O Dispensacionalismo Progressivo foi frequentemente descrito e representado por características secundárias — muitas das quais nem sequer são compartilhadas por todos os seus autores, como a questão de Cristo estar sentado no trono de Davi. A hermenêutica complementar e Jesus no trono de Davi são características secundárias que não representam o núcleo do sistema, tampouco são compartilhadas por todos os seus defensores. Qual é, então, a verdadeira essência do Dispensacionalismo? A seguir, de forma tão simples quanto possível, apresento o que acredito ser sua essência real e a melhor definição que posso oferecer.
O Que É Realmente o Dispensacionalismo Progressivo?
O Dispensacionalismo Progressivo é um sistema teológico que compreende a narrativa bíblica como centrada em um plano original (Reino/Paraíso), que era bom, mas foi perturbado pela Queda. A história subsequente é entendida como um processo ou programa de restauração desse Reino — ou plano original — por meio de uma redenção holística. Primeiro, esse programa é anunciado e ratificado por meio de pactos — o período do anúncio. Em seguida, com a vinda e a morte do Messias, o programa anunciado é posto em movimento, com seu cumprimento se desdobrando progressivamente em três fases distintas: a dispensação atual, o milênio e o estado eterno. Em cada fase, o cumprimento avança em intensidade — daí o termo "progressivo" para descrever o sistema. O termo "dispensacionalismo" é utilizado porque o sistema sustenta o cumprimento literal das promessas diretas feitas a Israel.
Por "plano original do Reino", refiro-me à própria criação em seu estado original, antes da Queda — aquela criação original na qual havia harmonia entre o homem e Deus e entre o homem e a natureza, e sobre a qual Deus declarou ser muito boa (Gênesis 1.31). Esse plano original está registrado em Gênesis 1–2, os dois primeiros capítulos da Bíblia, e é retomado em Apocalipse 21–22, os dois últimos capítulos da Bíblia. Entre esses dois momentos está o plano da redenção. Redenção pressupõe algo que se perdeu, algo corrompido e, portanto, algo que precisa ser redimido. Em Apocalipse 21–22, a redenção está completa e o Paraíso é restaurado — o Reino plenamente implementado, agora não apenas muito bom, mas também perfeito, sem a possibilidade de jamais ser corrompido novamente.
Por Que o Termo "Progressivo"?
O termo "progressivo", contudo, carrega um significado mais específico, sobretudo em relação à dispensação presente. Muitos dispensacionalistas entendem a dispensação atual como um intervalo, uma intercalação ou um parêntese no plano de Deus. Nessa perspectiva, a Igreja tem pouca ou nenhuma relação com o plano do Antigo Testamento prometido por meio dos pactos. A Igreja teria um plano separado, paralelo ao plano pactual do Antigo Testamento. O Dispensacionalismo Progressivo surge precisamente por enxergar a era presente não como uma intercalação ou intervalo, mas como uma progressão do plano pactual de Deus. Assim, a Igreja, unida a Cristo, é vista como participante dos "pactos da promessa" (Ef 2.12), como herdeira e co-herdeira da promessa (Ef 3.6) — ou seja, não como pertencente a um plano separado ao lado do programa pactual do Antigo Testamento, mas como integrada a esse mesmo plano mediante a união com o Messias.
A metáfora de Paulo em Romanos 11 faz o mesmo ponto por outro ângulo. Ser enxertado na oliveira, cuja raiz é Abraão ou o Pacto Abraâmico, não significa ser inserido em uma segunda árvore, um povo paralelo ou um programa redentor sem relação com o anterior. Significa ser inserido no plano pactual já existente que vem do próprio Antigo Testamento e, portanto, participar da seiva, do alimento e das bênçãos que fluem dessa raiz abraâmica. Nesse sentido, o ingresso dos gentios em Cristo não sinaliza uma suspensão do plano pactual, mas uma progressão dentro dele. Por isso, a era presente deve ser vista, num sentido real, como cumprimento inicial e expansão desse plano pactual do Antigo Testamento, e não como uma intercalação externa a ele.
De modo geral, os apóstolos nunca tratam o que acontece na era presente como totalmente desconectado do Antigo Testamento. É claro que houve alguma descontinuidade, mas não uma descontinuidade total. Eles citam consistentemente o AT para explicar o que está acontecendo — o que seria estranho se a era atual fosse uma intercalação sem relação com aquele programa. Em Atos 2.16–21, Pedro no Pentecostes cita Joel 2 e diz "isto é o que foi falado pelo profeta Joel", conectando diretamente o evento presente ao programa profético do AT — o que significa que, de alguma forma, a própria Igreja nasce no contexto do cumprimento do Antigo Testamento. Em Hebreus 8, o autor cita Jeremias 31 (a nova aliança) e a aplica à era presente, demonstrando continuidade dentro do plano pactual. Em Gálatas 3.14, 29, Paulo afirma explicitamente que em Cristo os gentios recebem "a bênção de Abraão" e são "descendência de Abraão, herdeiros segundo a promessa" (Gn 12.3).
Portanto, o testemunho do Novo Testamento não é que a Igreja substitui Israel no plano de Deus, tampouco que a Igreja recebe um plano separado e paralelo, desvinculado do plano de Israel — um terreno e o outro celestial, como muitos dispensacionalistas tradicionais têm ensinado. O movimento que o NT apresenta é precisamente este: gentios na Igreja sendo integrados ao mesmo plano pactual do Antigo Testamento. É simples assim — e isso é o Dispensacionalismo Progressivo.
Acredito que Vlach de fato capturou a essência do Dispensacionalismo Progressivo. Após afirmar que o DP mantém as crenças centrais do dispensacionalismo, ele descreve a ênfase real do DP em dois pontos:
O dispensacionalismo progressivo sustenta as crenças centrais do dispensacionalismo conforme encontradas nas listas de Ryrie e Feinberg acima. Mas há certas ênfases dignas de nota. Primeiro, o DP traça os atos de Deus na história principalmente a partir do desdobramento dos pactos bíblicos na história, e menos com base nas sete dispensações tradicionais. Muitos dispensacionalistas progressivos creem nas dispensações tradicionais do dispensacionalismo, mas preferem concentrar-se mais nos pactos bíblicos e nas implicações das duas vindas de Jesus para acompanhar os atos de Deus na história.
Segundo, o DP crê que a Igreja desta era experimenta cumprimentos parciais e realizados dos pactos Abraâmico, Davídico e da Nova Aliança. Esses pactos foram feitos com Israel e serão cumpridos em todas as suas dimensões com Israel, mas como também tinham o propósito de abençoar os gentios algum dia (cf. Gn 12.3; 2Sm 7.19; Is 52.15), é correto afirmar que a Igreja experimenta as bênçãos espirituais dos pactos da promessa. Assim, o DP usa o termo "cumprir" para descrever o que Deus está fazendo com a Igreja em relação aos pactos. Esse cumprimento envolve a vinda de Jesus e as bênçãos espirituais associadas aos pactos. Ainda assim, o cumprimento das promessas físicas e nacionais, incluindo as relacionadas a Israel como nação, aguarda o retorno de Jesus. (Michael J. Vlach, "Progressive Dispensationalism" em JBTS Vol. 9)
Um Gráfico Proposto para o Dispensacionalismo Progressivo
Agora que propus minha definição do sistema, gostaria também de sugerir um gráfico para ele. Vale reconhecer desde já que o Dispensacionalismo Tradicional, quando se trata de gráficos, é amplamente superior ao Dispensacionalismo Progressivo. Esta é uma das áreas em que o DP claramente precisa melhorar.

FreeRequest: Matthew 24:4–31 — Chronology in Dispensationalism
The chronological view of more than 60 dispensational authors on Matthew 24 — request it by email below.
Enter your email and we will send the PDF as an attachment. See our privacy policy.
Perguntas Frequentes
Qual é a verdadeira essência do Dispensacionalismo Progressivo?
Por que é chamado de Dispensacionalismo Progressivo?
Como o Dispensacionalismo Progressivo vê a Igreja em relação ao plano pactual do Antigo Testamento?
Autor
Leonardo A. Costa
Pesquisador e escritor que explora o dispensacionalismo a partir de uma perspectiva progressiva, com profundo apreço pelo legado dessa tradição.
Artigos Relacionados
Dispensacionalismo Tradicional e Teologia da Substituição: Uma Convergência Inesperada
O Dispensacionalismo Tradicional e a teologia da substituição percorrem caminhos diferentes, mas chegam ao mesmo destino prático — a despossessão de Israel de sua herança pactual. Na formulação de Ryrie, o abismo se estreita ainda mais, restringindo as promessas aos judeus étnicos que vivem em corpos não glorificados durante o reino milenial. O Dispensacionalismo Progressivo recupera a herança plena para todo Israel.
O Dispensacionalismo Progressivo e o Povo de Deus
Um argumento do Dispensacionalismo Progressivo de que o povo de Deus é uma categoria pactual — e não uma simples contagem de um ou dois povos —, preservando tanto a unidade quanto a distinção entre Israel e a Igreja.
Dispensacionalismo Progressivo: Reforma, Não Ruptura
O Dispensacionalismo Progressivo não é uma rejeição do sistema tradicional, mas uma reforma burkiana de dentro — preservando seus avanços enquanto corrige o que precisava ser corrigido.
Dispensacionalismo Tradicional vs. Dispensacionalismo Progressivo: Uma Comparação
Uma tabela comparativa concisa que mostra como as tendências do Dispensacionalismo Tradicional e as principais vozes do Dispensacionalismo Progressivo divergem quanto ao Reino, ao Pacto Davídico, à Igreja e ao adiamento.