O Uso de Joel 2 por Pedro em Atos 2 no Dispensacionalismo: Analogia ou Cumprimento Parcial?

O Surpreendente Acordo entre Dispensacionalistas Tradicionais e Progressivos sobre o Já / Ainda Não

DispensacionalismoLeonardo A. Costa14 min de leitura

Introdução

Uma das passagens mais debatidas na hermenêutica dispensacional é o uso que Pedro faz de Joel 2:28–32 em seu sermão no Pentecostes (Atos 2:14–21). Quando Pedro declarou "isto é o que foi predito pelo profeta Joel", o que ele quis dizer? A profecia foi cumprida? Parcialmente cumprida? Ou apenas ilustrada?

Essa questão tem dividido intérpretes — inclusive os próprios dispensacionalistas. O Dispensacionalismo Progressivo (DP) tem sido frequentemente criticado por alguns dispensacionalistas tradicionais (DTs) por afirmar um cumprimento parcial ou inaugural de Joel 2 em Atos 2. A leitura do DP é às vezes acusada de comprometer a distinção dispensacional entre Israel e a Igreja, ou de importar categorias do "já / ainda não (already / not yet)" que seriam estranhas a uma hermenêutica literal consistente.

Mas eis o fato surpreendente: quando se examina de fato o histórico da interpretação dispensacional, um número notável de dispensacionalistas tradicionais tem sustentado essencialmente a mesma posição do DP com relação a esse texto. Eles argumentaram, de forma clara e explícita, que o Pentecostes foi um cumprimento parcial da profecia de Joel e que o restante aguarda o futuro escatológico. Simplesmente não utilizaram o rótulo técnico "já / ainda não".

Em outras palavras, o que os DPs articulam com um vocabulário, muitos DTs articularam com outro — mas a substância é a mesma.

Este artigo irá (1) apresentar as três principais opções interpretativas sobre Joel 2 em Atos 2, (2) expor a posição do DP com seus representantes, e (3) demonstrar que o que se chama de distintivo do DP — o "cumprimento inicial/parcial" — é, na verdade, amplamente compartilhado por dispensacionalistas tradicionais.

Três Abordagens de Joel 2 em Atos 2

De maneira geral, os intérpretes adotaram uma de três abordagens:

  1. Nenhum cumprimento, parcial ou total. Pedro está apenas traçando uma analogia ou ilustração; nada da profecia de Joel foi de fato cumprido no Pentecostes.
  2. Cumprimento parcial / inaugural. Parte da profecia de Joel começou a se cumprir no Pentecostes (especialmente o derramamento do Espírito), enquanto os sinais cósmicos e o Dia do Senhor permanecem futuros. Essa é a posição do DP — e, como veremos, a posição de muitos DTs.
  3. Cumprimento completo. Joel 2 foi inteiramente cumprido nos eventos ao redor do Pentecostes e/ou do ano 70 d.C. O NT efetivamente reinterpreta Joel e transfere as promessas de Israel para a Igreja. Esse é o ponto de vista de preteristas, teólogos da aliança e intérpretes reformados como Stott, Matthew Henry e Kenneth Gentry.

Visão 1: Nenhum Cumprimento — A Visão da Analogia Estrita

Alguns dispensacionalistas tradicionais insistem que Pedro não estava reivindicando qualquer cumprimento de Joel. A "grande profecia de Joel" aguarda um cumprimento futuro, literal e nacional para Israel; o que aconteceu no Pentecostes foi simplesmente semelhante ao que Joel descreveu.

Arno C. Gaebelein colocou isso de forma contundente:

"Expositores descuidados e superficiais muitas vezes afirmaram que Pedro disse que tudo isso aconteceu em cumprimento do que foi predito pelo profeta Joel. Ele não usou a palavra 'cumprimento' em momento algum. Se tivesse falado de um cumprimento da profecia de Joel naquele dia, teria dito algo que não era verdade, pois a grande profecia de Joel não se cumpriu naquele dia." (A. C. Gaebelein, The Acts of the Apostles: An Exposition)

Thomas Ice argumenta de modo semelhante:

"Joel estava falando do derramamento do Espírito Santo sobre a nação de Israel nos últimos dias. Havia, contudo, um ponto de semelhança: um derramamento do Espírito Santo resultando em manifestações incomuns. Atos 2 não altera nem reinterpreta Joel 2, tampouco nega que Joel 2 terá um cumprimento literal quando o Espírito Santo for derramado sobre toda a nação de Israel. Trata-se simplesmente de uma aplicação a um evento neotestamentário em razão de um único ponto de semelhança." (Thomas Ice, em Issues in Dispensationalism, org. Willis e Master, p. 40)

Em outro ensaio, Ice insiste no mesmo ponto:

"Um exame atento da referência de Pedro a Joel revela que não se trata de cumprimento (a palavra 'cumprir' não é usada em Atos 2), mas de semelhança — 'isto é aquilo', ou seja, algo como aquilo em Atos 2:16 — entre a ação do Espírito de Deus no futuro, conforme descrita em Joel, e o que o Espírito Santo estava fazendo ao dar início à Igreja." (Thomas Ice, Peter's Quotation of Joel in Acts 2)

Charles Lee Feinberg concordou:

"Esse fato por si só não constitui um cumprimento. Em primeiro lugar, a fórmula costumeira para uma profecia cumprida está completamente ausente em Atos 2:16. E ainda mais significativo é o fato de que grande parte da profecia de Joel, mesmo na citação de Atos 2:19–20, não se cumpriu naquele momento… A melhor posição a adotar é a de que Pedro usou a profecia de Joel como ilustração do que estava acontecendo em seu tempo, e não como cumprimento dessa predição." (Charles Lee Feinberg, The Major Messages of the Minor Prophets)

Hixon e Fontecchio resumem bem essa visão:

"Os eventos proféticos citados por Pedro, de Joel 2:28–32, claramente não aconteceram no dia de Pentecostes. Os eventos eram semelhantes, mas não idênticos… Pedro não estava afirmando que os eventos do dia de Pentecostes eram o cumprimento de Joel 2. Em vez disso, Pedro estava dizendo à multidão em Jerusalém: 'Não se surpreendam com o fato de Deus estar agindo dessa maneira… pois vejam a promessa de Joel que Deus ainda cumprirá um dia. Isso não é o seu cumprimento, mas o ensinamento de Joel nos instrui que esse tipo de ministério do Espírito Santo é possível.'" (J. B. Hixon e Mark Fontecchio, What Lies Ahead)

Thomas Constable conclui de forma semelhante:

"Pedro parece ter afirmado que o que Deus havia predito por meio de Joel para os últimos tempos era análogo aos eventos do Pentecostes. A omissão de 'cumprido' aqui pode ser deliberada, a fim de ajudar seus ouvintes a evitar a conclusão de que o que estava acontecendo era o cumprimento completo do que Joel havia predito. Era semelhante ao que Joel havia predito." (Constable, Notes on Acts, 2:16)

Essa é a posição a partir da qual a leitura do DP de Joel 2 é mais frequentemente criticada. A preocupação subjacente é que qualquer concessão de "cumprimento parcial" arrisca ceder terreno a interpretações não dispensacionais e solapar uma hermenêutica literal consistente.

A Posição do Dispensacionalismo Progressivo

Os DPs argumentam algo mais modesto do que o cumprimento completo, mas mais substantivo do que a mera analogia. Eles sustentam que a profecia de Joel começou a se cumprir no Pentecostes (o derramamento do Espírito), enquanto outros aspectos (os sinais cósmicos, o Dia do Senhor) permanecem futuros.

Michael Vlach exemplifica essa visão ao classificar o uso de Joel 2 em Atos 2 como uma forma de cumprimento profético literal — simplesmente um cumprimento parcial literal (Michael Vlach, The Old in the New).

Darrell Bock expõe a posição do DP com sua característica clareza:

"Um estudo cuidadoso do uso de Joel em Atos 2 mostra que 'isto é aquilo' não equivale a 'isto é tudo aquilo' nem a 'isto é como aquilo'; o significado é, antes, 'este é o início daquilo', visto que os sinais cósmicos de Joel 2 não se cumpriram na primeira vinda de Jesus." (Darrell L. Bock, Dispensationalism, Israel, and the Church)

E ainda:

"A citação em Atos 2 sobre o derramamento do Espírito e os últimos dias não se refere a algo semelhante ao que Joel 2 prediz, mas a aquilo mesmo. Trata-se de identificação, não de comparação. O fato de que isso é cumprimento — e cumprimento dos últimos dias — é a base para o ponto de aplicação em 2:36. Israel pode saber que Jesus é Senhor e Cristo porque esse derramamento designado significa que os últimos tempos chegaram (Lc 3:16 com 24:49 e At 1:4–5 e a mudança explicativa intencional de Pedro para 'últimos dias' em At 2:17). É chamado de a promessa do Pai (e isso necessariamente provém das Escrituras Hebraicas). É também o dom do Espírito do Messias ao seu povo, em linha com a obra da Nova Aliança estabelecida por sua morte na cruz." (Darrell L. Bock, "A Progressive Dispensational Response," em Covenantal and Dispensational Theologies, p. 238–39)

Robert Saucy apresenta o mesmo argumento:

"Uma interpretação natural tanto das profecias quanto dos eventos do Pentecostes leva facilmente à conclusão de que a primeira parte das profecias relativas ao derramamento escatológico do Espírito havia sido inaugurada (At 2:17–18) — os dias messiânicos haviam chegado. Mas é difícil ver os grandes eventos cósmicos descritos nos versículos 19–20, associados à vinda do Dia do Senhor, como cumpridos pelos fenômenos do Pentecostes. Além disso, esses mesmos fenômenos cósmicos estão várias vezes associados ao retorno de Cristo em glória com efeitos de consternação e temor sobre o povo, o que não se observa no Pentecostes (cf. Mt 24:29; Mc 13:24–25; Lc 21:25–26)." (Robert L. Saucy, "The Progressive Dispensational View," em Perspectives on Israel and the Church)

E ainda:

"A afirmação de Pedro de que 'isto é o que foi predito pelo profeta Joel' (v. 16) indica claramente que ele entendia o que havia acabado de acontecer como o cumprimento da profecia de Joel sobre o derramamento escatológico do Espírito." (Robert L. Saucy, mesma fonte)

Em suma, os DPs leem At 2:17–18 como o início do cumprimento, com At 2:19–20 ainda futuro. Críticos dentro do dispensacionalismo tradicional às vezes chamam isso de traição à escatologia literal e futurista. Mas será que é?

Walter C. Kaiser:

"Todos os intérpretes sabem que o Pentecostes contemplou apenas os dois primeiros versículos daquela profecia, e isso apenas em grau inicial." (Walter C. Kaiser, Back Toward the Future)

A Convergência Surpreendente: Dispensacionalistas Tradicionais que Leem Joel 2 da Mesma Forma

É aqui que a ironia emerge. Uma longa linha de dispensacionalistas tradicionais articulou exatamente a mesma posição — que parte de Joel 2 foi cumprida no Pentecostes e parte permanece futura — sem jamais usar o rótulo "já / ainda não". Mas em substância, a posição é idêntica.

Charles Swindoll:

"Pedro apontou para o início de um derramamento, não para sua conclusão. Pedro afirmou que aquele Pentecostes específico marcou o início de uma nova era que culminaria, por fim, com todos os viventes recebendo o Espírito Santo." (Charles Swindoll, Acts 2:17–21)

John MacArthur:

"O cumprimento completo da profecia de Joel aguarda a vinda do reino milenial. No dia de Pentecostes, e de fato ao longo de toda a Era da Igreja, Deus tem dado tanto uma prévia quanto uma amostra do poder que o Espírito liberará no reino. Os crentes na era atual têm uma antegustação da vida no reino." (John MacArthur, Acts 1–12)

Observe a linguagem de MacArthur: "prévia", "amostra", "antegustação". Em substância, trata-se de uma hermenêutica do "já / ainda não" em tudo, menos no nome.

Stanley Toussaint, no Bible Knowledge Commentary, escreve:

"Essa cláusula não significa 'isto é como aquilo'; significa que o Pentecostes cumpriu o que Joel havia descrito. Contudo, as profecias de Joel citadas em Atos 2:19–20 não foram cumpridas. A implicação é que o restante seria cumprido se Israel se arrependesse." (Toussaint, BKC, 1985, p. 358)

Toussaint aqui explicitamente rejeita a visão 1 ("isto é como aquilo") e afirma o cumprimento parcial com completude futura. É exatamente o que os DPs dizem.

Mal Couch é ainda mais direto:

"Isso não significa que a Igreja está substituindo Israel, mas sim que o pacto profetizado teve início, e terá seu cumprimento final entre o povo judeu no reino futuro. Atualmente, a Igreja se beneficia desse pacto, mas não o está cumprindo." (Mal Couch, em Hindson, Exploring Bible Prophecy)

Steven Ger:

"O que Pedro parece ter declarado é que, em sentido limitado, a 'torneira' do Espírito Santo havia sido aberta. A experiência do Pentecostes foi apenas um 'sinal de entrada' da profecia de Joel, um 'gosto' das bênçãos futuras de Deus; uma antegustação do derramamento definitivo do Espírito sobre todo Israel." (Steven Ger, The Book of Acts)

O Moody Bible Commentary sobre Atos 2:14–21:

"Embora seja debatível, parece melhor interpretar o dia de Pentecostes como apenas um cumprimento parcial da profecia de Joel — um tipo de cumprimento 'já, ainda não'. A divisão entre 'o já' e 'o ainda não' ocorre entre os versículos 18 e 19. O dom do Espírito marcou o início da obra do Espírito Santo, mas não o cumprimento completo dos eventos do Dia do Senhor." (Marty, Moody Bible Commentary, At 2:14–21)

É notável que esse comentário completamente tradicional no campo dispensacional não apenas afirma a posição do DP, como usa a própria expressão "já, ainda não".

Larry Pettegrew, do The Master's Seminary, igualmente afirma um cumprimento inicial:

"Após sua ascensão, Cristo inaugurou a Nova Aliança ao derramar o Espírito Santo no dia de Pentecostes… Pedro insiste que, em cumprimento inicial da promessa do Espírito Santo, Cristo, 'exaltado à direita de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou o que vocês estão vendo e ouvindo' (At 2:33)." (Larry D. Pettegrew, "The New Covenant," Master's Seminary Journal 10:2 [outono de 1999], p. 266)

William MacDonald, no amplamente difundido Believer's Bible Commentary:

"Na verdade, os eventos do Pentecostes não foram o cumprimento completo da profecia de Joel… Mas o que aconteceu no Pentecostes foi uma antegustação do que aconteceria nos últimos dias, antes do grande e glorioso Dia do Senhor." (William MacDonald, Believer's Bible Commentary, At 2:16–19)

Zane Hodges, pilar do dispensacionalismo tradicional da graça livre:

"Um cumprimento das palavras de Joel sobre o derramamento do Espírito é uma das características dessa passagem. Contudo, parece que a profecia de Joel sobre sinais e prodígios não se cumpriu aqui (nem em nenhum outro lugar em Atos). Aliás, essa profecia nunca se cumpriu até hoje… Parte da profecia de Joel havia acabado de ocorrer. O restante seria cumprido em breve?… O que podemos ver agora é o hiato de quase 2.000 anos entre as palavras da profecia de Joel citadas em At 2:17–18 e as citadas nos versículos 19–20." (Zane C. Hodges)

Uma Breve Nota sobre a Terceira Visão: Cumprimento Completo

Para completar o quadro, a terceira opção — o cumprimento total — é sustentada principalmente fora dos círculos dispensacionais. John Stott escreve:

"Devemos ter cuidado para não recitar a profecia de Joel como se ainda estivéssemos aguardando o seu cumprimento, ou mesmo como se o seu cumprimento tivesse sido apenas parcial, e aguardássemos algum cumprimento futuro e completo." (John R. W. Stott, The Message of Acts)

Matthew Henry sustenta que a profecia foi plenamente realizada, com a destruição de Jerusalém no ano 70 d.C. marcando o "grande e glorioso Dia do Senhor":

"Isto é o que foi predito pelo profeta Joel; é o cumprimento disso, o cumprimento pleno disso… A destruição de Jerusalém, ocorrida cerca de quarenta anos após a morte de Cristo, é aqui chamada de grande e notável Dia do Senhor, porque pôs um fim definitivo à economia mosaica." (Matthew Henry, Commentary on the Whole Bible)

O preterista Kenneth Gentry concorda:

"Em Atos 2:16ff [Pedro cita Joel 2 para interpretar esses eventos do período 30–70 d.C.]… O preterismo refere-se àquela compreensão de certas passagens escatológicas que sustenta que elas já foram cumpridas." (Kenneth L. Gentry, He Shall Have Dominion, 1997, p. 162–163)

Essa terceira posição é, naturalmente, incompatível com qualquer forma de dispensacionalismo — tradicional ou progressivo — porque dissolve o futuro nacional de Israel.

Um Desacordo Terminológico, Não Substantivo

O que emerge desta pesquisa é revelador. Dentro do dispensacionalismo, a escolha genuinamente contestada em relação a Joel 2 em Atos 2 é entre as visões (1) e (2) — entre "nenhum cumprimento, apenas analogia" e "cumprimento inicial/parcial com complemento futuro". Ambas as visões preservam um cumprimento futuro, literal e escatológico de Joel para o Israel nacional. Ambas rejeitam a visão (3).

E a terminologia do "já / ainda não" usada pelos DPs não lhes é exclusiva. Como vimos:

  • O Moody Bible Commentary usa a expressão exata "já, ainda não".
  • MacArthur usa "prévia", "amostra" e "antegustação".
  • Ger usa "sinal de entrada" e "antegustação".
  • Pettegrew usa "cumprimento inicial".
  • Kaiser fala de cumprimento "em grau inicial".
  • Toussaint, MacDonald, Hodges, Couch e Swindoll afirmam explicitamente que parte de Joel foi cumprida no Pentecostes enquanto parte permanece futura.

Isso significa que a crítica de que a leitura do "já / ainda não" de Joel 2 pelo DP é uma inovação perigosa simplesmente não resiste ao contato com a própria literatura dispensacional tradicional. Muitos DTs sustentam a mesma posição — apenas a descrevem com palavras diferentes.

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Autor

Leonardo A. Costa

Pesquisador e escritor que explora o dispensacionalismo sob uma perspectiva progressiva, com profundo apreço pelo legado da tradição.

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