Dispensacionalismo Progressivo: Uma Teologia da Harmonia

Mantendo continuidade e descontinuidade em equilíbrio

DispensacionalismoLeonardo A. Costa8 min de leitura

O Dispensacionalismo Progressivo é um sistema teológico que oferece uma visão equilibrada de dois aspectos da Palavra de Deus: continuidade e descontinuidade. Em vez de privilegiar um em detrimento do outro, o DP busca o equilíbrio — e esse equilíbrio já está inscrito em seu próprio nome: PROGRESSIVO (continuidade) DISPENSACIONALISMO (descontinuidade).

O Dispensacionalismo Progressivo no espectro continuidade–descontinuidade, entre a Teologia da Aliança, o Pactualismo Progressivo, o Dispensacionalismo Revisado e o Clássico
O Dispensacionalismo Progressivo no espectro continuidade–descontinuidade, entre a Teologia da Aliança, o Pactualismo Progressivo, o Dispensacionalismo Revisado e o Clássico

Dispensacionalismo Progressivo: Uma Teologia da Harmonia

Os seres humanos, por natureza, tendem à facilidade e aos extremos. O equilíbrio e a harmonia são virtudes forjadas com esforço considerável. Permanecer no meio — no centro, no ponto de harmonia e equilíbrio — é a tarefa mais árdua.

Isso evoca o conceito aristotélico de virtude. A ética de Aristóteles tratou essa questão com profundidade notável: a virtude, para Aristóteles, é o meio-termo (mesotēs) entre dois vícios — um por excesso e outro por falta. A coragem situa-se entre a covardia e a temeridade; a generosidade, entre a avareza e a prodigalidade; a magnanimidade, entre a vaidade e a pusilanimidade. A vida virtuosa não é uma esquiva passiva do erro, mas o cultivo deliberado e habitual do meio-termo, exigindo sabedoria prática (phronēsis) para discernir em cada circunstância particular. Os extremos são fáceis justamente porque não demandam discernimento — basta ceder a um impulso. O meio-termo precisa ser esculpido no caráter por meio de escolhas repetidas e custosas.

Lembro-me também de uma ilustração que Martinho Lutero usou em um de seus sermões. Um homem embriagado tentava montar seu cavalo. Ele subia por um lado e caía pelo outro, incapaz de se equilibrar. Tentava novamente pelo lado oposto e tombava para o primeiro, nunca conseguindo se manter no meio. Lutero aplicou a imagem de forma pastoral: o diabo não se importa particularmente por qual lado caímos — ele apenas quer garantir que não permaneçamos no centro, o lugar do equilíbrio.

A ilustração pastoral de Lutero e o ensinamento moral de Aristóteles apontam para a mesma verdade: os seres humanos, por natureza, tendem aos extremos — para qualquer polo que seja mais fácil de alcançar, mais simples de defender e mais econômico em termos de esforço mental e espiritual. Somos criaturas que preferem o resolvido e definitivo ao sustentado com paciência, o slogan ao paradoxo.

E na Teologia

A teologia não é exceção. A Bíblia é um livro repleto de tensões (não contradições). Essas tensões se manifestam de muitas formas:

  • O Reino de Deus é anunciado como algo futuro; o Reino de Deus é anunciado como uma realidade presente.
  • Deus é absolutamente soberano sobre todas as coisas; os seres humanos são genuinamente responsáveis por suas escolhas.
  • Cristo é plenamente Deus; Cristo é plenamente homem.
  • O crente já está justificado; o crente ainda será glorificado.

Mas a tensão com a qual tenho me debatido ultimamente, num livro que estou escrevendo, é a tensão da Nova Aliança:

  • A Nova Aliança é anunciada no Antigo Testamento como sendo para Israel e Judá (Jr 31.31–34); o Novo Testamento conecta a Igreja à Nova Aliança (Lc 22.20; 1 Co 11.25; 2 Co 3.6; Hb 8).

Tensão não é contradição. Tensão é a sustentação simultânea de duas verdades cuja relação precisa ainda não nos é totalmente transparente — duas afirmações que o próprio texto se recusa a colapsar em uma só. Quando nos deparamos com tal tensão, a natureza humana, em sua preferência pelo caminho mais fácil, busca escolher um lado e suprimir o outro. É muito mais fácil eleger um polo e silenciar o outro do que percorrer o caminho árduo da harmonia e da reconciliação. E assim acontece:

De um lado, os Dispensacionalistas Tradicionais (DT) elegem o testemunho do Antigo Testamento e silenciam — no sentido de reinterpretar — o testemunho do Novo Testamento, lendo-o à luz do Antigo para negar a participação da Igreja na Nova Aliança. Jeremias 31 diz que a Nova Aliança será feita com Israel. Problema resolvido.

Do outro lado, o Supersessionismo tende a elevar o Novo Testamento e impô-lo sobre o Antigo. Ele anula a restauração de Israel e as promessas nacionais, porque é mais fácil aplicar tudo à Igreja do que resolver a tensão real.

O mesmo padrão ocorre com o Reino:

De um lado, o DT elege os textos que falam de um Reino futuro e silencia os demais — reinterpretando as passagens sobre o Reino presente como algo menor do que, ou diferente do, próprio Reino: uma "cristandade misteriosa", um arranjo interino, qualquer coisa menos o reinado em si.

Do outro lado, os Amilenistas elegem apenas os textos que falam de um Reino presente e reinterpretam o restante, chegando ao ponto de afirmar que já estamos no reinado milenar. O futuro é arrastado para o presente a fim de silenciar a tensão — não para resolvê-la.

As Quatro Tensões: Já e Ainda Não

Alguns textos falam de aspectos do plano messiânico do Antigo Testamento que estão presentes; outros falam de aspectos que são ainda futuros. Essa é a famosa tensão do "já / ainda não" (already / not yet), e ela aparece em pelo menos quatro pontos:

  • Já ↔ Ainda Não
  • Continuidade ↔ Descontinuidade
  • Reino como Presente ↔ Reino como Futuro
  • Inclusão dos Gentios nos Pactos de Promessa ↔ Futuro para Israel

Na prática — e não na teoria —, tanto a Teologia da Aliança quanto o Dispensacionalismo Tradicional tendem a tratar essas tensões como ou/ou. A Teologia da Aliança pende a balança para a esquerda de cada tensão, enfatizando-a a ponto de negligenciar o outro lado. O Dispensacionalismo Tradicional a pende para a direita, negligenciando igualmente o outro lado. Mas e quando a própria Escritura afirma os dois?

Já e ainda não: como a Teologia da Aliança, o Dispensacionalismo Progressivo e o Dispensacionalismo Tradicional equilibram quatro tensões centrais
Já e ainda não: como a Teologia da Aliança, o Dispensacionalismo Progressivo e o Dispensacionalismo Tradicional equilibram quatro tensões centrais

É aí que entra o Dispensacionalismo Progressivo: ele lê essas tensões como E — Já e Ainda Não — exatamente como o faz a narrativa bíblica, mantendo juntos os textos de ambos os lados. Nesse contexto de extremos, ele poderia ser chamado, com razão, de Teologia da Harmonia.

O Dispensacionalismo Progressivo harmonizando continuidade e descontinuidade, em comparação com a Teologia da Aliança, o Pactualismo Progressivo e o Dispensacionalismo
O Dispensacionalismo Progressivo harmonizando continuidade e descontinuidade, em comparação com a Teologia da Aliança, o Pactualismo Progressivo e o Dispensacionalismo

O Dispensacionalismo Progressivo (DP) é um sistema de harmonia, de equilíbrio. É um sistema que busca resolver as tensões genuinamente, em vez de eleger um lado para silenciar o outro. O DP trilha o caminho mais difícil, a estrada mais árdua — não o caminho da facilidade. É o caminho da virtude aristotélica. É exatamente o equilíbrio do qual o homem embriagado na analogia de Lutero carece.

Nessa teologia harmoniosa e equilibrada, descontinuidade e continuidade são tratadas com mútuo respeito, cada uma recebendo o peso que lhe é devido. Os dados do Antigo e do Novo Testamento são harmonizados, em vez de terem suas tensões "silenciadas", como quem resolve um problema varrendo a sujeira para debaixo do tapete. O DP harmoniza; não silencia. Ele harmoniza a Nova Aliança sem comprometer nenhum dos lados. Contra o DT, afirma com o Novo Testamento que a Igreja genuinamente participa da Nova Aliança — que o sangue de Cristo inaugurou esse pacto, e que todos os que estão unidos a ele pela fé participam de suas bênçãos: o perdão dos pecados, a presença interior do Espírito e a lei inscrita no coração. Contra os Supersessionistas, insiste com o Antigo Testamento que a Nova Aliança foi originalmente anunciada às casas de Israel e de Judá, e que essa dimensão nacional e étnica não foi absorvida pela Igreja, mas aguarda seu cumprimento escatológico na restauração de Israel. A participação presente da Igreja não desloca Israel; ela antecipa o dia em que o mesmo pacto será consumado com o povo a quem foi primeiramente prometido.

A mesma abordagem se aplica ao Reino de Deus. Em vez de defender um Reino que é apenas futuro, como faz o DT, ou um Reino que é meramente presente, como faz o Amilenismo, o DP afirma um Reino que já foi inaugurado, mas ainda não foi consumado. O reinado de Cristo verdadeiramente começou — ele está entronizado à direita do Pai, o Espírito foi derramado como as primícias da era vindoura, e os poderes dessa era já estão em ação em sua Igreja. E ainda assim, a manifestação plena, visível e terrena do Reino — quando os mansos herdarão a terra, quando o lobo se deitará com o cordeiro, quando as nações afluirão a Sião e o conhecimento do Senhor cobrirá a terra como as águas cobrem o mar — permanece futura. O "já" não devora o "ainda não"; o "ainda não" não esvazia o "já". Ambos são sustentados juntos na paciência da fé.

Isso, afinal, é o que a maturidade teológica parece: não a pressa em resolver toda tensão por meio da amputação, mas a disposição de permanecer firmemente assentado no meio da sela — mesmo quando, e especialmente quando, a escolha mais fácil seria cair confortavelmente para um lado ou para o outro.

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Autor

Leonardo A. Costa

Pesquisador e escritor que explora o dispensacionalismo a partir de uma perspectiva progressiva, com profunda apreciação pelo legado desta tradição.

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