Dispensacionalismo Tradicional vs. Dispensacionalismo Progressivo: Uma Comparação

Uma tabela destacando as divergências internas dentro do Dispensacionalismo Progressivo

DispensacionalismoLeonardo A. Costa8 min de leitura

Este artigo é um resumo do capítulo de abertura do meu próximo livro sobre o Dispensacionalismo Progressivo.

Este quadro comparativo cumpre um papel indispensável na literatura dispensacionalista. Já passou da hora de os críticos do Dispensacionalismo Progressivo superarem as generalizações grosseiras, as distorções e as caricaturas da posição. O quadro deixa absolutamente claro que nem todo adepto do DP afirma que Jesus senta literalmente no trono davídico, nem todo DP adota a hermenêutica complementar, e nem todo DP sustenta que o Reino Davídico foi inaugurado.

Alguns pontos devem ser considerados desde o início:

  • Não confundam a inauguração do Pacto Davídico com a inauguração do Reino Davídico: alguns dispensacionalistas progressivos afirmam que o Pacto Davídico já foi inaugurado (Vlach e Saucy) e, ao mesmo tempo, negam que o reino em si tenha sido inaugurado. Essa distinção raramente recebe a atenção que merece.
  • Apenas Darrell Bock, entre os autores representados aqui, afirma que Cristo está literalmente assentado no trono de Davi.
  • Robert Saucy defende que Jesus já está no trono de Davi; contudo, ele interpreta isso metaforicamente — como a recepção da autoridade real —, e não como a sessão literal de Cristo no futuro trono davídico.
  • Nem todo dispensacionalista progressivo afirma que Jesus já reina. Michael Vlach e Robert Saucy negam que Cristo esteja presentemente reinando no Reino Davídico.
  • Tanto Michael Vlach quanto Robert Saucy afirmam o adiamento do reino.
  • A coluna "Tendência do Dispensacionalismo Tradicional" representa uma tendência geral, e não um único autor. Por isso, é intencionalmente generalizante — a tabela já está suficientemente densa para comportar a representação separada de múltiplos autores do Dispensacionalismo Tradicional.

Quadro Comparativo

QuestãoTendência do Dispensacionalismo TradicionalVlach & SaucyLeo CostaBlaising & Bock
Pacto Davídico inauguradoNãoSimSimSim
A Nova Aliança foi inicialmente inaugurada?Não, mas muitos afirmam que já experimentamos algumas de suas bênçãosSimSimSim
O reino em si foi inaugurado?NãoNãoSim, parcialmente inauguradoSim
O reino foi adiado?Sim, totalmenteSimSim, parcialmente adiadoNão
As bênçãos do reino estão presentes?NãoVlach: Não
Saucy: Sim
SimSim
Jesus está reinando?NãoNãoSimSim
Jesus está literalmente no trono davídico?NãoVlach: Não
Saucy: Não (apenas metaforicamente)
NãoBlaising: Não
Bock: Sim
Hermenêutica complementarNãoVlach: Não
Saucy: Sim
Hermenêutica Complementar RevisadaSim
A Igreja como mistérioSim, não revelada no AT e sem relação com o ATVlach: Sim, não revelada no AT
Saucy: Não realizada no AT
Sim, não revelada no AT, mas relacionada ao ATNão realizada no AT
O batismo do Espírito é exclusivo desta dispensação?SimNãoNãoNão
A Igreja é um parêntese no plano de Deus?SimVlach: Sim
Saucy: Não
É um parêntese apenas no programa de Israel (Dn 9), não no plano geral de DeusNão
A Igreja é a comunidade escatológica inicial?NãoSimSimSim
Um único povo de Deus com distinções internas?NãoSimSimSim
Israel e a Igreja têm destinos distintos: terreno para Israel e celestial para a Igreja?Sim (como tendência)NãoNãoNão
O futuro da Igreja está separado das promessas do AT?Sim (como tendência)NãoNãoNão
Arrebatamento pré-tribulacionalSimSimSimSim
Interpretação futurista do ApocalipseSimSimSimSim
Israel possui promessas distintas e únicas, e um papel futuro específicoSimSimSimSim

Pacto Davídico inaugurado

Tendência do DT
Não
Vlach & Saucy
Sim
Leo Costa
Sim
Blaising & Bock
Sim

A Nova Aliança foi inicialmente inaugurada?

Tendência do DT
Não, mas muitos afirmam que já experimentamos algumas de suas bênçãos
Vlach & Saucy
Sim
Leo Costa
Sim
Blaising & Bock
Sim

O reino em si foi inaugurado?

Tendência do DT
Não
Vlach & Saucy
Não
Leo Costa
Sim, parcialmente inaugurado
Blaising & Bock
Sim

O reino foi adiado?

Tendência do DT
Sim, totalmente
Vlach & Saucy
Sim
Leo Costa
Sim, parcialmente adiado
Blaising & Bock
Não

As bênçãos do reino estão presentes?

Tendência do DT
Não
Vlach & Saucy
Vlach: Não
Saucy: Sim
Leo Costa
Sim
Blaising & Bock
Sim

Jesus está reinando?

Tendência do DT
Não
Vlach & Saucy
Não
Leo Costa
Sim
Blaising & Bock
Sim

Jesus está literalmente no trono davídico?

Tendência do DT
Não
Vlach & Saucy
Vlach: Não
Saucy: Não (apenas metaforicamente)
Leo Costa
Não
Blaising & Bock
Blaising: Não
Bock: Sim

Hermenêutica complementar

Tendência do DT
Não
Vlach & Saucy
Vlach: Não
Saucy: Sim
Blaising & Bock
Sim

A Igreja como mistério

Tendência do DT
Sim, não revelada no AT e sem relação com o AT
Vlach & Saucy
Vlach: Sim, não revelada no AT
Saucy: Não realizada no AT
Leo Costa
Sim, não revelada no AT, mas relacionada ao AT
Blaising & Bock
Não realizada no AT

O batismo do Espírito é exclusivo desta dispensação?

Tendência do DT
Sim
Vlach & Saucy
Não
Leo Costa
Não
Blaising & Bock
Não

A Igreja é um parêntese no plano de Deus?

Tendência do DT
Sim
Vlach & Saucy
Vlach: Sim
Saucy: Não
Leo Costa
É um parêntese apenas no programa de Israel (Dn 9), não no plano geral de Deus
Blaising & Bock
Não

A Igreja é a comunidade escatológica inicial?

Tendência do DT
Não
Vlach & Saucy
Sim
Leo Costa
Sim
Blaising & Bock
Sim

Um único povo de Deus com distinções internas?

Tendência do DT
Não
Vlach & Saucy
Sim
Leo Costa
Sim
Blaising & Bock
Sim

Israel e a Igreja têm destinos distintos: terreno para Israel e celestial para a Igreja?

Tendência do DT
Sim (como tendência)
Vlach & Saucy
Não
Leo Costa
Não
Blaising & Bock
Não

O futuro da Igreja está separado das promessas do AT?

Tendência do DT
Sim (como tendência)
Vlach & Saucy
Não
Leo Costa
Não
Blaising & Bock
Não

Arrebatamento pré-tribulacional

Tendência do DT
Sim
Vlach & Saucy
Sim
Leo Costa
Sim
Blaising & Bock
Sim

Interpretação futurista do Apocalipse

Tendência do DT
Sim
Vlach & Saucy
Sim
Leo Costa
Sim
Blaising & Bock
Sim

Israel possui promessas distintas e únicas, e um papel futuro específico

Tendência do DT
Sim
Vlach & Saucy
Sim
Leo Costa
Sim
Blaising & Bock
Sim

A esmagadora maioria dos críticos do DP se expõe ao ridículo com generalizações que não passam de caricatura grosseira do sistema. E essas distorções não aparecem apenas em conversas informais ou em grupos do Facebook dos quais faço parte — elas estão presentes na literatura acadêmica, em artigos publicados nos principais periódicos teológicos.

É notável que, até hoje, ninguém tenha se dado ao trabalho de mapear as diferenças internas dentro do Dispensacionalismo Progressivo. Em vez disso, tudo é agrupado sob um rótulo caricato que reflete, na melhor das hipóteses, um ou dois autores, ignorando vários outros — entre eles Saucy, um dos próprios fundadores do sistema. Minha esperança é que este quadro ajude até mesmo os dispensacionalistas tradicionais a criticar o sistema com base em seus méritos reais — e que, quando determinada posição pertencer a um autor específico, ela seja tratada como tal, em vez de ser projetada sobre o sistema inteiro. Só isso já seria um avanço significativo.

Com base no quadro acima, o que considero ser a verdadeira essência do Dispensacionalismo Progressivo — o terreno comum partilhado por todos os seus autores — pode ser formulado da seguinte forma: o Dispensacionalismo Progressivo sustenta que a presente dispensação não é uma intercalação no programa pactual de Deus, mas uma fase orgânica dele, na qual os Pactos Davídico e a Nova Aliança foram inicialmente inaugurados, a Igreja participa dessas promessas pactual como a comunidade escatológica inicial, e Israel conserva seu papel futuro distinto dentro de um único povo de Deus. Esse é o núcleo do sistema, e é isso que deveria ser criticado quando alguém se propõe a criticar o Dispensacionalismo Progressivo como um todo. Quem deseja criticar elementos específicos — como a hermenêutica complementar ou a sessão presente de Cristo no trono davídico — deve dirigir sua crítica aos autores particulares que sustentam essas posições, e não ao sistema em si.

Acredito que Vlach de fato capturou a essência do Dispensacionalismo Progressivo. Após afirmar que o DP adere às crenças centrais do dispensacionalismo, ele descreve o verdadeiro ênfase do DP em dois pontos:

O Dispensacionalismo Progressivo adere às crenças centrais do dispensacionalismo encontradas nas listas de Ryrie e Feinberg acima. Mas há certas ênfases dignas de nota. Primeiro, o DP traça as ações de Deus na história principalmente a partir do desdobramento dos pactos bíblicos na história, e menos a partir das tradicionais sete dispensações. Muitos dispensacionalistas progressivos creem nas dispensações tradicionais do dispensacionalismo, mas optam por concentrar-se mais nos pactos bíblicos e nas implicações das duas vindas de Jesus para compreender as ações de Deus na história.
Segundo, o DP crê que a Igreja desta era experimenta cumprimentos parciais e realizados dos pactos Abraâmico, Davídico e da Nova Aliança. Esses pactos foram estabelecidos com Israel e serão cumpridos em todas as suas dimensões com Israel, mas como eles também tinham a intenção de abençoar os gentios algum dia (cf. Gn 12:3; 2 Sm 7:19; Is 52:15), é correto ver a Igreja como experimentando as bênçãos espirituais dos pactos da promessa. Assim, o DP utiliza o termo "cumprir" para descrever o que Deus está fazendo com a Igreja em relação aos pactos. Esse cumprimento envolve a vinda de Jesus e as bênçãos espirituais associadas aos pactos. Contudo, o cumprimento das promessas físicas e nacionais, incluindo aquelas relacionadas ao Israel nacional, aguarda o retorno de Jesus. (Michael J. Vlach, "Progressive Dispensationalism" em JBTS Vol. 9)

Para ilustrar o ponto: criticar o Dispensacionalismo Progressivo com base em elementos que não são constitutivos do sistema e não são sustentados por todos os seus autores é como criticar o Dispensacionalismo Tradicional por ensinar a existência de dois novos pactos distintos — um estabelecido com Israel e outro com a Igreja. Embora Chafer, e inicialmente Walvoord e Ryrie, tenham de fato ensinado isso, e embora sejam autores inegavelmente importantes dentro da tradição, a visão dos dois novos pactos não é uma característica definidora do Dispensacionalismo Tradicional como sistema e não representa todos os seus defensores. O mesmo princípio se aplica na direção inversa.

O dispensacionalismo como um todo há muito sofre com distorções e desinformação — acusações de ensinar dois caminhos de salvação, entre tantas outras. O Dispensacionalismo Progressivo agora sofre exatamente o mesmo tratamento, só que desta vez as distorções vêm de dentro da própria família dispensacionalista. É profundamente irônico: o mesmo tipo de deturpação que os dispensacionalistas tradicionais justificadamente denunciaram por décadas está sendo perpetuado por eles contra um sistema irmão.

Deve-se enfatizar mais uma vez: a inauguração inicial do Pacto Davídico não implica que todos os dispensacionalistas progressivos afirmem uma inauguração inicial do Reino Davídico. Como o quadro acima demonstra, Vlach e Saucy sustentam que o Pacto Davídico foi inaugurado por meio da ressurreição e exaltação do Messias, que recebeu toda autoridade, ao mesmo tempo em que negam que o Reino Davídico em si tenha sido inaugurado ou que Cristo esteja presentemente reinando nele. Trata-se de duas afirmações distintas, e confundi-las é um dos erros mais recorrentes entre os críticos do sistema.

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Autor

Leonardo A. Costa

Pesquisador e escritor que explora o dispensacionalismo a partir de uma perspectiva progressiva, com profunda apreciação pelo legado da tradição.

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