Antes de prosseguir, é necessário um esclarecimento, pois o argumento que se segue é facilmente mal interpretado. Não estou questionando se a glória de Deus é o propósito último da história. Pessoalmente, afirmo que é. Minha crítica se dirige a um ponto diferente do terceiro sine qua non de Ryrie: a afirmação de que a glória de Deus como tema unificador das Escrituras é algo distintivo do dispensacionalismo — uma característica sem a qual alguém deixa de ser dispensacionalista. É essa afirmação que quero examinar. E o exame, como veremos, produz resultados que nenhum dispensacionalista tradicional estará disposto a aceitar.
O Terceiro Sine Qua Non, Tal Como Enunciado
Segundo o sine qua non tríplice de Ryrie, o dispensacionalista se identifica por: (1) manter a distinção entre Israel e a Igreja, (2) uma hermenêutica consistentemente literal, e (3) a convicção de que o propósito subjacente da história — e o tema unificador da narrativa bíblica — é a glória de Deus, e não a salvação. O terceiro item é apresentado não como um lugar-comum piedoso partilhado com a tradição cristã mais ampla, mas como uma marca definidora do sistema. Sine qua non, afinal, significa "sem o qual, nada." Quem reprova nesse teste está fora.
O critério possui duas partes que normalmente se fundem: a glória de Deus como (a) o telos da história e (b) o tema unificador da narrativa bíblica. Minha objeção recai exclusivamente sobre (b). Quando o critério é aplicado — como habitualmente ocorre contra os dispensacionalistas progressivos —, é a segunda parte que realiza o trabalho efetivo de exclusão. A questão, portanto, é o que acontece quando esse mesmo critério é aplicado de forma consistente ao restante da tradição.
A Pesquisa
Realizei, então, a pesquisa. Fiz uma pergunta simples: quais dispensacionalistas efetivamente identificaram a glória de Deus como o tema unificador das Escrituras? E quais propuseram algo diferente? O que encontrei foi alarmante: uma vasta rede de falsos dispensacionalistas, à vista de todos por gerações, que finalmente precisam ser expostos.
A lista dos acusados — organizada pelo tema rival que tiveram a ousadia de propor — é a seguinte:
O Reino de Deus. Alva J. McClain, J. Dwight Pentecost, Michael J. Vlach, John S. Feinberg, Eugene Merrill, Herman A. Hoyt, Rick Griffith — e, o mais embaraçoso de todos, o próprio C. I. Scofield.
A Redenção. Glenn R. Kreider e T. Maurice Pugh.
Cristo. Willem VanGemeren.
As dispensações. Roy L. Aldrich.
E há ainda Lewis Sperry Chafer — o fundador do Dallas Theological Seminary, berço institucional do dispensacionalismo normativo —, que jamais defendeu um único tema unificador.
Pelo critério de Ryrie, a desqualificação é total e imparcial: defenda o tema unificador errado, como faz a maioria da tradição, e você está fora; não defenda nenhum tema unificador, como fez o homem que construiu a instituição, e você está igualmente fora. Não há terceira opção.
Os falsos dispensacionalistas foram expostos. A tradição está advertida.
O Que a Lista Realmente Demonstra
O exercício acima é, naturalmente, irônico. O ponto não é que McClain, Pentecost, Vlach, Feinberg, Scofield, Chafer e os demais não sejam dispensacionalistas. Evidentemente são. O ponto é que o critério que os excluiria é exatamente o mesmo rotineiramente utilizado para excluir os dispensacionalistas progressivos da tradição. Se o critério é sólido, ele derruba metade do panteão do dispensacionalismo. Se não é sólido, não deveria ser usado como mecanismo de exclusão contra ninguém.
Seguem algumas observações.
Primeiro, a diversidade de propostas é notável. Longe de existir um consenso dispensacionalista consolidado de que a glória de Deus é o tema unificador das Escrituras, a tradição produziu, de fato, uma pluralidade de candidatos: o Reino de Deus, a redenção, Cristo, as próprias dispensações. Esse não é um padrão marginal; ele inclui algumas das figuras mais centrais na história do sistema. O sine qua non pressupõe uma uniformidade que a tradição simplesmente não exibe.
Segundo, a convicção de que a glória de Deus é o telos de todas as coisas é amplamente compartilhada com a tradição cristã mais ampla. O Westminster Shorter Catechism começa com ela; Soli Deo Gloria é uma das cinco solas da Reforma; Jonathan Edwards dedicou tratados inteiros ao tema. Como convicção doxológica, ela não identifica ninguém em particular como dispensacionalista — identifica praticamente qualquer protestante clássico. O trabalho distintivo do terceiro sine qua non precisa, portanto, ser realizado pela afirmação mais específica de que a glória de Deus é o tema unificador das Escrituras e que a salvação não o é. E é precisamente nessa afirmação mais específica que tantos dispensacionalistas de destaque se afastaram de Ryrie.
Terceiro, o caso de Chafer é o mais revelador de todos. Chafer não é uma figura periférica; é o teólogo sistemático fundacional da tradição. Até onde sei, ele nunca propôs um único tema unificador das Escrituras. Se o terceiro sine qua non de Ryrie é o que define um dispensacionalista, então Chafer está desqualificado pelo silêncio — o que é absurdo. A conclusão razoável não é que Chafer fosse secretamente um teólogo da aliança, mas que o critério descreve incorretamente o que o dispensacionalismo de fato é.
A Ironia Tem Um Único Alvo
A ironia tem um único alvo, e não é a glória de Deus. O sine qua non de Ryrie é rotineiramente utilizado como arma contra os dispensacionalistas progressivos — uma declaração formal de que eles não pertencem mais à tradição. O exercício acima aplica essa mesma arma de forma consistente, e os resultados falam por si mesmos: o critério usado para expulsar os progressivos, se aplicado honestamente, expulsaria também Scofield, Chafer, Pentecost, Feinberg, Vlach e McClain junto com eles.
O problema, portanto, não está nos progressivos. O problema está em tratar o sine qua non de Ryrie como autoridade canônica inquestionável. Ou a canonização do critério é questionada — ou suas implicações são aceitas integralmente, e a tradição passa a expulsar todos os que não se enquadram. A aplicação seletiva não é uma opção. Um sine qua non que é exigido apenas dos progressivos, enquanto Scofield e Chafer ficam discretamente isentos, não é um critério teológico. É um critério político.
O Que Não Estou Dizendo
Para evitar a leitura equivocada mais previsível deste artigo, deixe-me reafirmar os limites do argumento.
Não estou negando que a glória de Deus seja o propósito último da história. Afirmo-o.
Não estou negando que a glória de Deus seja um candidato legítimo ao tema unificador das Escrituras. É um candidato sério entre vários que os próprios dispensacionalistas propuseram.
Não estou negando que a contribuição de Ryrie para a sistematização do dispensacionalismo seja significativa. É.
O que estou negando é a elevação de uma síntese temática particular — a glória de Deus como tema unificador das Escrituras, em oposição à salvação — ao status de sine qua non do dispensacionalismo. Essa elevação não sobrevive ao contato com a própria história da tradição. Os nomes que um dispensacionalista mais desejaria manter dentro do sistema são exatamente os nomes que o critério, aplicado de forma consistente, expulsa dele.
Se o critério expulsa Scofield, Chafer, McClain, Pentecost, Feinberg e Vlach, o critério está errado. E se o critério está errado em relação a eles, está errado em relação aos progressivos também.
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Perguntas Frequentes
Este artigo nega que a glória de Deus seja o propósito último da história?
O que é o terceiro sine qua non de Ryrie?
Quais dispensacionalistas propuseram temas unificadores distintos da glória de Deus?
Por que isso importa para os dispensacionalistas progressivos?
Autor
Leonardo A. Costa
Pesquisador e escritor que explora o dispensacionalismo a partir de uma perspectiva progressiva, com profundo apreço pelo patrimônio da tradição.
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