A Visão de George Peters sobre o Reino, a Igreja e o Dispensacionalismo Progressivo

O que The Theocratic Kingdom diz sobre mistério, Mateus 13 e participação no pacto

DispensacionalismoLeonardo A. Costa5 min de leitura

A influência de George Peters sobre o Dispensacionalismo é inegável. Lewis Sperry Chafer o cita repetidamente ao longo de sua teologia sistemática e, no volume três, declara que The Theocratic Kingdom [O Reino Teocrático] (1884), de Peters, é "insuperável tanto em abrangência quanto em erudição." Alva McClain também referencia a obra de Peters em seu próprio tratamento clássico, reconhecendo seu peso e influência dentro da tradição Dispensacionalista.

A obra de Peters abrange três volumes e contém 206 proposições no total, cada uma acompanhada de uma série de observações. Após ter lido a maior parte dessas proposições, cheguei a uma conclusão significativa: Peters, na verdade, rejeita a visão mais comum do Dispensacionalismo Tradicional (DT) de que o Reino descrito em Mateus 13 representa a Cristandade. Para Peters, a expressão "Reino dos Céus" em Mateus 13 não sofre uma mudança de significado. Pelo contrário, os "mistérios do Reino dos Céus" designam — precisamente como nós, do Dispensacionalismo Progressivo (DP), cremos — novas verdades ou revelações inéditas acerca do Reino do Antigo Testamento. Peters afirma isso explicitamente:

"Os mistérios implicam, portanto: (1) um conhecimento prévio da doutrina do Reino e (2) que os mistérios revelados concedem um conhecimento mais pleno do assunto em questão, em vista das adições realizadas." (Peters, Vol. 1, p. 143)

Para Peters, essas novas revelações (mistérios) não alteram a natureza do Reino — ao contrário do que muitos Dispensacionalistas Tradicionais ensinam quando falam de uma "forma misteriosa do Reino" como Cristandade:

"Alguns escritores… relacionam o mistério a uma mudança na natureza do Reino, de modo que um novo significado lhe deve ser atribuído; isso inclui, pelo menos, novas características acrescentadas, modificações ou alterações tais que o transformam completamente. Admitindo-se adições e mudanças conforme profetizadas, permanece ainda não comprovado que haja uma mudança em sua natureza ou significado." (Peters, Vol. 1, p. 147)

Peters argumenta ainda que o Novo Testamento pressupõe e dá continuidade ao significado veterotestamentário do Reino, em vez de substituí-lo — e que os mistérios representam novas revelações sobre o Reino, não a introdução de um reino inteiramente novo:

"A doutrina do Reino é ensinada primeiramente por meio do pacto, da ordenação teocrática e da profecia no Antigo Testamento, e é tomada como pressuposto no Novo Testamento como um tema derivado do Antigo Testamento e bem compreendido; pois o Reino é proclamado sem nenhuma explicação adicional." (Peters, Vol. 1, p. 157)

Igreja, Reino e os Pactos

Outro aspecto crucial da visão de Peters é que ele não desconecta a Igreja do plano e das promessas do Reino, como a maioria dos Dispensacionalistas Tradicionais faz. Pelo contrário — na Proposição 30, ele afirma:

"A participação dos gentios na relação pactual (e, por meio dela, na herança das bênçãos do Reino) deve depender… de eles serem, de alguma forma, adotados como descendência de Abraão. Precisamente aqui estava o mistério, que desconcertou até mesmo os apóstolos até receberem iluminação especial." (Peters, Vol. 1, p. 233)

Peters está correto e se alinha à visão do Dispensacionalismo Progressivo nesse ponto: a Igreja foi integrada à relação pactual, o que a torna herdeira das bênçãos do Reino. Assim, o mistério do Reino, mesmo no sentido de nova revelação, não desconecta a Igreja do programa do Reino. Para Peters, a Igreja está vinculada ao programa do Reino. Muitos Dispensacionalistas Tradicionais argumentam que, por ser a Igreja um mistério — não revelado no Antigo Testamento —, ela não tem nada a ver com o Reino profetizado. Peters argumenta exatamente o oposto: o mistério implica que os gentios (que constituem a Igreja) agora participam dos pactos por meio de Cristo e herdam "as bênçãos do Reino."

A Proposição 61 desenvolve ainda mais esse ponto: o Reino, que por promessa pertencia exclusivamente à nação judaica como legítima descendência de Abraão, devia ser entregue agora a um povo enxertado. Na Observação 3 dessa proposição, Peters afirma que a linguagem das Escrituras é clara (Efésios 2–3): os gentios que outrora eram "estranhos às alianças da promessa" e "longe" foram "aproximados pelo sangue de Cristo," tornando-se "concidadãos dos santos e membros da família de Deus," de modo que "os gentios são co-herdeiros, membros do mesmo corpo." Esse modo de adoção é chamado de "mistério" porque a questão central era como isso poderia ser realizado sem alterar ou diminuir os pactos dados à nação judaica.

Peters então estabelece uma conexão — em alguns aspectos mais ousada do que o Dispensacionalismo Tradicional (e do que eu mesmo) admitiria — entre a Igreja e o Reino:

"Este Reino deve ser dado a todos os da nação eleita, tanto judeus crentes de descendência natural quanto gentios enxertados, a todos os crentes, portanto, que jamais viveram; e será concedido a ambos ao mesmo tempo, incluindo os Patriarcas, os santos da antiguidade, os judeus fiéis e os gentios crentes adotados." (Peters, Vol. 1, p. 413)

Continuidade no Plano de Deus

Se George Peters — tão altamente considerado pelos mais proeminentes teólogos Dispensacionalistas — está afirmando precisamente o que nós, do Dispensacionalismo Progressivo, temos defendido quanto ao significado de "mistério," à relação entre a Igreja e o Reino e à interpretação do Reino em Mateus 13, então há boas razões para reconhecer um grau maior de progressão e continuidade no plano de Deus ao longo da era presente.

A Igreja é, de fato, um mistério — uma nova revelação não contida no Antigo Testamento —, mas um mistério que não está desconectado do plano revelado no Antigo Testamento. A própria nova revelação consiste em que a Igreja seria vinculada à promessa dos pactos, sendo co-herdeira e participando juntamente com Israel. Assim, como Peters afirma corretamente, trata-se de um mistério que se conecta ao plano divino do Antigo Testamento.

Vale também observar que Peters é o pai da leitura futurista de Mateus 13, visão posteriormente adotada por Stanley Toussaint. Peters reconhece elementos presentes do Reino em Mateus 13, mas os compreende como preparatórios para o Reino — não como evidência de que o Reino já foi inaugurado em sentido espiritual.

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Autor

Leonardo A. Costa

Pesquisador e escritor que explora o dispensacionalismo a partir de uma perspectiva progressiva, com profunda apreciação pelo legado da tradição.

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