Como a Nova Bíblia de Referência Scofield Silenciosamente Alterou a Própria Visão de C.I. Scofield sobre Joel 2

A Mudança Não Declarada do Comitê de Revisão de 1967: do Cumprimento Parcial para a Mera Analogia

DispensacionalismoLeonardo A. Costa9 min de leitura

Introdução

A Bíblia de Referência Scofield moldou a interpretação dispensacional mais do que praticamente qualquer outra obra individual. Por gerações de leitores, suas notas marginais tornaram-se a lente autoritativa para ler as Escrituras sob uma perspectiva dispensacional. Assim, quando uma edição revisada surgiu em 1967 — com o título The New Scofield Reference Bible — muitos leitores presumiram estar recebendo uma apresentação atualizada das próprias visões de C.I. Scofield, talvez esclarecidas ou complementadas, mas não fundamentalmente revertidas.

Essa presunção nem sempre se sustenta.

Em uma das passagens mais debatidas da hermenêutica dispensacional — Joel 2.28 e o uso que Pedro faz dela em Atos 2 — a revisão de 1967 substituiu silenciosamente a posição original de Scofield por uma diferente, sem identificar a mudança como um afastamento de sua visão declarada. A nota original afirma um cumprimento parcial e contínuo que começa no primeiro advento de Cristo. A nota revisada elimina completamente essa linguagem e a substitui por uma leitura estrita de "mera ilustração". Essas não são posições equivalentes; representam duas escolas de pensamento distintas dentro do dispensacionalismo.

Este artigo coloca as duas notas lado a lado, explica o que cada uma afirma e considera o que a substituição nos revela sobre o desenvolvimento da hermenêutica dispensacional no século XX.

A Nota Original de Scofield sobre Joel 2.28

A nota de Scofield sobre Joel 2.28 na edição original de 1909 (e de 1917) é a seguinte:

Cf. At 2.17, que apresenta uma interpretação específica de "depois" (heb. acherith = "último", "final"). "Depois", em Joel 2.28, significa "nos últimos dias" (gr. eschatos) e possui um cumprimento parcial e contínuo durante os "últimos dias", os quais tiveram início com o primeiro advento de Cristo (Hb 1.2); contudo, o cumprimento maior aguarda os "últimos dias" conforme aplicados a Israel. Ver At 2.17, nota, para a expressão "os últimos dias."

Vários aspectos dessa nota merecem atenção cuidadosa.

Primeiro, Scofield usa explicitamente a palavra "cumprimento" — e a usa duas vezes. Os "últimos dias" possuem um cumprimento que é "parcial e contínuo" a partir do primeiro advento e um "cumprimento maior" que aguarda o futuro de Israel. Trata-se de uma estrutura em duas etapas, ou inaugural: algo genuinamente começa no primeiro advento de Cristo, e algo maior ainda precisa ser completado.

Segundo, Scofield vincula o "depois" de Joel ao hebraico acherith, que ele traduz como "último" ou "final", e então faz uma referência cruzada com o grego eschatos em Atos 2.17. Ao fazer isso, ele trata a citação de Pedro como uma identificação hermenêutica, não meramente uma ilustração analógica.

Terceiro, Scofield cita Hebreus 1.2 ("nestes últimos dias, nos falou por meio do Filho") como ponto de partida para os "últimos dias" — o primeiro advento de Cristo. Isso significa que, para Scofield, a era do cumprimento parcial de Joel já está em andamento na Era da Igreja.

Essa estrutura — cumprimento parcial presente, cumprimento maior futuro para Israel — é precisamente o que o Dispensacionalismo Progressivo (DP) defende. Não se trata de uma concessão à Teologia da Aliança; é um reconhecimento consistente de que a profecia bíblica pode ter uma dimensão inaugural sem abrir mão de um cumprimento nacional futuro para Israel.

O Comitê de Revisão de 1967

A New Scofield Reference Bible de 1967 foi produzida por um comitê editorial de nove membros presidido por E. Schuyler English. O comitê incluía:

  • William Culbertson
  • Charles L. Feinberg
  • Frank E. Gaebelein
  • Allan A. MacRae
  • Clarence E. Mason Jr.
  • Alva J. McClain
  • Wilbur Moorehead Smith
  • John F. Walvoord

Esses eram alguns dos mais proeminentes estudiosos dispensacionais de meados do século XX. Vários deles — Feinberg, Walvoord, McClain — já haviam, em seus próprios escritos, articulado posições sobre Joel 2 e Atos 2 que diferiam da nota original de Scofield. A revisão, portanto, não apenas atualizou a linguagem; em pelo menos alguns casos, substituiu as preferências exegéticas do próprio Scofield pelas do comitê.

A Nota Revisada sobre Joel 2.28

A nota de 1967 sobre Joel 2.28 é a seguinte:

Cf. At 2.17. Pedro não afirmou que a profecia de Joel se cumpriu no dia de Pentecostes. Os detalhes de Joel 2.30–32 (cf. At 2.19–20) não se realizaram naquele momento. Pedro citou a predição de Joel como ilustração do que estava acontecendo em seus dias e como garantia de que Deus ainda cumpriria plenamente tudo o que Joel havia profetizado. O tempo desse cumprimento é indicado aqui ("depois", cf. Os 3.5), ou seja, nos últimos dias, quando Israel se voltar ao SENHOR.

O contraste com o original é marcante.

Onde Scofield escreveu "cumprimento parcial e contínuo", a nota revisada introduz "ilustração". Onde Scofield identificava um cumprimento em andamento que começa no primeiro advento, a nota revisada reserva todo o cumprimento para um único momento futuro — "os últimos dias, quando Israel se voltar ao SENHOR". Onde Scofield usava Hebreus 1.2 para ancorar o início dos "últimos dias" no primeiro advento, a revisão não oferece essa âncora e insinua que os "últimos dias" para Israel ainda não começaram.

A expressão "Pedro citou a predição de Joel como ilustração" representa, na taxonomia das posições dispensacionais sobre esse texto, a Visão 1 — a leitura estrita de analogia-apenas, associada a figuras como Arno Gaebelein, Thomas Ice e, em seus escritos anteriores, o próprio Charles Lee Feinberg. A nota original de Scofield situava-se claramente no que mais tarde seria chamado de Visão 2: cumprimento parcial ou inaugural. O comitê de revisão deslocou a nota de uma posição para a outra sem revelar que havia feito isso.

Duas Visões Distintas Dentro do Dispensacionalismo

Para compreender a relevância dessa mudança, vale lembrar que a questão de como Pedro usou Joel em Atos 2 gerou pelo menos três respostas distintas no âmbito da erudição dispensacional. Essas respostas são discutidas com mais detalhes no artigo O Uso de Joel 2 por Pedro em Atos 2 no Dispensacionalismo: Analogia ou Cumprimento Parcial?.

Em linhas gerais:

Visão 1 — Nenhum cumprimento, apenas analogia. Pedro não está afirmando que Joel está se cumprindo. Ele está traçando uma comparação: o que vocês estão testemunhando assemelha-se ao que Joel descreveu. O cumprimento pleno aguarda o arrependimento futuro de Israel. Essa é a posição da revisão de 1967.

Visão 2 — Cumprimento parcial / inaugural. Parte de Joel foi genuinamente cumprida em Pentecostes (especialmente o derramamento do Espírito em At 2.17–18), enquanto os sinais cósmicos e o Dia do Senhor (At 2.19–20) permanecem futuros. Essa é a posição do Dispensacionalismo Progressivo — e da nota original de Scofield.

Visão 3 — Cumprimento completo. Joel 2 foi inteiramente cumprido na era do Novo Testamento ou na destruição de Jerusalém. Essa é a posição dos preteristas e da maioria dos teólogos da aliança, sendo incompatível com qualquer forma de dispensacionalismo.

A mudança da Visão 2 para a Visão 1 não é um simples ajuste editorial. Representa uma mudança hermenêutica substantiva quanto a se alguma profecia do Antigo Testamento dirigida a Israel pode ter um cumprimento genuíno — ainda que parcial — na era presente.

A Visão de Scofield Não É um Caso Isolado

Scofield não estava sozinho entre os primeiros dispensacionalistas ao afirmar alguma forma de cumprimento contínuo ou parcial de Joel 2. Como demonstrado no levantamento da literatura dispensacional tradicional, um número significativo de estudiosos do Dispensacionalismo Tradicional (DT) — incluindo Stanley Toussaint, Zane Hodges, William MacDonald, John MacArthur e o Moody Bible Commentary — sustentou essencialmente a mesma posição da nota original de Scofield: parte de Joel foi cumprida em Pentecostes; o restante aguarda o futuro escatológico.

Isso significa que a revisão de 1967 não aproximou a Bíblia Scofield do consenso da erudição dispensacional. Ela a alinhou a uma ala específica dessa tradição — aquela que tende a ver qualquer concessão de cumprimento parcial presente como uma concessão à interpretação não dispensacional — ao mesmo tempo em que substituiu a visão claramente declarada do próprio Scofield.

A Relevância Mais Ampla

Esse caso não é meramente uma nota de rodapé na história da publicação dispensacional. Ele ilustra uma tensão recorrente dentro da tradição entre dois instintos distintos:

  1. O instinto analógico: a preocupação de que qualquer linguagem de cumprimento parcial abra caminho para a substituição de Israel pela Igreja, ou para a importação das categorias do "já / ainda não (already / not yet)" da escatologia inaugural.

  2. O instinto da inauguração: o reconhecimento, compartilhado por muitos do DT e por todos os do DP, de que alguns textos proféticos descrevem um padrão de cumprimento que se desdobra progressivamente — começando na era presente e se completando na era vindoura — sem exigir a transferência das promessas de Israel para a Igreja.

A nota original de Scofield pertencia claramente ao segundo instinto. A revisão de 1967 a substituiu pelo primeiro.

A ironia é que o comitê de revisão incluía Charles L. Feinberg, que em seu The Major Messages of the Minor Prophets [As Principais Mensagens dos Profetas Menores] sobre Joel havia ele mesmo escrito:

"A melhor posição a adotar é a de que Pedro usou a profecia de Joel como ilustração do que estava acontecendo em seu dia, e não como cumprimento dessa predição."

A própria visão publicada de Feinberg — a Visão 1 — parece ter moldado a nota revisada, muito embora contradiga diretamente o que Scofield escreveu no original.

Conclusão

Os leitores da New Scofield Reference Bible que consultam a nota sobre Joel 2.28 não estão lendo a interpretação de Scofield sobre a passagem. Estão lendo uma interpretação revisada, produzida por um distinto comitê que adotava uma visão diferente. A afirmação da nota original de "cumprimento parcial e contínuo" com início no primeiro advento não foi preservada, qualificada nem atualizada; foi substituída por uma leitura que situa todo o cumprimento no futuro escatológico de Israel.

Isso importa por pelo menos duas razões.

Primeiro, complica o apelo comum a "o que Scofield disse" nos debates sobre Joel 2 e Atos 2 dentro do dispensacionalismo. Se a questão é o que Scofield de fato disse, a resposta aponta para uma posição mais simpática ao Dispensacionalismo Progressivo do que à leitura estrita de analogia-apenas que a revisão de 1967 promove.

Segundo, ilustra que a história da interpretação dispensacional é internamente mais diversa do que frequentemente se reconhece. Posições que às vezes são apresentadas como desvios da tradição — como a afirmação do DP de um cumprimento inaugural de Joel 2 — podem revelar-se, na verdade, recuperações de posições anteriores sustentadas por figuras que estão na própria fundação do movimento dispensacional.

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Perguntas Frequentes

O que C.I. Scofield afirmou originalmente sobre Joel 2.28 e Atos 2?
A nota original de Scofield declarava que 'depois' em Joel 2.28 significa 'nos últimos dias' e que a profecia possui 'um cumprimento parcial e contínuo durante os últimos dias, que se iniciaram com o primeiro advento de Cristo' — uma perspectiva coerente com a estrutura do 'já / ainda não (already / not yet)' do Dispensacionalismo Progressivo.
Como a Nova Bíblia de Referência Scofield de 1967 alterou essa nota?
O comitê de revisão, composto por nove membros, substituiu integralmente a linguagem de cumprimento parcial de Scofield. A nova nota argumenta que Pedro usou Joel apenas 'como ilustração do que estava acontecendo', e não como cumprimento, e que o cumprimento completo aguarda a futura conversão de Israel ao SENHOR.
Quem foram os editores da Nova Bíblia de Referência Scofield de 1967?
O comitê editorial foi presidido por E. Schuyler English e incluía William Culbertson, Charles L. Feinberg, Frank E. Gaebelein, Allan A. MacRae, Clarence E. Mason Jr., Alva J. McClain, Wilbur Moorehead Smith e John F. Walvoord.
A nota original de Scofield sobre Joel 2 está alinhada com o Dispensacionalismo Progressivo?
Sim. A nota original de Scofield afirma tanto um cumprimento parcial presente, iniciado no primeiro advento, quanto um cumprimento futuro maior para Israel — precisamente a estrutura que o Dispensacionalismo Progressivo defende. A revisão de 1967 se afastou disso em direção a uma posição mais estrita de mera analogia.
A mudança doutrinária na revisão de 1967 foi comunicada aos leitores?
Nenhuma declaração explícita foi feita. A nota revisada foi apresentada sob o mesmo título e autoridade da Bíblia de Referência Scofield, mas reverteu a própria compreensão declarada de Scofield sobre a passagem sem identificar a mudança como um afastamento de sua posição original.

Autor

Leonardo A. Costa

Pesquisador e escritor que explora o dispensacionalismo a partir de uma perspectiva progressiva, com profundo apreço pelo legado da tradição.

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