Os Dois Sentidos da "Lei" e a Resolução de Mateus 5:17

Uma leitura do Dispensacionalismo Progressivo sobre cumprimento, abolição e a Nova Aliança

DispensacionalismoLeonardo A. Costa9 min de leitura

Uma das chaves mais importantes para resolver as aparentes tensões do Novo Testamento em relação à Lei é reconhecer que a palavra Lei carrega pelo menos dois significados distintos nas Escrituras (ela tem mais, mas estes dois são os mais relevantes para nossos propósitos aqui).

A Lei como Escritura

Em primeiro lugar, Lei pode significar Escritura. Nesse sentido, "Lei" se refere à Palavra de Deus escrita — embora mesmo aqui o escopo possa variar. Às vezes aponta especificamente para a Torá, os cinco livros de Moisés. Em outros casos, se estende ao Antigo Testamento inteiro como Escritura.

Esse sentido mais amplo é evidente no próprio Mateus 5: no versículo 17, Jesus fala de "a Lei e os Profetas" — a expressão judaica padrão para designar a totalidade das Escrituras — e no versículo 18 ele a abrevia simplesmente para "a Lei", usando o termo como substituto para a expressão completa.

Mas Mateus 5 está longe de ser o único lugar onde esse uso aparece. O padrão é consistente em todo o Novo Testamento, e as evidências mais decisivas vêm de casos em que um escritor chama de "Lei" um texto que não pertence ao Pentateuco:

  • Em João 10.34, Jesus diz: "Não está escrito na lei de vocês: 'Eu disse: vocês são deuses'?" — mas a citação é de Salmo 82.6, que pertence aos Escritos, não à Torá. O termo Lei aqui claramente se estende ao cânon mais amplo.
  • Em João 15.25, Jesus apela à "palavra escrita na lei deles: 'Odiaram-me sem motivo'" — citando Salmo 35.19 (ou 69.4). Novamente, um Salmo é chamado de "Lei."
  • Em 1 Coríntios 14.21, Paulo escreve: "Na lei está escrito: 'Por pessoas de outros idiomas...'" — e passa a citar Isaías 28.11–12. Um texto profético é designado "Lei."
  • Em Romanos 3.19, Paulo afirma: "Ora, sabemos que tudo o que a lei diz, diz àqueles que estão debaixo da lei" — mas o contexto imediatamente anterior (vv. 10–18) é uma cadeia de citações dos Salmos e de Isaías. Paulo reúne tudo isso sob um único título: a Lei.
  • Em João 12.34, a multidão diz: "Ouvimos da lei que o Cristo permanece para sempre" — afirmação fundamentada em textos como Isaías 9.7 ou Salmo 110, igualmente fora do Pentateuco.

O peso acumulado dessas passagens é difícil de exagerar. Os autores do Novo Testamento — e o próprio Jesus — habitualmente usam "a Lei" como abreviação para todo o Antigo Testamento. Nesse sentido, a Lei permanece verdadeira, inspirada, proveitosa e reveladora do caráter de Deus.

A Lei como Pacto

Em segundo lugar, Lei pode significar pacto. Nesse sentido, "Lei" se refere ao Pacto Mosaico dado a Israel no Sinai, com seus mandamentos, sacerdócio, sacrifícios, circuncisão, calendário, regulamentações alimentares e ordenanças nacionais. Aqui a Lei funciona como o regime pactual que governava a vida de Israel antes da vinda de Cristo.

Que esse é um sentido distinto — e não simplesmente um sinônimo de Escritura — é estabelecido por diversas linhas de evidência bíblica:

  • O próprio Antigo Testamento identifica a legislação do Sinai como um pacto. Em Êxodo 24.7–8, Moisés toma "o Livro da Aliança" e o lê ao povo, e então aspergindo o sangue diz: "Este é o sangue da aliança." O conjunto de leis dado no Sinai não é mera instrução; é a forma textual de um vínculo pactual.
  • Deuteronômio 4.13 torna isso ainda mais explícito: "Ele lhes declarou a sua aliança, que lhes ordenou que obedecessem: os Dez Mandamentos." O próprio coração da legislação mosaica é chamado de "aliança."
  • Gálatas 3.17 trata esse sentido pactual com precisão cirúrgica. Paulo argumenta que "a lei, que veio quatrocentos e trinta anos depois, não torna nulo o pacto que Deus anteriormente ratificara." Aqui a Lei é algo com uma origem histórica — ela veio em um ponto específico da história da salvação, quatro séculos após Abraão. Não é a Palavra eterna de Deus; é um arranjo pactual com um começo e, como Paulo continuará a argumentar, um fim.
  • Gálatas 3.23–25 confirma isso: "Antes de vir a fé, estávamos aprisionados sob a guarda da lei... Portanto, a lei foi o nosso aio para nos conduzir a Cristo... Mas, agora que veio a fé, já não estamos sob o aio." A Lei nesse sentido tem uma duração delimitada — pedagógica, temporária, vinculada a uma época redentora agora encerrada.
  • Hebreus 7.11–12 vincula a Lei de forma inseparável ao sacerdócio levítico: "Portanto, se a perfeição pudesse ser alcançada pelo sacerdócio levítico... qual seria então a necessidade de surgir outro sacerdote... Se o sacerdócio muda, necessariamente deve haver também mudança na lei." A "Lei" aqui é todo o sistema sacerdotal-pactual — não a Escritura em sentido amplo, mas o regime operativo que organizava o culto de Israel.

É essa a Lei da qual Paulo diz que fomos libertados (Romanos 7.6), a lei de "mandamentos expressos em ordenanças" que Cristo aboliu (Efésios 2.15), o "ministério gravado em letras, nas pedras" que foi superado (2 Coríntios 3.7–11), e o primeiro pacto que Hebreus 8.13 declara obsoleto.

A Resolução

Essa distinção produz uma resolução clara:

  • Como Escritura, a Lei é cumprida por Cristo.
  • Como Pacto Mosaico, a Lei é abolida — superada e tornada obsoleta — por Cristo.

Mas o ponto mais profundo é este: a própria abolição da Lei (como pacto) é parte do cumprimento da Lei (como Escritura).

Isso ocorre porque a própria Escritura anunciou que uma Nova Aliança estava por vir — uma aliança fundamentalmente diferente da primeira. Jeremias 31.31–32 prometeu uma nova aliança "não como a aliança" que Deus fez quando tirou Israel do Egito. Portanto, quando Cristo inaugura a Nova Aliança e torna a antiga obsoleta, ele não está traindo o Antigo Testamento. Está realizando precisamente o que o Antigo Testamento havia prometido. Está cumprindo a Lei como Escritura.

Podemos expressá-lo assim: a Lei como Escritura declarou que a Lei como pacto seria superada. A própria abolição da Lei (como pacto) é um cumprimento da Lei (como Escritura).

A Tensão entre Abolição e Cumprimento

De um lado, Jesus declara:

"Não pensem que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir." (Mateus 5:17, NVI)

Isso demonstra que Cristo não veio destruir o Antigo Testamento como Escritura.

Por outro lado, o Novo Testamento fala repetidamente da Lei como pacto sendo cancelada, anulada ou tornada obsoleta. Efésios 2.15 fala da abolição da "lei dos mandamentos expressos em ordenanças." Colossenses 2.14 fala do "escrito de dívida existente contra nós, com as suas exigências legais" sendo pregado na cruz. 2 Coríntios 3.7–11 fala do "ministério da morte, gravado em letras sobre pedras," sendo superado por um ministério de maior glória. Hebreus 8.13 declara que o primeiro pacto se tornou obsoleto. Romanos 7.6 afirma que fomos libertados da Lei.

A solução reside precisamente nos dois sentidos da Lei:

  • Cristo não aboliu a Lei como Escritura. Ele a cumpriu.
  • Cristo aboliu a Lei como o pacto mosaico operativo.

A chegada da Nova Aliança é simultaneamente o cumprimento da Lei (como Escritura) e a abolição da Lei (como pacto mosaico).

Não há, portanto, contradição alguma entre "não vim abolir" (Mateus 5.17) e "aboliu a lei dos mandamentos" (Efésios 2.15). Jesus não aboliu a Escritura; aboliu o regime pactual mosaico precisamente ao cumprir o que a Escritura havia desde sempre anunciado.

A Tensão entre Continuidade e Descontinuidade

A Nova Aliança não representa nem uma ruptura total com a Lei nem uma simples continuação dela.

  • Como pacto, ela representa ruptura — genuína descontinuidade.
  • Como Escritura, ela representa cumprimento — genuína continuidade.

O pacto mosaico como um todo, como regime legal operativo, é abolido — não em parte, mas inteiramente. Essa não é a posição reformada de que apenas as leis cerimoniais e civis foram revogadas enquanto a lei moral permanece em vigor como lei mosaica. O pacto se foi como pacto. Ainda assim, certas realidades morais aparecem (ou reaparecem) na Nova Aliança — não porque sobreviveram à transição, mas porque emergem novamente dentro dela, agora fundamentadas em Cristo e levadas a uma profundidade e intensidade ainda maiores.

Mateus 5.21–48 ilustra isso com precisão. Quando Jesus diz "Vocês ouviram o que foi dito... mas eu lhes digo," ele não está corrigindo interpretações equivocadas de Moisés. Ele está falando com a autoridade de um novo legislador, anunciando a lei da Nova Aliança. Há uma clara sobreposição com o terreno moral do antigo pacto — homicídio, adultério, juramentos, retaliação — mas essas preocupações reemergem sob uma intensidade muito maior. A exigência vai além do que Moisés jamais requereu. Ela alcança o coração, a intenção, a vida interior. Isso não é simples continuidade nem simples descontinuidade. É descontínuo na forma e na autoridade, mas o mesmo terreno moral reaparece — aprofundado, não atenuado.

Esse padrão reflete a própria Nova Aliança: o que o antigo pacto abordava externamente, o novo pacto retoma e aprofunda.

  • O antigo pacto foi gravado em tábuas de pedra. O novo pacto é escrito no coração.
  • O antigo pacto se dirigia ao povo de Deus externamente, dizendo-lhe o que fazer. O novo pacto transforma o povo de Deus interiormente, criando nele o desejo e a capacidade de fazê-lo.
  • O antigo pacto revelava o pecado. O novo pacto perdoa o pecado e transforma o pecador.
  • O antigo pacto exigia obediência. O novo pacto concede o Espírito, que produz obediência de dentro para fora.
  • O antigo pacto exibia o padrão. O novo pacto imparte a vida para andar de acordo com esse padrão.

A mudança, portanto, não é que Deus tenha relaxado sua preocupação com a justiça, a santidade e a retidão. A mudança é que, sob a Nova Aliança, Deus produz interiormente o que o antigo pacto ordenava externamente.

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Autor

Leonardo A. Costa

Pesquisador e escritor que explora o dispensacionalismo a partir de uma perspectiva progressiva, com profunda apreciação pelo legado desta tradição.

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