"É importante perceber o quanto a antropologia do Novo Testamento difere da dos gregos. Corpo e alma são ambos originalmente bons na medida em que foram criados por Deus." — Oscar Cullmann[1]
Poucas correntes intelectuais exerceram influência tão silenciosa e penetrante sobre a teologia cristã quanto o Platonismo. Seus pressupostos acerca da natureza humana infiltraram-se no pensamento da Igreja de forma tão gradual que muitos crentes hoje sustentam convicções sobre a alma, o corpo e a vida após a morte que devem muito mais a Atenas do que a Jerusalém. Compreender os contornos dessa influência é indispensável para que possamos recuperar uma escatologia genuinamente bíblica.
A Doutrina Platônica da Alma
O núcleo da antropologia platônica é a convicção de que a alma é imortal no sentido mais estrito: não foi criada, é eterna, sem começo nem fim. Para Platão, um ser humano simplesmente é uma alma. O corpo não é parte integrante da identidade pessoal, mas antes um obstáculo a ela.[2] Em algum momento primordial, a alma desceu do reino ideal das formas puras e ficou aprisionada em um corpo material como uma espécie de punição. Não é coincidência que a tradição platônica tenha cunhado a expressão soma sema — "o corpo é um túmulo."[3]
No Fédon — diálogo que narra as últimas horas de Sócrates —, Platão articula nada menos que quatro argumentos entrelaçados em favor da imortalidade da alma, construindo um sofisticado edifício intelectual que exerceria enorme atração gravitacional sobre o pensamento ocidental subsequente. Se o corpo é uma prisão, então a morte é a grande libertação. No âmbito do Platonismo, a cessação da vida corporal não era uma catástrofe, mas uma bem-vinda soltura.[4] O relato platônico da morte de Sócrates ilustra isso de forma vívida: o filósofo enfrentou sua execução com serenidade e até alegria, pois morrer significava a emancipação da alma de seu confinamento carnal.[5] Esse desprezo pelo corpo não se restringia à escola platônica. Ele perpassava grande parte da filosofia greco-romana, incluindo o Estoicismo. Epicteto, ele próprio um estoico e não um platônico, referia-se a si mesmo com franco desdém como "uma pobre alma acorrentada a um cadáver."[6] O fato de pensadores de orientações filosóficas tão distintas terem convergido para uma mesma depreciação da existência corporal revela o quanto esse sentimento estava arraigado no mundo antigo — e, portanto, quão intensa seria a pressão cultural que exerceria sobre a Igreja primitiva.
O comprometimento metafísico subjacente, compartilhado por essas escolas, é um dualismo radical: corpo e alma são concebidos como substâncias radicalmente distintas, pertencentes a ordens de realidade inteiramente diferentes.[7]
Oscar Cullmann, talvez na passagem mais célebre de seu ensaio seminal Immortality of the Soul or Resurrection of the Dead? [Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos?], evidenciou o contraste decisivo entre a postura grega e a cristã diante da morte ao colocar a morte de Sócrates lado a lado com a de Jesus. Sócrates, rodeado de seus discípulos em seu último dia, discorreu serenamente sobre a imortalidade da alma e, em seguida, bebeu a cicuta com sublime compostura — pois a morte, nos seus próprios termos, era o regresso da alma ao lar, a tão esperada libertação do peso do corpo. Jesus, pelo contrário, "começou a sentir tristeza e angústia" (Mc 14.33). No Getsêmani, clamou: "A minha alma está profundamente angustiada, até a morte" (Mc 14.34), e suplicou aos seus discípulos que não o deixassem só. Na cruz, proferiu o angustiado grito: "Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?" (Mc 15.34). O autor de Hebreus nos diz que Jesus "ofereceu orações e súplicas, com grande clamor e lágrimas, àquele que podia salvá-lo da morte" (Hb 5.7). Onde Sócrates encontrou a morte como uma amiga, Jesus a encontrou como o último inimigo (1 Co 15.26) — uma intrusão estranha na boa criação de Deus, um horror a ser vencido, não acolhido. Nada revela de forma mais contundente a radical incompatibilidade entre a doutrina grega da imortalidade e a doutrina cristã da ressurreição. Pois se a morte é simplesmente a libertação da alma, não há nada a ser superado; mas se a morte é a destruição da pessoa inteira que Deus criou, então somente um novo ato da criação divina — a ressurreição — pode responder a ela.
A Infiltração do Platonismo no Pensamento Cristão
Esse arcabouço dualista não permaneceu prudentemente do lado de fora dos muros da Igreja. A assimilação foi, em muitos aspectos, quase inevitável. O Cristianismo nasceu em um mundo helenístico saturado de pressupostos platônicos e, à medida que a Igreja primitiva se engajava com a cultura intelectual ao seu redor, elementos dessa cultura foram absorvidos pelo seu vocabulário teológico. O processo pode ser rastreado por meio de figuras identificáveis. Na Alexandria do século II, Clemente recorreu amplamente à filosofia médio-platônica em seu esforço de apresentar a fé a pagãos instruídos. Seu sucessor, Orígenes, foi ainda mais longe, adotando a doutrina da pré-existência das almas — a noção de que as almas humanas existiam em um estado puramente espiritual antes de descenderem para os corpos —, ensinamento tão tributário do Platonismo que viria a ser condenado no Segundo Concílio de Constantinopla em 553 d.C. No Ocidente latino, Agostinho de Hipona, profundamente moldado pelo Neoplatonismo de Plotino e Porfírio antes de sua conversão, trouxe muitos daqueles instintos filosóficos para a sua teologia cristã. Embora Agostinho afirmasse a ressurreição do corpo, sua antropologia conservou um marcado acento platônico, privilegiando a interioridade da alma e sua ascensão contemplativa em direção a Deus de maneiras que sutilmente diminuíam o significado teológico do corpo.
Sob essa influência acumulada, a salvação passou a ser concebida primariamente como a libertação da alma do corpo, e não a redenção da pessoa inteira.[8] O corpo físico foi sendo progressivamente negligenciado na reflexão teológica, como se somente a alma constituísse o verdadeiro objeto da preocupação salvífica de Deus. Com o tempo, essa visão helenizada foi tão completamente assimilada que passou a ser confundida com a ortodoxia cristã.[9] Como Alister McGrath observou, muitos cristãos têm operado com uma compreensão deficiente da natureza humana em razão de "pressupostos de inspiração platônica, especialmente a doutrina platônica da imortalidade da alma."[10]
As consequências teológicas são de grande alcance. No Platonismo, a alma sempre existiu e sempre existirá por necessidade intrínseca. O testemunho bíblico é inteiramente distinto: a alma humana é uma criatura, chamada à existência pelo ato soberano de Deus, e persiste apenas em estado de dependência contingente em relação a Ele — verdade sublinhada, por exemplo, pelo significado da Árvore da Vida nos capítulos iniciais de Gênesis.
A Correção Bíblica: Imortalidade e a Pessoa Inteira
Uma divergência adicional e decisiva diz respeito ao escopo da imortalidade. No pensamento platônico, a imortalidade pertence exclusivamente à alma; o corpo está destinado à dissolução e não possui significado último. Na teologia cristã, ao contrário, a imortalidade abrange a pessoa humana inteira — corpo e alma. Stanley Grenz enuncia a questão com admirável clareza:
Na visão bíblica, em contraste, a imortalidade não se limita à parte imaterial da pessoa humana, mas se estende além da alma para incluir o corpo. E essa imortalidade não é uma possessão da alma; ela não pertence intrinsecamente à parte imaterial. Pelo contrário, a imortalidade é a meta de toda a pessoa humana.[11]
Porque a imortalidade bíblica se estende ao corpo material,[12] ela necessariamente implica a doutrina da ressurreição do corpo. A Escritura ensina que nossos corpos físicos serão ressuscitados em glória — os mesmos corpos que possuímos agora, porém libertados da corrupção e da fragilidade que o pecado produziu. O próprio corpo ressuscitado de Cristo era visivelmente material, possuindo carne e ossos (Lc 24.39), e nossos corpos ressuscitados não serão menos concretos. Aqui a incompatibilidade do pensamento platônico com a esperança cristã se torna inconfundível. Oscar Cullmann aprofunda o argumento:
A doutrina grega da imortalidade e a esperança cristã na ressurreição diferem de forma tão radical porque o pensamento grego tem uma interpretação inteiramente diferente da criação. A interpretação judaica e cristã da criação exclui todo o dualismo grego entre corpo e alma. Pois o visível, o corpóreo, é tão genuinamente obra de Deus quanto o invisível. Deus é o criador do corpo. O corpo não é a prisão da alma, mas antes um templo, como Paulo diz (1 Co 6.19): o templo do Espírito Santo! A distinção fundamental está aqui. Corpo e alma não são opostos. Deus considera o corpóreo "bom" após tê-lo criado.[13]
A exposição mais extensa do corpo ressurreto no Novo Testamento encontra-se em 1 Coríntios 15.35–54, onde Paulo antecipa a própria objeção que um platônico poderia levantar: "Como ressuscitam os mortos? Com que tipo de corpo virão?" (v. 35). Sua resposta é a analogia da semente: o que é semeado precisa morrer antes de poder ser ressuscitado, e a planta que emerge guarda genuína continuidade com a semente mesmo sendo gloriosamente transformada (vv. 36–38). Isso não é a criação de algo inteiramente novo, nem a mera sobrevivência de uma alma desencarnada; é a transformação do mesmo corpo em um modo de existência superior. Paulo então desdobra quatro contrastes que definem a natureza dessa transformação: o corpo é semeado na corrupção, mas ressuscitado na incorrupção; semeado na desonra, mas ressuscitado na glória; semeado na fraqueza, mas ressuscitado no poder; semeado como soma psychikon ("corpo natural"), mas ressuscitado como soma pneumatikon ("corpo espiritual") (vv. 42–44). O último par é crucial e com frequência mal compreendido. Como N. T. Wright demonstrou, os adjetivos gregos psychikos e pneumatikos não descrevem a composição material do corpo — como se um fosse físico e o outro não físico. Antes, identificam o poder animador: o corpo presente é animado pela psyche natural, a força vital ordinária que nos sustenta nesta era, mas que é por fim impotente contra a decadência e a morte; o corpo ressurreto será animado pelo pneuma de Deus, o próprio Espírito Santo, que o capacitará e sustentará para uma vida eterna e incorruptível. O "corpo espiritual" não é um corpo feito de espírito; é um corpo real, tangível e material, plenamente energizado pelo Espírito de Deus. O argumento de Paulo culmina em desafio triunfante à visão platônica: "Quando o que é perecível se revestir do que é imperecível, e o que é mortal se revestir do que é imortal, então se cumprirá a palavra que está escrita: 'A morte foi tragada pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?'" (vv. 54–55).
A Unidade Psicossomática da Natureza Humana
A recuperação de uma antropologia bíblica exige que compreendamos que, de acordo com a Escritura, o verdadeiro eu de um ser humano não é a alma em isolamento. Ao contrário, a natureza humana é uma unidade — uma composição de uma dimensão material e visível e de uma dimensão imaterial e invisível.[14] O corpo não é uma aberração nem uma oposição ao plano original de Deus; ele é constitutivo da natureza humana tal como Deus a concebeu, mesmo antes da Queda. Na visão bíblica, uma pessoa sem corpo não é plenamente uma pessoa. A humanidade é completa somente como a união de corpo e alma. Randy Alcorn expressa esse ponto de forma eficaz:
Diferentemente de Deus e dos anjos, que são em essência espíritos (Jo 4.24; Hb 1.14), os seres humanos são por natureza tanto espirituais quanto físicos (Gn 2.7). Deus não criou Adão como um espírito e o colocou dentro de um corpo. Antes, criou primeiro um corpo e depois soprou nele um espírito. Nunca houve um momento em que um ser humano existiu sem um corpo.[15]
Adão tornou-se um ser vivente quando Deus uniu o pó e o sopro — corpo e espírito. Ele não existiu como pessoa humana até que o material e o imaterial fossem unidos. A essência da humanidade, portanto, não é a alma isolada, mas a alma em união com o corpo. O corpo não simplesmente abriga o eu; ele constitui parte integrante do eu.[16] O Dr. Edward Donnelly o expressa de forma sucinta:
O homem não é sua alma. O pó da terra e o sopro de vida foram postos juntos para formar quem somos. Quando Deus enviou Seu Filho para morrer por nós, foi por nossos corpos, mas também por nossas almas. Jesus Cristo veio para redimir não apenas o "sopro de vida", mas também o "pó da terra".[17]
Com efeito, a refutação mais decisiva da depreciação platônica do corpo não é um argumento, mas um evento: a Encarnação. "E o Verbo se fez carne e habitou entre nós" (Jo 1.14). Se o corpo fosse de fato uma prisão ou um túmulo — um obstáculo ao florescimento da alma —, seria inconcebível que o eterno Filho de Deus assumisse um. Contudo, o Filho não apenas tomou um corpo temporariamente; Ele se uniu permanentemente a uma natureza humana, corpo e alma, e retém esse corpo glorificado até hoje à destra do Pai (Lc 24.39; At 1.11; Fp 3.21). A Encarnação é, nesse sentido, a afirmação mais enfática possível da bondade e da dignidade da existência material. Deus não nos resgatou da realidade material; Ele entrou nela, a santificou e um dia a glorificará.
Implicações Escatológicas: A Esperança da Ressurreição Corporal
Nossa doutrina da natureza humana molda nossa escatologia da maneira mais direta. Como Oscar Cullmann observou, o estado ideal para o grego era a separação entre alma e corpo;[18] o estado ideal para o cristão é precisamente o oposto — a reunião de alma e corpo. O propósito último de Deus para o Seu povo não é uma eternidade passada como espíritos desencarnados à deriva em um céu imaterial. A esperança cristã é a ressurreição do corpo, quando nossas constituições corruptíveis serão transformadas em corpos incorruptíveis e glorificados, moldados à semelhança do próprio corpo ressurreto de Cristo. Como A. A. Hodge afirmou com razão, no céu "o homem continuará a existir como sempre, composto de duas naturezas, espiritual e material."[19]
A única ocasião em que alma e corpo se separam é no estado intermediário — o intervalo entre a morte de um crente e a ressurreição futura. Contudo, essa condição não é o ideal; é uma anomalia introduzida pelo pecado. O estado próprio e intencional da pessoa humana é a união de corpo e alma.[20] Por essa razão, o apóstolo Paulo descreve a alma desencarnada no estado intermediário como "nua", ansiando por ser revestida de seu corpo ressurreto (2 Co 5.1–4).[21] Michael Horton explica:
Embora corpo e alma possam ser separados, eles não foram feitos para ser separados, e nossa salvação não será completa até que sejamos corporalmente ressuscitados como pessoas inteiras (Rm 8.23). O estado intermediário não é o estado final. John Murray resume esse consenso: "O homem é corpóreo e, portanto, a maneira escriturística de expressar essa verdade não é que o homem tem um corpo, mas que o homem é corpo... A Escritura não representa a alma ou o espírito do homem como criados primeiro e depois colocados em um corpo... O corpóreo não é um apêndice."[22]
Uma noção popular, mas profundamente equivocada, sustenta que, na eternidade, os redimidos se tornarão anjos. A esperança cristã, porém, não é a transcendência da humanidade, mas a sua restauração. Como Nancy Pearcey argumentou, o plano da redenção não nos chama a nos tornar algo diferente de humanos; ele nos chama a recuperar a verdadeira humanidade para a qual fomos originalmente criados.[23] A vida eterna é a renovação de nossa plena humanidade, não o seu abandono — a glorificação do corpo, não o seu descarte. Peter Kreeft capta isso com característica precisão:
"...nosso espírito precisa de um corpo para a liberdade, para a livre expressão. Uma alma sem corpo é exatamente o oposto do que Platão pensava ser. Não é livre, mas aprisionada. Está em uma forma extrema de paralisia, como uma pessoa paralisada em todos os cinco sentidos ao mesmo tempo. Deus nos deu sentidos para nos ajudar, não para nos impedir. Na medida em que eles nos impedem ou nos prendem, isso é resultado da Queda, não da Criação, e a prisão será removida no Céu."[24]
Jó exultou na confiança de que veria a Deus em seu próprio corpo (Jó 19.26). Essa mesma confiança pertence a todo crente: contemplaremos a Deus não como espíritos desencarnados, nem no corpo de outrem, mas em nossa própria carne glorificada. Nossa esperança é uma redenção realizada no corpo, não uma libertação do corpo.[25]
A Origem Terrena e a Dignidade do Corpo
Edward Welch, apoiando-se em insights da neurociência, afirma o ensinamento bíblico de que os seres humanos foram criados por Deus "como uma unidade de pelo menos duas substâncias: espírito e corpo."[26] A Escritura é inequívoca quanto à origem material e terrena da pessoa humana. Jay Adams escreve:
O homem é terreno, proveniente da terra. O próprio nome "Adão" significa "barro vermelho", enfatizando esse fato. Todas as noções gnósticas de que a criação material seria pecaminosa em si mesma devem, portanto, ser rejeitadas; Deus não apenas declarou a criação material "muito boa", como também formou o homem a partir dela.[27]
A visão platônica da natureza humana pode ser comparada com a visão bíblica no quadro a seguir:
| Visão Platônica da Natureza Humana | Visão Bíblica da Natureza Humana |
|---|---|
| Dualismo | Monismo Composto |
| O Homem é uma Alma | O Homem é composto de Corpo e Alma/Espírito |
| A Matéria é Má | A Matéria é Boa e foi Criada por Deus |
| Reencarnação em Outro Corpo | Ressurreição no Mesmo Corpo |
| O Corpo é uma Prisão / Túmulo | O Corpo é uma Expressão da Alma/Espírito |
| A Alma é Divina | A Alma é Humana |
| A Alma Sempre Existiu | A Alma é Criada |
| O Mundo Físico é um Lugar Estranho para o Homem | O Mundo Físico é um Lugar Ideal para o Homem |
| Redenção da Alma do Mundo Físico | Redenção do Homem e do Mundo Físico |
O Testemunho dos Credos e o Escopo Cósmico da Redenção
A Igreja primitiva não ignorava a pressão que o dualismo platônico e gnóstico exercia sobre a fé cristã. Uma das evidências mais expressivas de sua resistência deliberada está na linguagem dos credos ecumênicos. O Credo dos Apóstolos, em sua forma latina mais antiga, confessa carnis resurrectionem — "a ressurreição da carne" — uma expressão quase provocatoriamente material em sua insistência. O Credo Niceno afirma que "esperamos a ressurreição dos mortos e a vida do século vindouro." Essas não são cláusulas acidentais; estão no clímax de cada credo, formando o próprio coroamento da confissão cristã. A Igreja incorporou a ressurreição corporal nos resumos mais elementares da fé precisamente porque as tendências gnósticas e platônicas ameaçavam dissolvê-la. Cada vez que a Igreja recita essas palavras, ela repudia a ideia de que a salvação consiste na fuga da alma para longe da matéria.
Além disso, a esperança bíblica vai além do corpo individual e abrange toda a criação material. O apóstolo Paulo declara que "a própria criação será libertada da escravidão da corrupção e participará da gloriosa liberdade dos filhos de Deus" (Romanos 8:21, NVI). Toda a ordem criada — não apenas as almas humanas — geme sob a maldição e aguarda a libertação (Romanos 8:19–23). Essa libertação está inseparavelmente ligada à ressurreição dos crentes: a redenção da criação e a nossa redenção corporal são duas dimensões de um único evento escatológico. O livro do Apocalipse leva essa visão cósmica à sua consumação: "Vi um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra tinham passado... Aquele que estava assentado no trono disse: 'Estou fazendo tudo novo!'" (Apocalipse 21:1, 5, NVI). O propósito de Deus não é resgatar almas de um mundo material descartável, mas renovar os céus e a terra, enchê-los de seres humanos ressuscitados e encarnados que reinarão com Cristo numa criação física glorificada. A visão platônica termina com a fuga da alma para longe da matéria; a visão bíblica termina com a transfiguração da própria matéria.
O Testemunho dos Teólogos
O consenso da teologia cristã ao longo dos séculos reforça essa visão bíblica da pessoa humana integral. Um levantamento de vozes representativas demonstra com que firmeza a tradição sustentou a unidade psicossomática da natureza humana e a esperança da ressurreição corporal.
John MacArthur escreve: "Deus criou o ser humano como corpo e alma — somos compostos de um homem interior e um homem exterior (Gn 2.7). Por isso, nossa perfeição definitiva exige que tanto o corpo quanto a alma sejam renovados. Até mesmo a criação de um novo céu e de uma nova terra exige que tenhamos corpos — uma terra real requer que seus habitantes possuam corpos reais."[28]
Harry Shields e Gary Bredfeldt aprofundam o mesmo ponto: "Homens e mulheres foram criados desde o princípio para ser, simultaneamente, materiais e imateriais. Os seres humanos não foram criados como espíritos desencarnados à procura de corpos físicos para habitar, nem eram simplesmente seres materiais. É desígnio de Deus que os humanos possuam essa unidade do material e do imaterial. Sim, por um período estaremos 'ausentes do corpo e em casa com o Senhor' (2 Co 5.8). Mas não é um mero fato curioso que um dia receberemos novos corpos — corpos glorificados, transformados e ressuscitados, que teremos pela eternidade (Fp 3.20–21; 1 Ts 4.16–17). E por quê? Porque o corpo é um componente essencial daquilo que Deus criou e denominamos 'ser humano'. Deus não se esqueceu disso e reunirá corpo e espírito num composto imortal, inseparável e glorificado, que é o ser humano redimido."[29]
J. P. Moreland e William Lane Craig confirmam que "…ao longo da história da Igreja, a grande maioria dos pensadores cristãos compreendeu corretamente que as Escrituras ensinam o seguinte: (1) Os seres humanos exibem uma unidade funcional holística. (2) Embora sejam uma unidade funcional, os humanos constituem, ainda assim, uma dualidade de alma/espírito imaterial e corpo material…"[30]
Sam Storms expõe a distorção com clareza: "A imagem popular de um cristão amorfo flutuando numa névoa espiritual etérea, movendo-se de uma nuvem nos céus a outra, deve mais à filosofia dualista grega do que ao texto bíblico. O povo de Deus passará a eternidade num corpo — um corpo glorificado e ressuscitado, é verdade, mas nem por isso menos físico ou material por natureza."[31]
E Erwin Lutzer amarra os fios da questão: "A doutrina neotestamentária da ressurreição é uma afirmação de que somos uma unidade espiritual e física, e de que Deus pretende nos reunir novamente. Embora a alma seja separável do corpo, tal separação é apenas temporária. Para que vivamos para sempre, devemos ser reunidos como seres humanos completos — corpo, alma e espírito."[32]
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Oscar Cullmann. Immortality of the Soul or Resurrection of the Dead? Pg 16. ↑
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Swindoll, C. R., & Zuck, R. B. Understanding Christian theology. Pg 690 ↑
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Oscar Cullmann. Immortality of the Soul or Resurrection of the Dead? Pg 8. ↑
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Oscar Cullmann. Immortality of the Soul or Resurrection of the Dead? Pg 9. Also see: Georges Florovsky. Creation and Redemption. Pg 221 ↑
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Welch, Edward T. Blame it on the Brain. Pg 39 ↑
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Alister E. McGrath. Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica. Pg 643 ↑
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Stanley J. Grenz. Theology for the Community of God (Kindle Locations 2472-2475). ↑
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Robert Culver. Systematic Theology: Biblical and Historical. Pg 1061 ↑
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Oscar Cullmann. Immortality of the Soul or Resurrection of the Dead? Pg 14. ↑
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MacArthur, J. The glory of heaven: The truth about heaven, angels, and eternal life. Pg. 129 ↑
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Moreland, James Porter; William Lane Craig. Philosophical Foundations for a Christian Worldview. Pg 228 ↑
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Sam Storms. The Restoration of All Things. Pg 12 ↑
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Lutzer, E. W. One minute after you die: A preview of your final destination. Pg 72 ↑
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Autor
Leonardo A. Costa
Pesquisador e escritor que explora o dispensacionalismo a partir de uma perspectiva progressiva, com profundo apreço pelo legado dessa tradição.
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