira não é uma metáfora para o apagamento do futuro de Israel. Toda a força retórica do argumento de Paulo — os ramos cortados são os ramos naturais, os ramos cortados serão enxertados de volta, todo o Israel será salvo — exige que a identidade distinta de Israel étnico seja preservada ao longo de todo o processo. Não poderia haver reenxertia se não houvesse ramos a reenxertar.

Segunda: a oliveira não é uma metáfora para um programa de duas árvores. Paulo afirma, enfaticamente, uma árvore. Uma raiz. Uma seiva. O mesmo estoque pactual. É exatamente o que a estrutura da categoria PG tem sustentado o tempo todo: não dual, não substitucionista, mas uma única categoria pactual com múltiplos participantes estruturalmente distintos.

A oliveira, em outras palavras, é a estrutura PG traduzida em imagem. O que a seção 9 argumentou conceitualmente, Romanos 11 mostra visualmente.

11. A Estrutura Multinacional do Reino Consumado

O ponto em que a categoria PG se torna plenamente visível é o Reino consumado. A expansão profética que traçamos na seção 3 — Salmo 87, Isaías 19, Jeremias 12, Zacarias 2 — não desaparece quando o Reino chega. É precisamente como o Reino consumado se apresenta.

Isaías 19:24–25, novamente, é o texto mais claro. "Naquele dia, Israel será o terceiro juntamente com o Egito e a Assíria, uma bênção no meio da terra, abençoados pelo Senhor dos Exércitos, que dirá: 'Bendito seja o Egito, meu povo, a Assíria, obra das minhas mãos, e Israel, minha herança'" (NVI). Três nações distintas, todas nomeadas com o vocabulário pactual que antes pertencia exclusivamente a Israel, nenhuma fundida nas outras. As nações permanecem nações; a categoria PG é ampla o suficiente para acolhê-las a todas.

Zacarias 14:16 estende o quadro: "Então todos os sobreviventes de todas as nações que atacaram Jerusalém subirão ano após ano para adorar o Rei, o Senhor dos Exércitos" (NVI). As nações sobrevivem, sobem, adoram — e o fazem como nações, de todo o mundo, em direção a Jerusalém.

Apocalipse 21:24–26 completa a visão: "As nações caminharão na sua luz, e os reis da terra lhe trarão o seu esplendor… A glória e a honra das nações serão trazidas para dentro dela" (NVI). As nações ainda são nações na nova Jerusalém. Sua glória — sua identidade histórica e cultural particular — não é apagada, mas trazida para dentro da cidade.

E Apocalipse 22:2 acrescenta a nota final: "As folhas da árvore são para a cura das nações" (NVI). As nações permanecem, e a cura flui até elas.

O símbolo arquitetônico da mesma realidade está na própria Nova Jerusalém. A cidade tem doze portas com os nomes das doze tribos de Israel e doze fundamentos com os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro (Ap 21:12, 14). Toda a história do povo de Deus está inscrita no próprio design da cidade. As doze tribos de Israel e os doze apóstolos da Igreja — ambos juntos, ambos preservados, ambos em uma única cidade, sob um único Cordeiro. Unidade com distinção, escrita na arquitetura.

A terceira tese de Decker se encaixa aqui. A fórmula do pacto — "eles serão o seu povo, e o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus" — é proclamada do trono em Apocalipse 21:3 no início do estado eterno. O Reino consumado é o telos para o qual toda a história do povo de Deus tem caminhado. O que PG significa em sua forma final é o que Apocalipse 21 descreve: Deus habitando com seu povo pactual, múltiplas entidades constituídas pactuamente incluídas dentro dessa única realidade pactual, cada uma preservada em sua identidade, todas unidas no mesmo Deus.

12. O Que Esta Estrutura Descarta — O Polo da TA e o Polo do DT Clássico

A estrutura que estabelecemos exclui dois erros com um único golpe, e vale a pena enunciar ambas as rejeições de forma explícita.

12.1. Contra o Supersessionismo

A leitura supersessionista não se limita a uma única escola. Ela aparece em comentários sobre Efésios de maneiras que revelam ser essa construção tratada, por muitos intérpretes, como uma implicação óbvia do mistério de Paulo. John Stott a articula diretamente no texto de Efésios 3:1–6:

O que nem o Antigo Testamento nem Jesus revelaram, porém, foi a natureza radical do plano de Deus: que a teocracia (a nação judaica sob o governo de Deus) seria encerrada e substituída por uma nova comunidade internacional, a Igreja; que essa Igreja seria "o corpo de Cristo", organicamente unida a ele; e que judeus e gentios seriam incorporados a Cristo e à sua Igreja em condições de igualdade, sem qualquer distinção.46

Dois movimentos estão comprimidos em um único parágrafo. O primeiro — que a teocracia seria encerrada — é uma afirmação supersessionista contundente sobre o futuro pactual de Israel. O segundo — que judeus e gentios são agora incorporados sem qualquer distinção — não deixa espaço para o tipo de argumento baseado na distinção preservada que as seções anteriores deste artigo vêm construindo. A leitura recua ainda mais no tempo. H. A. W. Meyer, escrevendo na tradição crítica do século XIX, trata o assunto como algo já resolvido pelos próprios apóstolos:

Estes eram antes os judeus (v. 12), cujo lugar, porém, os cristãos assumiram como o Ἰσραὴλ τοῦ Θεοῦ (Gl 6:16), como os verdadeiros descendentes de Abraão (Rm 4:10 ss.) e o povo de Deus (Rm 9:5 ss.), adquiridos como sua propriedade pela obra de Cristo.47

O padrão se perpetua na teologia sistemática e nos círculos de teologia bíblica do século XX. Herman Ridderbos escreve que "a Igreja ocupa o lugar de Israel como povo histórico de Deus."48 George Ladd, de forma semelhante, escreve que "a Igreja… é uma manifestação histórica de uma nova comunhão gerada por Jesus como o verdadeiro povo de Deus que… deveria tomar o lugar da nação rebelde como o verdadeiro Israel."49 A mesma suposição aparece até em obras de referência. O artigo de Alan Tippett sobre o povo de Deus na International Standard Bible Encyclopedia afirma que "a IGREJA tornou-se herdeira das promessas de Israel" e que o Novo Testamento reivindica "a transferência do papel de 'povo de Deus', com suas responsabilidades e promessas, para a Igreja."50 Nessa perspectiva, as profecias que falavam do futuro de Israel são agora assumidas pela Igreja, e o Israel étnico, como tal, não tem mais qualquer função pactual em curso.

A estrutura do Povo de Deus (PD) corrói essa leitura pela raiz. Se o PD é uma categoria pactual, e se a fórmula do pacto é aplicada tanto ao Israel étnico (Rm 11:1–2, após a cruz) quanto à Igreja gentílica (Rm 9:25–26; 2 Co 6:16; 1 Pe 2:10) ao mesmo tempo, então a Igreja não substituiu Israel. Ela se uniu a Israel dentro do mesmo dossel pactual mais amplo. A categoria foi expandida — não transferida.

Há também uma dimensão pastoral nessa rejeição que merece ser nomeada. Rejeitar o supersessionismo não é apenas defender o lugar pactual contínuo de Israel; é também uma advertência à Igreja gentílica contra uma distorção autolisonjeira de sua própria identidade. John Muddiman, comentando Efésios 2:11, capta essa lógica:

À época do autor de Efésios, os cristãos podem muito bem ter se considerado os únicos herdeiros legítimos das promessas feitas a Israel (cf. Mt 21:43), por terem transcendido a distinção judeu/gentio. Nesse caso, tal lembrete assumiria uma função diferente: advertiria os leitores gentios a não se considerarem superiores, como o povo substituto de Deus, e asseguraria aos cristãos judeus que eles eram o remanescente santo e a raiz na qual os crentes gentios haviam sido enxertados. Paulo, evidentemente, já havia feito o mesmo ponto em Rm 11:16 s., talvez em referência a uma situação particular na igreja de Roma; aqui, isso se tornou um princípio geral.51

A leitura de Muddiman coloca em evidência a função interna do argumento de Paulo. O mesmo parágrafo que aproxima os gentios é o que os adverte contra pensar em si mesmos como substitutos de Israel. A tentação supersessionista não é apenas um erro interpretativo na teologia moderna; é precisamente o que Paulo, nesta passagem, está antecipando e prevenindo.

12.2. Contra o Dispensacionalismo Tradicional Clássico dos Dois Povos

O DT clássico, em reação ao supersessionismo, às vezes dividiu a categoria PD em duas completamente separadas — um povo terreno (Israel) com um destino terreno, e um povo celestial (a Igreja) com um destino celestial. Decker descreve com precisão essa posição:

Outros defendem dois PD separados: Israel e a Igreja. Embora não seja uma visão exclusivamente dispensacional, a posição dos dois povos de Deus é talvez mais conhecida pela afirmação do dispensacionalismo clássico de um povo terreno e um povo celestial com propósitos e destinos distintos.52

A estrutura do PD desacredita igualmente essa leitura. Se o PD é uma categoria pactual, e se tanto Israel quanto a Igreja participam da mesma estrutura pactual — o Pacto Abraâmico na raiz, a Nova Aliança como a administração presente —, então não se trata de dois programas desvinculados correndo em trilhos paralelos. São dois participantes com forma pactual dentro de uma única realidade pactual. A categoria é uma; os participantes são múltiplos.

12.3. A Nuance sobre a Terminologia "Igreja"

Um esclarecimento adicional, levantado pelo próprio Saucy, pertence a este ponto. Se o futuro Israel restaurado, ou os santos do Antigo Testamento, serão por fim chamados de parte "da Igreja" depende de como se usa a palavra Igreja. Saucy escreve:

a questão de se Israel deve ou não ser considerado, em última análise, parte da Igreja repousa na aplicação bíblica do termo "Igreja". Se a Igreja designa em definitivo todo o povo de Deus que está em Cristo, então, certamente, o Israel salvo se tornará parte desse corpo. Por outro lado, se "Igreja" se aplica somente à era presente, então parece não abarcar aquele Israel futuro que se voltará a Deus pela fé. Em ambos os casos, a Igreja não se identifica com "Israel". Eles compartilham uma identidade semelhante como povo de Deus, desfrutando igualmente das bênçãos da salvação escatológica prometida.53

12.4. A Dupla Rejeição em Síntese

Kaiser, encerrando seu próprio capítulo sobre o povo de Deus a partir de fora da discussão dispensacional, chega à mesma dupla rejeição em um único parágrafo:

A doutrina contemporânea da Igreja deve ser ancorada na unidade e singularidade do povo de Deus de todas as eras… Por isso, todas as tentativas de isolar Israel da Igreja em todo e qualquer sentido contradizem diretamente o desafio das Escrituras. Por outro lado, todos os relatos da morte e do desaparecimento de Israel como povo de Deus em todo e qualquer sentido são, como Mark Twain observou em outro contexto, certamente prematuros — e eu acrescentaria: não bíblicos!54

Os dois erros são nomeados no mesmo fôlego, e ambos são descartados. Isolar Israel da Igreja — o polo do DT clássico — contradiz as Escrituras. Proclamar a morte de Israel como povo de Deus — o polo da TA — é prematuro e não bíblico. O que permanece de pé, quando ambos os polos são removidos, é a estrutura que este artigo apresentou.

A Categoria que Sustenta o Argumento

A categoria PD, compreendida de forma pactual, realiza exatamente o trabalho que este argumento vem exigindo desde o início.

Contra a tendência do DT de separar a Igreja do programa pactual do Antigo Testamento, o PD demonstra que a Igreja é covenantalmente contínua com o que veio antes. Ela é participante da Nova Aliança que cumpre as promessas do Antigo Pacto; ela se encontra sob a raiz abraâmica; ela recebe o Espírito que os profetas haviam prometido; ela é chamada pela mesma fórmula pactual que nomeou Israel; ela é constituída como povo pelo mesmo tipo de ato divino de fala que constituiu Israel. Ela não é um parêntese no programa pactual. Ela é o seu primogênito inaugurado.

Contra a tendência da TA de colapsar Israel na Igreja, o PD demonstra que a expansão do povo é expansão — não substituição. A categoria é alargada; os participantes mais antigos não são revogados. Israel étnico permanece o povo que Deus conheceu de antemão (Rm 11:2); seus pactos não são devolvidos à prateleira; seu futuro nacional-territorial não é anulado. A Igreja participa da categoria pactual da qual, como gentios, seus membros estavam excluídos — sem com isso tornar-se a única participante.

E contra ambos, o PD tal como expresso pelo Dispensacionalismo Progressivo demonstra que a unidade na salvação e no acesso é compatível com a distinção em papel e função — dentro da Trindade, dentro da Igreja, entre presbíteros e congregação, entre pais e filhos e, na escala do plano pactual de Deus, entre Israel e a Igreja como participantes pactuais distintos.


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Este argumento foi expandido no meu novo livro, Progressive Dispensationalism, the Church, and Israel: Why the Church Is Neither Israel's Replacement Nor God's Parenthesis [Dispensacionalismo Progressivo, a Igreja e Israel: Por que a Igreja não é nem o Substituto de Israel nem o Parêntese de Deus]. Ele já está disponível na Amazon.

Footnotes

  1. Rodney J. Decker, "People of God," Dictionary of Premillennial Theology.

  2. Decker, "People of God."

  3. John Goldingay, Theological Diversity and the Authority of the Old Testament, citado em Walter C. Kaiser Jr., Recovering the Unity of the Bible.

  4. Ed Glenny, "The Israelite Imagery of 1 Peter 2," Dispensationalism, Israel and the Church.

  5. Decker, "People of God."

  6. Decker, "People of God."

  7. Rolf Rendtorff, Die Bundesformel.

  8. Rudolf Smend, Die Bundesformel.

  9. Paul Kalluveettil, Declaration and Covenant.

  10. Walter A. Elwell e Philip W. Comfort, orgs., Tyndale Bible Dictionary, s.v. "People of God."

  11. Decker, "People of God."

  12. Kaiser, Recovering the Unity of the Bible.

  13. Michael Vlach, He Will Reign Forever.

  14. Vlach, He Will Reign Forever.

  15. Kaiser, Recovering the Unity of the Bible. A citação interna atribuída a um "teólogo da substituição" é de Steve Lehrer, New Covenant Theology: Questions Answered, citado em Kaiser.

  16. Decker, "People of God."

  17. Decker, "People of God."

  18. Decker, "People of God."

  19. Ralph P. Martin e Peter H. Davids, orgs., Dictionary of the Later New Testament and Its Developments, s.v. "People of God."

  20. Martin e Davids, Dictionary of the Later New Testament and Its Developments, s.v. "People of God."

  21. Decker, "People of God."

  22. Decker, "People of God."

  23. Charles Swindoll, Living Insights: Ephesians.

  24. Darrell Bock, Ephesians.

  25. Clinton E. Arnold, Ephesians.

  26. Peter T. O'Brien, The Letter to the Ephesians.

  27. Michael Vlach, Has the Church Replaced Israel?

  28. Vlach, Has the Church Replaced Israel?

  29. Vlach, He Will Reign Forever.

  30. Vlach, He Will Reign Forever.

  31. Vlach, He Will Reign Forever.

  32. Vlach, He Will Reign Forever.

  33. Vlach, He Will Reign Forever.

  34. Robert L. Saucy, The Case for Progressive Dispensationalism.

  35. Bruce A. Ware, "The New Covenant and the People(s) of God," Dispensationalism, Israel and the Church.

  36. Saucy, The Case for Progressive Dispensationalism.

  37. J. W. Flight, citado em Saucy, The Case for Progressive Dispensationalism.

  38. Tom Constable, Notes on Ephesians.

  39. Harold W. Hoehner, Ephesians: An Exegetical Commentary.

  40. Vlach, Has the Church Replaced Israel?

  41. Vlach, Has the Church Replaced Israel?

  42. Kaiser, Recovering the Unity of the Bible.

  43. Kaiser, Recovering the Unity of the Bible.

  44. Kaiser, Recovering the Unity of the Bible.

  45. Kaiser, Recovering the Unity of the Bible.

  46. John Stott, The Message of Ephesians.

  47. H. A. W. Meyer, Critical and Exegetical Handbook to the Epistle to the Ephesians and the Epistle to Philemon.

  48. Herman Ridderbos, Paul: An Outline of His Theology.

  49. George E. Ladd, The Presence of the Future.

  50. Alan R. Tippett, "People of God," International Standard Bible Encyclopedia.

  51. John Muddiman, The Epistle to the Ephesians.

  52. Decker, "People of God."

  53. Saucy, The Case for Progressive Dispensationalism.

  54. Kaiser, Recovering the Unity of the Bible.

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Perguntas Frequentes

O Dispensacionalismo Progressivo ensina que Deus tem um povo ou dois povos?
O Dispensacionalismo Progressivo é mais bem compreendido quando o povo de Deus é tratado como uma categoria pactual, e não como uma contagem numérica. Israel e a Igreja compartilham unidade pactual em Cristo, permanecendo, ao mesmo tempo, participantes distinguíveis do pacto.
Chamar a Igreja de povo de Deus significa substituir Israel?
Não. O artigo argumenta que a categoria povo de Deus se expande para incluir crentes gentios sob a Nova Aliança, sem transferir a identidade pactual de Israel para a Igreja nem cancelar o papel futuro de Israel.
Por que o povo de Deus é uma categoria pactual?
Nas Escrituras, a condição de povo é constituída pela participação no pacto e expressa por meio da fórmula pactual: Eu serei o seu Deus, e vocês serão o meu povo. A expressão designa um status pactual — não meramente uma identidade étnica ou o conjunto de todos os remidos.

Autor

Leonardo A. Costa

Pesquisador e escritor que explora o dispensacionalismo a partir de uma perspectiva progressiva, com profunda apreciação pelo legado dessa tradição.

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