A Filosofia Limitada da História em Ryrie e o Dispensacionalismo Progressivo

Por que restringir o objetivo da história ao Milênio reduz o estado eterno a um apêndice pós-histórico

DispensacionalismoLeonardo A. Costa8 min de leitura

Ryrie foi um dos principais críticos do Dispensacionalismo Progressivo. Em especial, ele se opôs ao tratamento que o DP dispensa ao estado eterno. Contudo, ao responder a essa posição, Ryrie propôs o que denominei, em um capítulo do meu próximo livro, de filosofia da história limitada. O motivo é simples: para Ryrie, o objetivo da filosofia da história não é o estado eterno, mas o Milênio.

Isso gera um problema teológico de peso. A abordagem reduz promessas eternas a um horizonte de mil anos, obscurece a relação entre tempo e história, e efetivamente trata o estado eterno como algo que escapa ao escopo legítimo da história redentora.

Ryrie afirma:

Quanto ao objetivo da história, os dispensacionalistas o localizam no estabelecimento do reino milenial na terra, ao passo que o teólogo da aliança o identifica com o estado eterno. Isso não significa que os dispensacionalistas normativos minimizem a glória do estado eterno; eles insistem, porém, que a manifestação da glória do Deus soberano sobre a história humana deve ser visível nos céus e na terra presentes. Essa concepção da realização do objetivo da história dentro do tempo é ao mesmo tempo otimista e coerente com as exigências da definição. — Charles Ryrie, Dispensationalism

Em seguida, ele reforça o mesmo ponto. Em sua visão, uma filosofia da história adequada exige cumprimento dentro do tempo histórico, e não na eternidade:

Os dispensacionalistas progressivos adotam uma perspectiva do tipo "tanto/quanto" em relação ao(s) objetivo(s) da história, combinando o reino milenial e o estado eterno em uma única dispensação futura. Trata-se de uma posição mediadora entre o dispensacionalismo clássico e a teologia da aliança, e não está em plena consonância com a definição que se relaciona a eventos na história, e não na eternidade. Assim, no que diz respeito aos objetivos de uma filosofia da história adequada, somente o dispensacionalismo normativo — com sua consumação dentro da história na dispensação do Milênio — oferece um sistema satisfatório. — Charles Ryrie, Dispensationalism

Ele também sustenta que a manifestação da glória de Deus culmina no reino milenial:

Ademais, o dispensacionalismo não apenas enxerga as diversas dispensações como manifestações sucessivas do propósito divino, mas também como manifestações progressivas desse propósito. Todo o programa culmina, não na eternidade, mas na história — no reino milenial do Senhor Cristo. Esse clímax milenial é o ápice da história e o grande objetivo do programa de Deus para as eras. — Charles Ryrie, Dispensationalism

A lógica da posição de Ryrie é clara. O Milênio é a dispensação final dentro da história temporal deste mundo presente. Ele contrapõe a ordem histórica dos céus e da terra presentes — incluindo o Milênio — ao estado eterno, que, em seu esquema, situa-se fora das economias dispensacionais associadas à administração divina deste mundo.

Ele escreve:

Contudo, parece que, a partir do conceito de dispensação como relacionado à administração dos assuntos do lar de Deus (o mundo), quando a história temporal chega ao fim, o arranjo doméstico que serve de base para uma mordomia dispensacional também termina. Em outras palavras, as economias dispensacionais estão ligadas aos assuntos deste mundo presente e não são mais necessárias quando a história deste mundo chega ao seu fim. Assim, na eternidade não há necessidade dos arranjos econômicos de uma dispensação tal como os conhecemos na história. Os dispensacionalistas progressivos situam o estado eterno como a segunda parte de sua dispensação final (sendo a primeira parte o reino milenial), denominada "a dispensação futura" ou "dispensação ziônica". — Charles Ryrie, Dispensationalism

Para Ryrie, portanto, a história humana deve ser compreendida em relação aos céus e à terra presentes. O objetivo da história precisa ser realizado "dentro do tempo", e essa realização ocorre no reino milenial. A implicação é que a história humana, em sentido teológico próprio, chega ao seu fim com o Milênio.

Essa implicação é problemática. Ela sugere que, concluído o Milênio, a história cede lugar à eternidade, como se a eternidade fosse um modo de existência atemporal ou a-histórico. Tal conclusão, porém, deve mais a pressupostos platônicos ou quase gnósticos do que à exegese bíblica.

Biblicamente, o estado eterno não é a abolição do tempo, da história ou da atividade humana. Uma vez iniciada, a história humana não simplesmente desaparece. Ela é transformada, purificada e conduzida à sua forma consumada. O Milênio é parte da história, mas não é o seu término. O estado eterno não é uma esfera estática e atemporal, desvinculada da criação; é a ordem aperfeiçoada dos novos céus e da nova terra.

O próprio livro do Apocalipse apresenta o estado eterno em termos explicitamente temporais e históricos. A árvore da vida produz frutos "a cada mês" (Ap 22.2), o que indica um ciclo temporal contínuo dentro do estado eterno. Há serviço, reinado, adoração, e as nações trazem a sua glória para a Nova Jerusalém (Ap 21.24–26; 22.3–5). Não se trata de abstrações — são atividades. E atividade implica sequência, ordem, desenvolvimento e continuidade.

A fraqueza fundamental na posição de Ryrie está em tratar os novos céus e a nova terra como se estivessem fora do escopo significativo da história. Mas a nova criação não é a negação da criação presente; é a sua restauração e consumação. O estado eterno não é o fim da história humana, mas a sua idade de ouro. O Milênio certamente manifestará a glória de Deus, mas o estado eterno a manifestará de forma ainda mais plena, permanente e perfeita.

Em outras palavras, a história humana não termina após o Milênio. Ela ingressa na sua expressão mais elevada e mais completa.

Thomas Ice segue a mesma trajetória básica quando escreve:

Uma vez que as dispensações tratam do plano de Deus para a história, o estado eterno não é considerado uma dispensação, assim como a eternidade passada também não o é. Dessa forma, a história presente termina com a destruição dos céus e da terra atuais (2 Pe 3.10) e a criação dos novos céus e da nova terra (Ap 21.1).

Essa formulação repete o mesmo movimento reducionista. Ela confina o programa histórico de Deus à criação presente e trata o estado eterno como algo situado além da história, em vez de concebê-lo como a consumação da história. Mas se os novos céus e a nova terra são verdadeiramente o cumprimento dos propósitos de Deus para a criação, eles não podem ser tratados como mero apêndice pós-histórico. São o estágio final e aperfeiçoado do design redentor-histórico de Deus.

Esse reducionismo também afeta a compreensão de Ryrie acerca dos pactos bíblicos. Porque ele localiza o objetivo da história no Milênio, o cumprimento dos Pactos Abraâmico, Davídico e da Nova Aliança fica efetivamente restrito a esse período milenial. Ele escreve:

A interpretação literal das Escrituras conduz naturalmente a uma segunda característica — o cumprimento literal das profecias do Antigo Testamento. Esse é o princípio fundamental da escatologia premilenista. Se as profecias ainda não cumpridas do Antigo Testamento, feitas nos pactos Abraâmico, Davídico e da Nova Aliança, devem ser literalmente cumpridas, é necessário que haja um período futuro, o Milênio, no qual possam ser cumpridas, pois a Igreja não as está cumprindo agora. Em outras palavras, o quadro literal das profecias do Antigo Testamento exige ou um cumprimento futuro ou um cumprimento não literal. Se devem ser cumpridas no futuro, o único tempo restante para esse cumprimento é o Milênio. — Charles Ryrie, Dispensationalism

Aqui o problema se torna ainda mais evidente. O argumento de Ryrie pressupõe que, se os pactos não estão sendo cumpridos na Igreja agora, então "o único tempo restante" para seu cumprimento literal é o Milênio. Mas isso pressupõe exatamente o que precisa ser provado: que o estado eterno não pertence à arena histórica em que as promessas pactais são cumpridas.

Essa suposição é exegeticamente e teologicamente injustificada. As promessas pactais não se esgotam no Milênio. O Milênio é uma fase real e necessária de seu cumprimento, mas não é o seu horizonte final. A promessa abraâmica da terra, a promessa davídica do reino e a promessa da Nova Aliança de restauração plena alcançam sua expressão última não apenas em um reinado de mil anos, mas na criação renovada — onde Deus habita com o seu povo, a maldição é removida, as nações são curadas e o reinado dos santos continua para sempre. Isso não é uma abordagem tudo-ou-nada para o cumprimento dos pactos; é uma realização em camadas e progressiva, que culmina no estado eterno.

Portanto, ao criticar a visão dispensacionalista progressiva sobre o estado eterno, Ryrie acaba defendendo uma filosofia da história limitada e reducionista. Seu modelo acerta ao insistir no caráter histórico e terreno dos propósitos do Reino de Deus, mas erra ao confinar o ápice desses propósitos ao Milênio. Ao situar o estado eterno fora do objetivo próprio da história, sua visão diminui o significado bíblico dos novos céus e da nova terra e corre o risco de importar pressupostos filosóficos sobre a eternidade que são estranhos ao texto bíblico.

Uma filosofia bíblica da história mais coerente deve afirmar que o Milênio não é o fim da história, mas uma etapa decisiva dentro dela. A verdadeira consumação da história é o estado eterno: não uma abstração atemporal, mas a criação aperfeiçoada, renovada e eterna na qual os propósitos pactais de Deus alcançam sua realização mais plena.

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Perguntas Frequentes

Qual é a filosofia da história de Ryrie no dispensacionalismo?
Para Ryrie, o objetivo da filosofia da história não é o estado eterno, mas o Milênio. Ele sustenta que uma filosofia da história adequada requer o cumprimento dentro do tempo histórico, e que todo o programa dispensacional culmina no reino milenial do Senhor Cristo.
Por que a visão de Ryrie sobre o estado eterno é problemática?
Ao situar o estado eterno fora do objetivo da história redentora, Ryrie efetivamente reduz as promessas eternas a um horizonte de mil anos e importa pressupostos quase platônicos sobre a eternidade como um âmbito atemporal e não histórico. Contudo, o estado eterno bíblico envolve atividade temporal contínua, serviço e reinado — trata-se da continuação aperfeiçoada da história, não de sua negação.
O estado eterno pertence à história redentora?
Sim. Os novos céus e a nova terra não são um apêndice pós-histórico, mas a consumação da história. Apocalipse 22.2 descreve frutos produzidos 'a cada mês', e as nações trazem sua glória para a Nova Jerusalém (Ap 21.24–26). O estado eterno é a era dourada da história humana, não o seu término.
Como a visão de Ryrie afeta sua interpretação dos pactos bíblicos?
Ao situar o objetivo da história no Milênio, Ryrie efetivamente restringe o cumprimento dos Pactos Abraâmico, Davídico e da Nova Aliança ao período milenial. Contudo, as promessas pactais alcançam sua expressão última na criação renovada, onde Deus habita com o seu povo, a maldição é removida e o reinado dos santos continua para sempre.

Autor

Leonardo A. Costa

Pesquisador e escritor que explora o dispensacionalismo a partir de uma perspectiva progressiva, com profunda apreciação pelo legado dessa tradição.

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