Eles Não São Dispensacionalistas — E Provavelmente Você Também Não É

O Que Acontece Quando o Terceiro Sine Qua Non de Ryrie É Aplicado de Forma Consistente em Toda a Tradição

DispensacionalismoLeonardo A. Costa6 min de leitura

Antes de prosseguir, é necessário um esclarecimento, pois o argumento que se segue é facilmente mal interpretado. Não estou questionando se a glória de Deus é o propósito último da história. Pessoalmente, afirmo que é. Minha crítica se dirige a um ponto diferente do terceiro sine qua non de Ryrie: a afirmação de que a glória de Deus como tema unificador das Escrituras é algo distintivo do dispensacionalismo — uma característica sem a qual alguém deixa de ser dispensacionalista. É essa afirmação que quero examinar. E o exame, como veremos, produz resultados que nenhum dispensacionalista tradicional estará disposto a aceitar.

O Terceiro Sine Qua Non, Tal Como Enunciado

Segundo o sine qua non tríplice de Ryrie, o dispensacionalista se identifica por: (1) manter a distinção entre Israel e a Igreja, (2) uma hermenêutica consistentemente literal, e (3) a convicção de que o propósito subjacente da história — e o tema unificador da narrativa bíblica — é a glória de Deus, e não a salvação. O terceiro item é apresentado não como um lugar-comum piedoso partilhado com a tradição cristã mais ampla, mas como uma marca definidora do sistema. Sine qua non, afinal, significa "sem o qual, nada." Quem reprova nesse teste está fora.

O critério possui duas partes que normalmente se fundem: a glória de Deus como (a) o telos da história e (b) o tema unificador da narrativa bíblica. Minha objeção recai exclusivamente sobre (b). Quando o critério é aplicado — como habitualmente ocorre contra os dispensacionalistas progressivos —, é a segunda parte que realiza o trabalho efetivo de exclusão. A questão, portanto, é o que acontece quando esse mesmo critério é aplicado de forma consistente ao restante da tradição.

A Pesquisa

Realizei, então, a pesquisa. Fiz uma pergunta simples: quais dispensacionalistas efetivamente identificaram a glória de Deus como o tema unificador das Escrituras? E quais propuseram algo diferente? O que encontrei foi alarmante: uma vasta rede de falsos dispensacionalistas, à vista de todos por gerações, que finalmente precisam ser expostos.

A lista dos acusados — organizada pelo tema rival que tiveram a ousadia de propor — é a seguinte:

O Reino de Deus. Alva J. McClain, J. Dwight Pentecost, Michael J. Vlach, John S. Feinberg, Eugene Merrill, Herman A. Hoyt, Rick Griffith — e, o mais embaraçoso de todos, o próprio C. I. Scofield.

A Redenção. Glenn R. Kreider e T. Maurice Pugh.

Cristo. Willem VanGemeren.

As dispensações. Roy L. Aldrich.

E há ainda Lewis Sperry Chafer — o fundador do Dallas Theological Seminary, berço institucional do dispensacionalismo normativo —, que jamais defendeu um único tema unificador.

Pelo critério de Ryrie, a desqualificação é total e imparcial: defenda o tema unificador errado, como faz a maioria da tradição, e você está fora; não defenda nenhum tema unificador, como fez o homem que construiu a instituição, e você está igualmente fora. Não há terceira opção.

Os falsos dispensacionalistas foram expostos. A tradição está advertida.

O Que a Lista Realmente Demonstra

O exercício acima é, naturalmente, irônico. O ponto não é que McClain, Pentecost, Vlach, Feinberg, Scofield, Chafer e os demais não sejam dispensacionalistas. Evidentemente são. O ponto é que o critério que os excluiria é exatamente o mesmo rotineiramente utilizado para excluir os dispensacionalistas progressivos da tradição. Se o critério é sólido, ele derruba metade do panteão do dispensacionalismo. Se não é sólido, não deveria ser usado como mecanismo de exclusão contra ninguém.

Seguem algumas observações.

Primeiro, a diversidade de propostas é notável. Longe de existir um consenso dispensacionalista consolidado de que a glória de Deus é o tema unificador das Escrituras, a tradição produziu, de fato, uma pluralidade de candidatos: o Reino de Deus, a redenção, Cristo, as próprias dispensações. Esse não é um padrão marginal; ele inclui algumas das figuras mais centrais na história do sistema. O sine qua non pressupõe uma uniformidade que a tradição simplesmente não exibe.

Segundo, a convicção de que a glória de Deus é o telos de todas as coisas é amplamente compartilhada com a tradição cristã mais ampla. O Westminster Shorter Catechism começa com ela; Soli Deo Gloria é uma das cinco solas da Reforma; Jonathan Edwards dedicou tratados inteiros ao tema. Como convicção doxológica, ela não identifica ninguém em particular como dispensacionalista — identifica praticamente qualquer protestante clássico. O trabalho distintivo do terceiro sine qua non precisa, portanto, ser realizado pela afirmação mais específica de que a glória de Deus é o tema unificador das Escrituras e que a salvação não o é. E é precisamente nessa afirmação mais específica que tantos dispensacionalistas de destaque se afastaram de Ryrie.

Terceiro, o caso de Chafer é o mais revelador de todos. Chafer não é uma figura periférica; é o teólogo sistemático fundacional da tradição. Até onde sei, ele nunca propôs um único tema unificador das Escrituras. Se o terceiro sine qua non de Ryrie é o que define um dispensacionalista, então Chafer está desqualificado pelo silêncio — o que é absurdo. A conclusão razoável não é que Chafer fosse secretamente um teólogo da aliança, mas que o critério descreve incorretamente o que o dispensacionalismo de fato é.

A Ironia Tem Um Único Alvo

A ironia tem um único alvo, e não é a glória de Deus. O sine qua non de Ryrie é rotineiramente utilizado como arma contra os dispensacionalistas progressivos — uma declaração formal de que eles não pertencem mais à tradição. O exercício acima aplica essa mesma arma de forma consistente, e os resultados falam por si mesmos: o critério usado para expulsar os progressivos, se aplicado honestamente, expulsaria também Scofield, Chafer, Pentecost, Feinberg, Vlach e McClain junto com eles.

O problema, portanto, não está nos progressivos. O problema está em tratar o sine qua non de Ryrie como autoridade canônica inquestionável. Ou a canonização do critério é questionada — ou suas implicações são aceitas integralmente, e a tradição passa a expulsar todos os que não se enquadram. A aplicação seletiva não é uma opção. Um sine qua non que é exigido apenas dos progressivos, enquanto Scofield e Chafer ficam discretamente isentos, não é um critério teológico. É um critério político.

O Que Não Estou Dizendo

Para evitar a leitura equivocada mais previsível deste artigo, deixe-me reafirmar os limites do argumento.

Não estou negando que a glória de Deus seja o propósito último da história. Afirmo-o.

Não estou negando que a glória de Deus seja um candidato legítimo ao tema unificador das Escrituras. É um candidato sério entre vários que os próprios dispensacionalistas propuseram.

Não estou negando que a contribuição de Ryrie para a sistematização do dispensacionalismo seja significativa. É.

O que estou negando é a elevação de uma síntese temática particular — a glória de Deus como tema unificador das Escrituras, em oposição à salvação — ao status de sine qua non do dispensacionalismo. Essa elevação não sobrevive ao contato com a própria história da tradição. Os nomes que um dispensacionalista mais desejaria manter dentro do sistema são exatamente os nomes que o critério, aplicado de forma consistente, expulsa dele.

Se o critério expulsa Scofield, Chafer, McClain, Pentecost, Feinberg e Vlach, o critério está errado. E se o critério está errado em relação a eles, está errado em relação aos progressivos também.

FreeRequest: Matthew 24:4–31 — Chronology in Dispensationalism

The chronological view of more than 60 dispensational authors on Matthew 24 — request it by email below.

Enter your email and we will send the PDF as an attachment. See our privacy policy.

Share

Perguntas Frequentes

Este artigo nega que a glória de Deus seja o propósito último da história?
Não. O artigo afirma explicitamente que a glória de Deus é o propósito último da história. A crítica se dirige a uma afirmação diferente: a elevação de 'a glória de Deus como tema unificador das Escrituras, em contraste com a salvação' ao status de sine qua non do dispensacionalismo.
O que é o terceiro sine qua non de Ryrie?
A convicção de que o propósito subjacente de Deus na história — e o tema unificador da narrativa bíblica — é a glória de Deus, e não a salvação. Ryrie apresenta isso como uma das três marcas indispensáveis de um dispensacionalista, ao lado da distinção Israel/Igreja e de uma hermenêutica consistentemente literal.
Quais dispensacionalistas propuseram temas unificadores distintos da glória de Deus?
Muitos. O Reino de Deus: Alva J. McClain, J. Dwight Pentecost, Michael J. Vlach, John S. Feinberg, Eugene Merrill, Herman A. Hoyt, Rick Griffith e C. I. Scofield. A redenção: Glenn R. Kreider, T. Maurice Pugh. Cristo: Willem VanGemeren. As dispensações: Roy L. Aldrich. Lewis Sperry Chafer nunca propôs um tema unificador único.
Por que isso importa para os dispensacionalistas progressivos?
O sine qua non de Ryrie é habitualmente invocado para declarar que os dispensacionalistas progressivos não fazem mais parte da tradição. Se o mesmo critério for aplicado de forma consistente, ele também expulsa Scofield, Chafer, McClain, Pentecost, Feinberg e Vlach. Um critério que é aplicado somente contra os progressivos, enquanto silenciosamente isenta os fundadores da tradição, não é teológico, mas político.

Autor

Leonardo A. Costa

Pesquisador e escritor que explora o dispensacionalismo a partir de uma perspectiva progressiva, com profundo apreço pelo patrimônio da tradição.

Artigos Relacionados