Hermenêutica Complementar Revisada: Uma Proposta para o Dispensacionalismo Progressivo

Localizando a complementação na promessa e no referente — mantendo fixo o sentido de cada texto

DispensacionalismoLeonardo A. Costa31 min de leitura

1. A Contribuição da Hermenêutica Complementar de Bock

A Hermenêutica Complementar (HC) proposta por Darrell Bock representa uma contribuição importante dentro do Dispensacionalismo Progressivo. Embora nem todos os dispensacionalistas progressivos a adotem — Vlach, por exemplo, não faz uso da HC —, ela, a meu ver, corrige dois extremos: de um lado, o Dispensacionalismo Tradicional, que tende a manter Antigo e Novo Testamento em compartimentos tão separados que a continuidade do plano de Deus fica obscurecida; do outro, a teologia da substituição, que anula as promessas feitas a Israel ao transferi-las integralmente para a Igreja.

O grande insight de Bock foi demonstrar que o Novo Testamento não substitui o Antigo — ele se posiciona ao seu lado. A revelação posterior complementa as promessas anteriores. A Igreja não substitui Israel no plano eterno de Deus. Essa perspectiva preserva a integridade das promessas do Antigo Testamento ao mesmo tempo que reconhece a genuína novidade do que Cristo inaugurou. Trata-se de uma contribuição de valor imenso, e este artigo se apoia nesse trabalho.

Há, contudo, um ponto em que acredito que a HC poderia ser aperfeiçoada — e é nessa direção que vai a proposta a seguir. O que apresento aqui não é uma rejeição da Hermenêutica Complementar, mas um ajuste que, a meu ver, fortalece a própria HC ao torná-la mais precisa. É uma variação — um refinamento em um único ponto. A substância da HC permanece intacta. A HCR deve ser lida como uma tentativa de preservar, com maior disciplina terminológica, o próprio compromisso de Bock com o sentido original, a intenção autoral e o significado estável.

2. Uma Questão de Refinamento: Onde Exatamente Opera a Complementação?

A questão que motiva este artigo surge de dentro da própria Hermenêutica Complementar, quando a levamos a sério ao lado da hermenêutica literal-gramatical-histórica.

Considere estas duas afirmações de Bock. A primeira:

"O novo ensino desenvolve a promessa ao se posicionar ao lado da promessa antiga, exceto nos casos em que se diz explicitamente que a promessa antiga foi revogada. Essa é a natureza complementar da promessa. A Igreja não substitui Israel no plano eterno de Deus." (Darrell Bock, Current Messianic Activity and OT Davidic Promise)

Com essa afirmação, minha concordância é total. A promessa ao longo da revelação é progressivamente complementada. O conteúdo dos pactos também é complementado e avança. A nova revelação se posiciona ao lado da antiga — não acima dela, não no lugar dela.

Agora considere esta outra afirmação:

"Essas leituras complementares não introduzem instabilidade na interpretação porque o significado jamais se perde; ele apenas se aprofunda e se enriquece." (Darrell Bock, Three Central Issues)

Aqui surge a tensão. Quando Bock diz que o significado se "aprofunda e se enriquece", o que exatamente está sendo aprofundado? O significado do próprio texto? Ou o elemento ao qual o texto aponta?

A questão pode parecer sutil, mas tem implicações importantes — e muitos teólogos não perceberam essa diferença crucial. Se é o significado do texto que se aprofunda, então o próprio sentido é complementado: embora nada seja subtraído do sentido original, algo lhe é acrescentado. Se, por outro lado, o que se aprofunda e se complementa é a promessa como entidade distinta do texto, então o significado de cada texto permanece intacto, e a progressão ocorre no nível da promessa, não do texto.

E esse é precisamente o ponto no coração da Hermenêutica Complementar que poderia se beneficiar de maior precisão. Nos próprios escritos de Bock, a complementação é às vezes situada no nível do referente — a promessa, o pacto, a entidade real à qual o texto aponta — e aí a HCR concorda plenamente. Mas outras vezes ela é situada no nível do sentido — o significado do próprio texto —, com Bock falando de significado que se "aprofunda", "enriquece" ou "expande". Os dois níveis não são intercambiáveis. O fato de que esses dois níveis nem sempre são explicitamente distinguidos na formulação da HC é o que cria a ambiguidade que a HCR busca esclarecer. As categorias são do próprio Bock; a HCR simplesmente propõe maior consistência na sua aplicação.

A questão não é se há complementação. Há — sobre isso o acordo é pleno. A questão é onde ela opera. E o coração deste artigo é mostrar que precisamos distinguir cuidadosamente o significado de um texto do elemento ao qual ele aponta — uma promessa, um pacto, um tema teológico. A meu ver, essa ambiguidade — que se manifesta no trânsito entre sentido e referente — pode levar a formulações menos precisas do que deveriam ser.

3. A Tese: Hermenêutica Complementar Revisada

A proposta que denomino Hermenêutica Complementar Revisada (HCR) pode ser resumida da seguinte forma:

Hermenêutica Complementar (HC)A promessa avança mediante a revelação posterior que complementa a revelação anterior. Contudo, a HC nem sempre distingue onde opera a complementação, situando-a ora no nível do referente (a promessa, o pacto), ora no nível do sentido (o significado do próprio texto).
Hermenêutica Complementar Revisada (HCR)A promessa avança porque o elemento ao qual os textos apontam — promessa, pacto, tema — é complementado pela revelação posterior. A complementação opera de forma consistente e exclusiva no nível do referente, nunca no nível do sentido do texto. Cada texto retém seu significado original intacto.

Dito de forma concisa: a HCR sustenta que a complementação opera no nível do elemento teológico ao qual o texto aponta (promessa, pacto, tema), nunca no nível do significado literal-gramatical-histórico do texto individual. O significado de cada texto é fixo; o que avança é o elemento revelado pelo conjunto dos textos.

E é precisamente por isso que a leitura canônica — a leitura que considera o todo da revelação bíblica — é tão importante. Ela não é dispensável; é essencial. Mas o que a leitura canônica faz é lançar luz e maior compreensão sobre os elementos aos quais os textos apontam, não alterar o significado dos textos em si. Quando leio Jeremias 31 à luz de Efésios 2, minha compreensão da Nova Aliança se enriquece — mas o significado de Jeremias 31 permanece o mesmo. A leitura canônica complementa minha compreensão do assunto em questão, não o significado dos textos que o revelam.

4. Interagindo com Bock: Concordância e Refinamento Proposto

Um dos pontos fortes da HCR é que ela não se posiciona contra a obra de Bock — ela se posiciona dentro dela, buscando maior precisão. Para deixar isso claro, vale examinar uma série de afirmações do próprio Bock. E aqui o padrão que este artigo busca esclarecer fica visível diretamente nas próprias palavras de Bock: quando ele situa a complementação no nível do referente — a promessa, o pacto, a entidade teológica —, a HCR concorda plenamente. Quando a situa no nível do sentido — o significado do texto —, a HCR introduz seu ajuste. O trânsito entre esses dois níveis é o ponto preciso que a HCR busca esclarecer.

Onde a HCR Concorda Plenamente — Complementação no Nível do Referente

A concordância entre a HCR e Bock é ampla e substancial. Em cada uma das afirmações a seguir, observe que Bock localiza a complementação no nível da promessa, do pacto ou do programa teológico — isto é, no nível do referente, não do sentido de qualquer texto individual.

Bock escreve:

"O que é único na presente articulação da tensão 'já / ainda não' é uma hermenêutica complementar que insiste em que o cumprimento no NT não ressignifica o sentido do AT. Em outras palavras, tanto a promessa do AT quanto sua conexão no NT devem ser estudadas em seus próprios contextos antes que os dois Testamentos sejam relacionados entre si. O novo ensino desenvolve a promessa ao se posicionar ao lado da promessa antiga, exceto nos casos em que se diz explicitamente que a promessa antiga foi revogada." (Current Messianic Activity)

A HCR diz amém. O cumprimento no NT não ressignifica o sentido do AT. Cada Testamento deve ser estudado em seu próprio contexto. O novo ensino se posiciona ao lado, não no lugar do antigo. É precisamente isso que a HCR busca preservar.

Bock também afirma:

"Uma promessa do AT feita a um destinatário específico deve beneficiar esse destinatário, mesmo que a promessa seja posteriormente expandida para incluir outros." (Current Messianic Activity)

Novamente, concordância plena. A expansão não anula o destinatário original. O filho mais velho ainda recebe o que lhe foi prometido, mesmo quando o filho mais novo é incluído.

Sobre a Nova Aliança especificamente, Bock declara:

"Por exemplo, a nova aliança é expandida para incluir os gentios, embora originalmente tenha sido dada a Israel." (Current Messianic Activity)

A HCR concorda inteiramente. A Nova Aliança é expandida. Mas observe: o que é expandido é o pacto — a entidade teológica —, não o significado de Jeremias 31.

Comentando Mateus 13.52, Bock escreve:

"A revelação do Reino por Jesus como mistério complementa o ensino do AT sobre o Reino. Acrescenta algo a ele como parte do mesmo programa... contém tanto elementos antigos quanto novos." (Current Messianic Activity)

A HCR concorda. O "novo e o antigo" não significa que o antigo muda de sentido. O crescimento ocorre no programa, na promessa, no tema — não no sentido histórico de cada texto individual.

Bock afirma ainda:

"A promessa é inerentemente orientada para o futuro; e como tal, ela lança as bases para a expansão sem exigir que todos os elementos da realização da promessa estejam presentes explicitamente desde o início. O progresso e a expansão podem emergir à medida que mais peças da promessa são reunidas em um todo unificado, ou à medida que mais de seus elementos são revelados." (Current Messianic Activity)

Essa afirmação sustenta diretamente a tese da HCR. A promessa é inerentemente aberta à expansão — mas é a promessa que se expande, não o significado dos textos que a revelam. O próprio Bock fala em "peças da promessa" sendo "reunidas". As "peças" são os textos individuais, cada um com seu sentido fixo. A promessa é o "todo unificado" produzido pelo conjunto desses textos.

E finalmente:

"A isso chamamos de 'hermenêutica complementar', pois o que o NT revela complementa e completa o que o AT revela sem perder o que foi originalmente declarado, desde que a expressão do AT ainda seja afirmada por declaração explícita no NT, por uma alusão ao que foi dito no passado, ou por meio de linguagem explícita de revogação." (Progressive Dispensationalism, em Covenantal and Dispensational Theologies)

A HCR abraça isso plenamente. O que o NT revela complementa o que o AT revela — sem perder o que foi originalmente declarado. Nada se perde. A HCR simplesmente acrescenta: e tampouco se acrescenta retroativamente algo ao significado do texto original.

Onde a HCR Propõe Seu Refinamento — Complementação no Nível do Sentido

Nas afirmações a seguir, observe que Bock fala do "significado" sendo aprofundado, expandido ou enriquecido — o que equivale a situar a complementação no nível do sentido, não do referente.

Bock escreve:

"Essas leituras complementares não introduzem instabilidade na interpretação porque o significado jamais se perde; ele apenas se aprofunda e se enriquece." (Three Central Issues)

A HCR não concorda com essa formulação, pois ela situa a complementação no nível do sentido — o significado do texto — em vez de situá-la no nível do referente. O que se aprofunda e se complementa é o elemento ao qual o texto aponta — o referente —, porque novas revelações contribuem com novas informações sobre ele. O sentido do texto permanece o que sempre foi; o que cresce é o referente, à medida que textos posteriores revelam mais sobre a mesma promessa, pacto ou tema.

Uma afirmação particularmente elucidativa é esta:

"A expansão de significado implica mudança de significado? Essa é uma pergunta importante para os que se preocupam com a consistência na interpretação. [...] Por um lado, acrescentar à revelação de uma promessa é introduzir 'mudança' nela por meio de adição. Mas é exatamente assim que a revelação avança, à medida que referentes são acrescentados ao escopo de uma promessa previamente dada. Se a promessa estivesse presente com seu significado pleno desde o início, onde residiria o progresso revelador da promessa?" (Current Messianic Activity)

Aqui também o enquadramento "expansão de significado" situa a complementação no nível do sentido; a HCR diria, em vez disso, que o que se expande é o referente.

De forma semelhante, Bock escreve:

"Ele contesta nossa descrição de significado complementar ao formular essa acusação. Mas ele não observa adequadamente que nosso argumento é que a revelação subsequente pode acrescentar significado — não por mudança (como ele alega que argumentamos), mas por expansão e elaboração." (Progressive Movement, em Discovering Dispensationalism)

A HCR aprecia a intenção — Bock está acertadamente insistindo que nada se perde nem se altera —, mas propõe uma formulação mais precisa: a revelação subsequente acrescenta ao pacto ou à promessa, não ao significado de qualquer texto individual.

Por fim, considere esta afirmação:

"O ensino do Antigo Testamento não é alterado nem suplantado; ao contrário, ele é aprofundado, tornado mais específico, ou recebe elementos adicionais." (Evangelicals and the Use of the OT in the New, Part 1)

Aqui a HCR concorda, porque Bock fala de "o ensino do Antigo Testamento" — não do significado de um texto específico. O ensino do AT como um todo pode, de fato, ser aprofundado e receber elementos adicionais, porque esse ensino é o resultado cumulativo de múltiplos textos. Isso é diferente de afirmar que o significado de um texto individual é aprofundado. A HCR torna essa distinção explícita.

5. A Distinção Central: O Sentido do Texto e o Elemento ao Qual Ele Aponta São Entidades Distintas

O sentido de um texto e o elemento ao qual esse sentido aponta — seja uma promessa, um pacto, um tema teológico — são duas entidades de natureza diferente. Não se trata do mesmo objeto visto por ângulos distintos — são coisas distintas, que existem de maneira distinta e se comportam de maneira distinta. Confundi-las é a fonte da ambiguidade que a RCH busca resolver.

O sentido de um texto é fixo. Está ancorado na intenção do autor original, nas palavras que ele escolheu, no contexto histórico em que escreveu e no público a quem se dirigia. É uma entidade linguística e histórica. É determinado no momento em que o texto é produzido e não se altera depois — assim como o conteúdo de uma carta não muda após ser enviada. O que Jeremias quis dizer ao escrever o capítulo 31 é o que Jeremias 31 significa — ontem, hoje e sempre.

O elemento ao qual o texto aponta — uma promessa, um pacto, um tema teológico — é o objeto real que existe além do texto. É uma entidade teológico-histórico-redentora que se desenvolve ao longo do tempo, por meio de múltiplas revelações, cada uma contribuindo com a sua parte.

O mesmo vale para os textos bíblicos e as entidades teológicas às quais apontam. A Nova Aliança, por exemplo, não é Jeremias 31. Jeremias 31 é uma das revelações sobre a Nova Aliança. A Nova Aliança é maior do que qualquer texto isolado que fale sobre ela. O mesmo se aplica ao Reino de Deus, à promessa abraâmica, à promessa davídica — cada um desses elementos é revelado progressivamente por múltiplos textos, mas nenhum texto individual é o próprio elemento. Cada texto revela uma porção; o elemento é a soma.

Pense nisso como um diamante exposto em uma galeria. Um visitante posicionado ao norte vê um lampejo azul. Outro, a partir do leste, vê um vermelho profundo. Um terceiro, de cima, vê uma explosão de luz branca. Cada visitante dá uma descrição verdadeira — mas nenhuma descrição isolada é o diamante. O diamante é o referente, o objeto real. Cada descrição é um texto com seu próprio sentido fixo, captando uma faceta da mesma pedra. Para conhecer o diamante em sua plenitude, é preciso cada ângulo de visão. Mas a descrição a partir do norte não muda quando o observador a leste relata o que vê. Cada uma permanece o que sempre foi — um relato verdadeiro de uma faceta. O que cresce é o nosso conhecimento do diamante, não o conteúdo de qualquer descrição individual. Da mesma forma, cada texto bíblico revela uma faceta da entidade teológica à qual aponta. 2 Samuel 7 revela uma faceta da promessa davídica — uma dinastia duradoura e um filho que construirá o templo. O Salmo 2 revela outra — o Filho instalado como Rei em Sião, a quem as nações são dadas como herança. Isaías 9 revela ainda outra — uma criança que nasce, um governo sobre os seus ombros, um trono de justiça e paz para sempre. Cada texto tem o seu próprio sentido, fixo em seu próprio contexto. A promessa davídica — o referente — é o diamante completo, progressivamente revelado à medida que Deus, por meio de diferentes autores em diferentes séculos, girou a pedra e mostrou mais uma faceta.

O próprio Bock oferece uma confirmação notável desse ponto. Ao falar da promessa davídica, ele escreve:

"A revelação da promessa davídica e do reino não se limita a 2 Samuel 7. Este pode ser o ponto mais crucial em toda a discussão. 2 Samuel 7 é apenas o início da promessa acerca de uma dinastia específica. A promessa inclui todos os textos do AT que desenvolvem a esperança davídica (Salmos 2, 16, 89, 110, 118, 132; Isaías 9–11, 55; Jeremias 23, 30, 33; Ezequiel 34–37; Daniel 2, 7, 9; Oséias 3; Amós 9; Zacarias 12–14), além de quaisquer textos do NT vinculados à esperança messiânica." [^1]

É exatamente isso que a RCH defende, e pode ser formulado nos termos da distinção que está no coração deste artigo. 2 Samuel 7 tem um sentido — o seu conteúdo linguístico: a promessa de Deus a Davi de uma dinastia duradoura, um filho que construirá o templo, um trono estabelecido para sempre. Esse é o sentido do texto — o que ele comunica. E esse sentido aponta para um referente — a promessa davídica, uma entidade teológica real no plano redentor de Deus. Mas, como o próprio Bock demonstra, a promessa davídica é muito maior do que o que 2 Samuel 7 sozinho afirma sobre ela. É uma entidade teológica que abrange dezenas de textos ao longo de séculos de revelação. O sentido de 2 Samuel 7 é fixo — ele revela a porção da promessa davídica conhecida naquele momento. A promessa davídica em sua plenitude é progressivamente revelada por muitos textos, cada um contribuindo com a sua parte. E se isso é assim, então a complementação ocorre no nível do referente — a promessa, que cresce à medida que novos textos se somam a ela — e não no nível do sentido de 2 Samuel 7, que permanece o que sempre foi.

Essa distinção é evidente em todos os outros campos

Um médico examina um paciente e redige um laudo: "O paciente apresenta uma lesão de 2 cm no pulmão direito." Meses depois, novos exames revelam que a lesão cresceu para 5 cm e se espalhou. O laudo original não foi "aprofundado" — ele ainda diz exatamente o que disse: lesão de 2 cm, pulmão direito. O que progrediu foi a doença, o objeto real ao qual o laudo se referia. Dizer que o sentido do laudo foi "complementado" pelos achados dos novos exames seria como retornar ao laudo original e alterar "2 cm" para "5 cm" — como se o primeiro exame estivesse errado ou incompleto por não descrever o que ainda não havia acontecido. Nenhum médico faria isso. O primeiro laudo era preciso no momento em que foi redigido. Os exames subsequentes revelaram mais sobre a mesma doença, mas cada laudo mantém o seu próprio sentido.

O que acontece quando os dois são confundidos

Confundir o sentido de um texto com o elemento ao qual ele aponta é como dizer que Jeremias 31 "sempre incluiu os gentios" porque a Nova Aliança, em seu pleno desenvolvimento, passou a incluí-los — quando Jeremias escreveu explicitamente "a casa de Israel e a casa de Judá". O erro é o mesmo que reescrever o laudo médico para adequá-lo aos resultados do exame mais recente: projetar no texto algo que pertence ao elemento ao qual ele se refere. Jeremias 31 não é a Nova Aliança — é uma revelação sobre a Nova Aliança. Quando a revelação avança, o elemento é expandido. Mas o texto antigo que falou sobre ele não muda retroativamente. Ele descreveu a porção conhecida naquele momento — e continua descrevendo exatamente essa porção.

O texto é como um mapa, e o elemento ao qual aponta é o território. Quando um explorador descobre novas regiões e desenha um novo mapa, o mapa antigo não é "aprofundado" — ele continua representando o que representava. O que cresceu foi o território conhecido. Confundir o mapa com o território é um erro de categoria. E é precisamente essa confusão que a RCH busca evitar.

As próprias categorias de Bock: sentido e referente

A ambiguidade identificada acima não é apenas inferida — o próprio Bock fornece as categorias que a colocam em evidência. Em Evangelicals and the Use of the Old Testament in the New [Evangélicos e o Uso do Antigo Testamento no Novo] (Parte 2, Bibliotheca Sacra), ele traça uma distinção entre sentido e referente:

"O significado envolve o sentido de uma passagem e não primariamente os referentes de uma passagem; mas a linguagem de uma passagem do Antigo Testamento e o seu cumprimento no Novo Testamento podem estar relacionados em termos de referentes de diversas maneiras." [^2]

E logo em seguida:

"Embora existam uma variedade de relações no nível do referente, o sentido básico da passagem é mantido." [^3]

Em um artigo anterior (Parte 1), Bock cita E. Johnson para definir esses termos com maior precisão:

"'Sentido' refere-se ao significado verbal da linguagem expresso no texto, independentemente da referência, isto é, 'sentido' envolve a definição de um termo, não ao que o termo se refere. 'Referência' indica o que especificamente é referido por meio do significado do sentido. Há uma diferença entre o que é descrito e significado (sentido) e a quem ou ao que se refere (referência)." [^4]

Essas afirmações merecem atenção cuidadosa, pois contêm, em forma embrionária, exatamente o que a RCH propõe.

O sentido de um texto é o seu conteúdo linguístico — o que as palavras comunicam em seu contexto gramatical-histórico. O referente é o objeto real ao qual o texto aponta — a entidade no plano de Deus sobre a qual o texto fala. Quando Jeremias 31 diz "estabelecerei uma nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá", o sentido é o conteúdo linguístico dessa declaração — uma nova aliança, com Israel e Judá, diferente da anterior. O referente é a própria Nova Aliança — a entidade real no plano redentor de Deus à qual o texto aponta.

Observe agora o que Bock está dizendo. Primeiro: o significado envolve primariamente o sentido, não sempre o referente. Segundo: no nível do referente, há variedade e desenvolvimento, mas o sentido básico da passagem é mantido. Em outras palavras, o próprio Bock reconhece que o sentido de um texto é fixo, enquanto o referente pode ser objeto de revelação e desenvolvimento ulteriores.

É precisamente essa distinção sobre a qual a RCH está construída. O sentido de Jeremias 31 é fixo. O referente — a Nova Aliança — é progressivamente revelado ao longo de múltiplos textos, cada um contribuindo com a sua parte. Novos textos (como Efésios 2–3) apontam para o mesmo referente e revelam mais sobre ele, mas não alteram o sentido de Jeremias 31. O referente é o mesmo; o sentido de cada texto é diferente e estável.

A tensão surge quando Bock, em outro contexto, afirma que o significado é "aprofundado e enriquecido". Se o significado é primariamente o sentido, e o sentido é mantido, como o significado pode ser aprofundado? O que é aprofundado não é o sentido de nenhum texto individual — é o nosso conhecimento do referente, o elemento ao qual o texto aponta. Quando a revelação posterior mostra que a Nova Aliança inclui os gentios, o referente (a Nova Aliança) se revela maior do que o que Jeremias 31 sozinho revelou. Mas o sentido de Jeremias 31 permanece inalterado.

Em outras palavras, a própria distinção de Bock entre sentido e referente, se aplicada com plena consistência, conduz à RCH. A RCH não introduz categorias estranhas — ela toma as categorias que o próprio Bock fornece e extrai suas consequências naturais. Se o significado é primariamente sobre o sentido, e o sentido é mantido, então a complementação não pode operar no nível do significado. Ela opera no nível do referente — o elemento ao qual o texto aponta.

Vale notar que essa mesma distinção tem raízes profundas na filosofia da linguagem. Em 1892, o filósofo Gottlob Frege traçou uma linha que se tornaria clássica entre Sinn (sentido) e Bedeutung (referência). O sentido de uma expressão é a maneira como ela apresenta o seu objeto — é fixo e linguístico. A referência é o objeto real ao qual a expressão aponta — e esse objeto pode ter propriedades que o sentido não capta. O Sinn de Frege corresponde ao sentido de Bock, e a Bedeutung de Frege corresponde ao referente de Bock. A convergência é notável: a filosofia da linguagem e a hermenêutica bíblica, de forma independente, chegaram à mesma distinção fundamental. A RCH simplesmente insiste que essa distinção seja honrada na prática — que o que é complementado é o referente, nunca o sentido.

6. Ilustração 1 — As Cartas Cumulativas

Para tornar essa distinção ainda mais concreta, considere o seguinte cenário.

Um pai escreve três cartas ao filho, em meses diferentes:

Carta 1: "Vou te dar R$ 10 no final do ano porque você se comportou bem este mês."

Carta 2: "Vou te dar mais R$ 10 no final do ano porque você se comportou bem neste outro mês."

Carta 3: "Vou te dar mais R$ 10 no final do ano porque você se comportou bem neste mês também."

Temos aqui, em escala simples, a mesma estrutura que encontramos na revelação bíblica: múltiplos textos, escritos em momentos diferentes, apontando para o mesmo elemento — neste caso, uma promessa do pai ao filho.

Cada carta tem o seu próprio sentido, fixo no momento em que foi escrita. A Carta 1 significa R$ 10, por uma razão específica. A Carta 2 significa mais R$ 10, por outra razão. A Carta 3, mais R$ 10, por outra razão ainda. Quando a terceira carta é escrita, o sentido da primeira não é de forma alguma complementado ou alterado — ela continua significando exatamente o que significava quando foi originalmente escrita.

O que é complementado é a própria promessa — o referente ao qual as três cartas apontam. Após a Carta 1, a promessa é de R$ 10. Após a Carta 2, R$ 20. Após a Carta 3, R$ 30. O referente cresceu a cada nova carta, mas o sentido de cada carta permaneceu fixo. Os R$ 30 não são o sentido de nenhuma carta individual — são o conteúdo cumulativo do referente que as três cartas, juntas, construíram. Se cada carta "já significasse" R$ 30 desde o início, por que o pai precisaria escrever três? As distinções entre elas — as razões diferentes, os meses diferentes — desmoronariam, e o caráter cumulativo da promessa seria apagado.

7. Ilustração 2 — O Pai Generoso (Dar mais do que foi prometido não é alterar a promessa)

Considere uma segunda situação. Um pai escreve uma carta ao filho mais velho:

Carta: "Se você passar de ano, vou te dar R$ 5 de presente."

O filho passa. Mas o pai, movido pela generosidade e por razões que tinha em mente desde o princípio, decide dar R$ 10. Além disso, decide estender o presente também ao filho mais novo, que nem sequer foi mencionado na carta.

Duas perguntas. O sentido da carta mudou? Não. A carta significou, significa e sempre significará R$ 5, para o filho mais velho, condicionado a passar de ano. O pai não "aprofundou" o sentido da carta ao dar mais e incluir outro filho. O que ele fez foi, como soberano da promessa, ir além do que aquela carta específica comunicava.

E o filho mais velho perdeu algo? Também não. Os R$ 5 prometidos na carta estão contidos nos R$ 10. E a inclusão do filho mais novo não tirou nada do mais velho. O pai não deu ao filho mais novo em vez de dar ao mais velho. Ele deu além. A promessa original foi integralmente cumprida; o que o pai fez foi superá-la, não contrariá-la.

O paralelo teológico é direto. Quando Deus inclui os gentios nos pactos da promessa, Jeremias 31 permanece sendo uma promessa à casa de Israel e à casa de Judá — plenamente garantida. O que Deus fez foi, como Autor soberano do plano redentor, estender os benefícios do pacto também aos gentios. A inclusão dos gentios não substitui Israel, não anula a promessa original e não reescreve nenhum texto. Ela vem além — ao lado, como Bock descreveu tão acertadamente.

A grandeza está no Prometedor, que fez mais do que qualquer texto individual comunicava. Não na reescrita do que foi prometido, e certamente não na exclusão daqueles a quem a promessa foi originalmente dirigida.

8. Estudo de Caso: Jeremias 31 e a Inclusão dos Gentios

Para mostrar como a RCH funciona na prática exegética, considere o caso de Jeremias 31 — talvez o texto mais central sobre a Nova Aliança no Antigo Testamento.

O sentido original de Jeremias 31 é claro e específico: trata-se de uma promessa feita à casa de Israel e à casa de Judá. Deus estabelecerá com eles uma nova aliança, diferente daquela que fez quando os tirou do Egito. Ele porá a sua lei dentro deles, a escreverá em seus corações, será o seu Deus, e eles serão o seu povo. Esse é o sentido do texto. Não há gentios no horizonte de Jeremias 31.

O que o Novo Testamento revela é que os gentios, que estavam "longe" e eram "estrangeiros às alianças da promessa" (Efésios 2.12), foram aproximados e incluídos. Paulo chama isso de mistério — algo "que em outras gerações não foi dado a conhecer aos filhos dos homens" (Efésios 3.5) — a saber, "que os gentios são co-herdeiros, membros do mesmo corpo e co-participantes da promessa em Cristo Jesus" (Efésios 3.6).

Como entendemos isso? A CH, na sua formulação atual, diria que a revelação do NT "aprofunda" ou "complementa" o sentido do texto de Jeremias 31, que agora inclui os gentios — ou seja, ela localiza a complementação no nível do sentido. A RCH diz algo ligeiramente diferente: o NT não atualizou nem complementou o sentido de Jeremias 31, como se ele secretamente já incluísse os gentios ou como se precisasse ser "expandido" para acomodá-los. O que o NT fez foi complementar o conteúdo da Nova Aliança — a entidade teológica real à qual Jeremias 31 apontava, mas que não dependia exclusivamente de Jeremias 31. Em outras palavras, a RCH localiza a complementação no nível do referente.

E aqui há um detalhe crucial: a base para a inclusão dos gentios não estava implícita em Jeremias 31; estava em Gênesis 12.3, onde Deus promete a Abraão que nele todas as famílias da terra seriam abençoadas. A inclusão dos gentios na Nova Aliança não é uma "expansão" do sentido de Jeremias 31 — é o cumprimento de outra promessa, independente, que corre em paralelo. E é também o conteúdo da revelação explícita de Efésios 2–3 e Romanos 11. Paulo deixa claro em Efésios que os gentios são agora co-herdeiros e co-participantes dos pactos da promessa. Em Romanos 11, ele usa a imagem da oliveira: os gentios foram enxertados na árvore cuja raiz são os pactos abraâmicos, e é essa raiz que transporta a seiva — as bênçãos dos pactos — para os ramos enxertados.

Jeremias 31 continua significando o que sempre significou: uma promessa à casa de Israel e de Judá. A Nova Aliança é maior do que Jeremias 31 — é uma entidade teológica que se desenvolve ao longo de toda a revelação, não o sentido de um único texto. E o NT é claro ao afirmar que os gentios, que antes estavam longe, foram aproximados em Cristo e participam dessa aliança. Paulo revelou um novo aspecto da promessa que vem ao lado — exatamente como Bock descreveu tão acertadamente. Só que esse "ao lado" opera no nível do pacto, não no nível do sentido do texto.

Quando um dispensacionalista tradicional tenta negar qualquer relação entre os gentios e a Nova Aliança, ele normalmente cita Jeremias 31: o pacto é com a casa de Israel e de Judá. E quanto ao sentido do texto, ele está correto — Jeremias 31 de fato diz isso e continua dizendo. Mas a participação dos gentios na Nova Aliança não precisa estar fundamentada em Jeremias 31. Ela está fundamentada na revelação do NT de que em Cristo somos co-participantes e co-herdeiros dos pactos da promessa. A Nova Aliança não é Jeremias 31. Jeremias 31 é uma revelação sobre a Nova Aliança. E a Nova Aliança, como entidade teológica, inclui hoje tanto Israel quanto os gentios — não porque Jeremias 31 foi reescrito, mas porque Deus revelou mais sobre o seu pacto do que qualquer texto individual continha.

9. Objeções e Respostas

Toda tese que propõe uma distinção inevitavelmente suscita a pergunta: essa distinção é real ou artificial? A HCR não é exceção. Duas objeções merecem atenção.

Objeção 1: "A distinção entre o significado de um texto e o elemento ao qual ele aponta é artificial. O significado sempre inclui o referente."

Essa objeção confunde dois níveis distintos. É verdade que um texto sempre aponta para algo — um referente. Mas o significado de um texto é determinado pelo seu conteúdo linguístico em seu contexto histórico, e não pela realidade plena do referente. Jeremias 31 aponta para a Nova Aliança, mas o significado de Jeremias 31 não é a Nova Aliança em sua totalidade. Jeremias 31 revela uma porção da Nova Aliança — a porção conhecida naquele momento da história redentora. A Nova Aliança, como entidade teológica, é maior do que qualquer texto isolado que a revele.

Objeção 2: "Essa distinção compromete a unidade das Escrituras ao tratar cada texto como algo isolado."

Pelo contrário. A HCR não isola textos — ela honra tanto o texto individual quanto o todo canônico. Cada texto possui seu próprio significado, ancorado em seu próprio contexto. A leitura canônica, porém, reúne esses textos, e o resultado é uma compreensão mais rica da promessa, do pacto e do tema em questão. A unidade das Escrituras não é produzida fazendo cada texto dizer mais do que originalmente disse — ela é produzida pelo Autor Divino que, ao longo de séculos, por meio de autores independentes, construiu uma revelação cumulativa maior do que qualquer uma de suas partes. A HCR preserva a unidade do cânon exatamente por situá-la onde ela de fato reside: não na alteração retroativa dos significados individuais, mas no design coerente do todo.

10. Conclusão

A Hermenêutica Complementar Revisada propõe um refinamento — mas um refinamento de implicações significativas. Ao situar a complementação no nível do referente — a promessa, o pacto, a entidade teológica — e nunca no nível do sentido — o significado gramatical-histórico do texto individual —, a HCR alcança dois objetivos simultaneamente.

Primeiro, preserva a integridade da hermenêutica literal-gramatical-histórica. O significado de cada texto bíblico é determinado pela intenção do autor, pelas suas palavras e pelo seu contexto — e não é retroativamente alterado por revelações posteriores. Isso fecha a porta para leituras que, por melhores que sejam as intenções, acabam funcionando como uma reescrita velada do Antigo Testamento.

Segundo, mantém a beleza da teologia bíblica progressiva. A promessa cresce. Os pactos se desenvolvem. O plano redentor avança. Não há nenhuma perda na grandiosidade do design divino — pelo contrário. A grandiosidade reside precisamente no fato de que Deus, ao longo de séculos, por meio de autores diferentes, em contextos distintos, com textos independentes, foi edificando uma Promessa cumulativa que é maior do que qualquer texto individual.

A Hermenêutica Complementar de Bock abriu o caminho. A Hermenêutica Complementar Revisada apenas sugere que o percorramos com um cuidado adicional: que a complementação — tão real e tão necessária — seja situada onde ela de fato opera. Não no significado dos textos, mas no elemento ao qual eles apontam.

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Autor

Leonardo A. Costa

Pesquisador e escritor que explora o dispensacionalismo a partir de uma perspectiva progressiva, com profundo apreço pelo legado da tradição.

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